CADERNO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
Agrarian Sciences Journal
Aspectos da apicultura: entrevistas com apicultores da Cooperativa do Vale do
Jequitinhonha
Juliana Rezende Sá Miranda Gonçalves
1
, Eliane Macedo Sobrinho Santos
2
*, Hércules Otacílio Santos
3
, Igor
Cardoso Costa
4
, Débora Martins Paixão
5
, Janainne Nunes Alves
6
, Ricardo Jardim Neiva
7
, Kattyanne de Souza
Costa
8
Resumo
Este estudo teve por objetivo levantar aspectos da apicultura por meio de entrevistas realizadas com alguns apiculto-
res da Cooperativa de Apicultutores do Vale do Jequitinhonha. Trata-se de um estudo descritivo-exploratório no qual
identificou-se que a maioria dos apicultores apresentam idade superior a 49 anos e mais de 72% dos entrevistados
possuem o ensino fundamental incompleto. Em 36% das famílias produtoras, há mais de um membro envolvido na
atividade e a comercialização do mel foi declarada como principal fonte de renda por 64% dos abordados. No entanto,
a apicultura é praticada utilizando tanto a mão de obra familiar quanto a não familiar. No que diz respeito ao pasto
apícola, os apicultores declararam grande participação das floradas de aroeira e silvestre, com baixos índices de pro-
dução por colmeia, totalizando volumes inferiores a 500kg de mel em 2016. Entretanto, três apicultores conseguiram
obter uma produção superior a 25 kg de mel por colmeia e pelo menos seis apicultores conseguiram inserir a produção
nos mercados e supermercados regionais. Os dados obtidos, demonstraram um número reduzido quanto ao total de
colmeias nos apiários, dentre os quais, uma porcentagem significativa realiza a retirada do mel das melgueiras na
chamada “casa do mel”. Quanto ao controle de pragas, este é realizado por apenas seis dos apicultores. Faz-se impor-
tante ressaltar que a maioria dos apicultores não adota o uso da alimentação de inverno. Pelo levantamento até então
realizado, conclui-se que a apicultura na região ainda se caracteriza pela prática rudimentar e tímida.
Palavras-chave: Vale do Jequitinhonha. Diagnóstico. Produtos apícolas.
Aspects of apiculture: interviews with beekeepers of the Jequitinhonha River Valley
Cooperative
Abstract
This study aimed to raise aspects of apiculture through interviews with some beekeepers of the Jequitinhonha River
Valley Apiculture Cooperative. It is a descriptive-exploratory study. It was found that most beekeepers are over 49
years old and over 72% of respondents have incomplete elementary school. In 36% of the producing families, there is
more than one member involved in the activity and the commercialization of honey was declared as the main source
1
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Araçuai. Araçuai, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-9627-6612
2
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Araçuai. Araçuai, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-1576-4957
3
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Araçuai. Araçuai, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0001-5399-9522
4
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Araçuai. Araçuai, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-8273-4598
5
PECEGE - Instituto de Pesquisa e Educação Continuada Economia e Gestão de Empresa Piracicaba - SP. Piracicaba, SP. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-2015-2613
6
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Diamantina. Diamantina, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-3388-7053
7
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais - Campus Araçuai. Araçuai, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-0571-5972
8
MSD - Site Montes Claros, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-5224-5830
*Autor para correspondência: eliane.santos@ifnmg.edu.br
Recebido para publicação em 27 de setembro de 2019. Aceito para publicação em 20 de novembro de 2019.
e-ISSN: 2447-6218 / ISSN: 2447-6218 / © 2009, Universidade Federal de Minas Gerais, Todos os direitos reservados.
Gonçalves, J. R. S. M. et al.
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of income by 64% of those approached. However, apiculture is practiced using both family and unfamiliar labor. Con-
cerning the apiculture pasture, beekeepers reported a large share of aroeira and sylvatic flowering, with low yields
per hive, totaling volumes of less than 500kg of honey in 2016. However, three beekeepers are able to produce more
than 25 kg. honey by beehive and there are at least six beekeepers who have managed to enter production in regio-
nal markets and supermarkets. Our data showed a reduced number of total beehives in the apiaries, among which a
significant percentage perform the removal of honey from the melgueiras in the so-called “honey house”. As for pest
control, this is carried out by only six of the beekeepers. Importantly, most beekeepers do not adopt the use of winter
feeding. From the survey conducted so far, it can be concluded that apiculture in the region is still characterized by
rudimentary and shy practice.
Keywords: Jequitinhonha River Valley. Diagnosis. Bee products.
Introdução
A multiplicidade de recursos naturais no Brasil,
sobretudo no Médio Jequitinhonha, permite o desen-
volvimento de uma série de atividades econômicas di-
retamente associadas ao uso racional da biodiversidade.
Entre essas atividades, destaca-se a criação de abelhas
ou apicultura, uma atividade produtiva em expansão,
que se apresenta como uma alternativa promissora de
exploração em propriedades rurais (Batista Júnior, 2013).
Essa atividade gera produtos diversificados, entre eles:
mel, cera, apitoxina, própolis, geleia real e pólen que
apresentam características singulares devido à riqueza
da flora e do clima brasileiros que aliados à presença de
diferentes espécies de abelhas, representam uma opor-
tunidade única para o agronegócio no país (Silveira e
Souza, 2015).
A apicultura é uma atividade desenvolvida em
maior ou menor escala em todo Brasil, gerando renda,
emprego e possibilidade de fixação de jovens no campo
(Camargo et al., 2003; Freitas, 1996; Wolff e Santos,
2008). Além de permitir aos apicultores, a conciliação
com outras atividades econômicas, fontes de renda, por
trata-se de uma atividade que não necessita de cuidados
diários (Sabbag e Nicodemo, 2011). A região do Médio
Jequitinhonha, mesmo situada numa área que sofre com
estiagens frequentes, tem uma produção apícola satis-
fatória, quando comparada à outras regiões do sudeste
brasileiro. No entanto, por diversos fatores, essa produção,
ainda se apresenta aquém da sua capacidade.
Essa produção incipiente é contrastada pela di-
versidade de plantas melíferas e pelo elevado número
de colônias encontradas na natureza. Atividade latente
que pode ser restruturada com o auxílio das inovações
tecnológicas que estão sendo desenvolvidas pelo Insti-
tuto Federal de Minas Gerais (IFNMG) no Médio Jequi-
tinhonha para o setor da apicultura. Um potencial que
torna necessária a condução de análises e diagnósticos
para implementação dessa economia na região. Reali-
zada mediante um processo construtivo que possibilite
a elaboração de instrumentos informativos e formativos
àqueles que tem o intuito de investir na apicultura.
Por tratar-se de uma alternativa econômica viável
e adequada à produção familiar é fundamental traçar um
perfil do mercado, do produto e das atitudes do apicultor
enquanto empreendedor. E pelo fato dos diagnósticos
contribuirem para organização do plano de produção, o
presente estudo teve por objetivo levantar aspectos da
apicultura por meio de entrevistas realizadas com alguns
apicultores da Cooperativa de Apicultores do Vale do
Jequitinhonha, como forma de conhecer a atividade na
região e assim propor intervenções.
Material e métodos
Este estudo foi realizado com alguns apicultores
da Cooperativa de Apicultores do Vale do Jequitinhonha
(COOAPIVAJE), na cidade de Turmalina MG. O Vale
do Jequitinhonha é uma região situada a nordeste do
estado de Minas Gerais, cortada pelo Rio Jequitinhonha,
cujo principal afluente é o Rio Araçuaí. Caracterizada
por um relevo constituído por chapadas planas e grotas
profundas, num clima semiárido com predominância
da Caatinga, Cerrado e resquícios de Mata Atlântica,
temperatura média entre 21 a 24°C e precipitação anual
abaixo de 1.000 mm (Maia e Silva, 2008).
Para realização do estudo foi conduzida uma
pesquisa descritivo-exploratória com o propósito de
realizar o levantamento de dados acerca da produção
de mel regional. Foi adotado o procedimento amostral
simples, no qual os apicultores foram indicados para
participar da pesquisa por meio da metodologia Bola de
Neve (Biernarck e Waldorf, 1981). As entrevistas tiveram
início com um apicultor que participou da Assembleia
de apicultores em Turmalina”, no ano de 2017, o qual
indicou os demais participantes.
Os roteiros de entrevistas apresentaram dados
referentes à: Idade (anos), Número de pessoas na ati-
vidade, Escolaridade, Associativismo, Fonte de renda,
Produtividade (kg de mel) por colmeia, Número total
de colmeias, Pasto apícola em área de florestamento de
eucalipto, Anos de experiência na apicultura, Pasto Apícola
mais distante da Residencia (km), Quantidade de áreas
utilizadas, Floradas, Local de processamento, Proximidade
mínima de outros apiários (Km), Número máximo de
melgueiras transportadas até o local de processamento,
Frequência semanal de visitas ao apiário, Pagamento de
pasto apícola, Número máximo de melgueiras por colmeia,
Frequência de troca da cera, Combate pragas, Alimenta-
ção de inverno, Distância da água (metros), Técnica de
coleta do mel, Transporte das melgueiras, Recipientes
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de embalagem, Obtenção de informações de mercado,
Instrução (cursos) na área, Extração de própolis, Número
total de caixas-isca, Mão de obra utilizada, Abrangência
de vendas, Quantidade de mel (Kg) colhida em 2016.
Os aspectos da apicultura foram levantados,
mediante informações disponibilizadas pelos 11 apicul-
tores que se disponibilizaram a fazerem parte das entre-
vistas. Os dados obtidos com a aplicação das entrevistas
estruturadas, foram tabulados e inseridos em gráficos
para melhor análise e compreensão. Os resultados foram
analisados com o auxílio do software Graphpad Prism 5
(Silva, 2007).
Resultados e discussão
Os dados obtidos (Figura 1 a 7) nos permitem
inferir que a apicultura no Médio Jequitinhonha se ca-
racteriza pela prática rudimentar e tímida. No entanto,
estes dados também retratam o potencial da apicultura
na região, como fonte geradora de renda e promotora
da conservação dos ambientes naturais e paisagens cul-
tivadas.
Por tratar-se de uma atividade com reduzido
uso de água na manutenção das colmeias, a apicultura
representa uma possibilidade de convivência com o clima
da região. Contribuindo com a melhora na ocupação,
emprego e a renda do homem no campo, uma vez que,
a sua cadeia produtiva favorece a criação de postos de
trabalho e fluxos de renda durante todo o ano (Golynski,
2009).
A Figura 1 permite delinear o perfil dos apiculto-
res regionais. Verificou-se que na área de estudo, a faixa
etária varia de 28 a 70 anos, predominado trabalhadores
com idade superior a 49 anos. Entre os entrevistados,
mais de 72% possuem o ensino fundamental incompleto
e pouco mais de 27% possuem ensino médio/técnico. Em
36% das famílias há a presença de mais de uma pessoa
envolvida com a atividade. E na maioria destas famílias,
a principal fonte de renda é composta por recursos pro-
venientes da produção e comercialização do mel, o que
determina um público de 64% (sete entrevistados), que
têm a atividade como fonte substancial de renda.
Figura 1 – Perfil dos apicultores entrevistados
Quanto à escolaridade, o estudo revela a ne-
cessidade de capacitação de novos apicultores e requa-
lificação daqueles que exercem a atividade. Estraté-
gia que pode ser adotada como procedimento inical ao
processo de estruturação do negócio apícola no Médio
Jequitinhonha. O investimento na formação destes tra-
balhadores é essencial, uma vez que, como mencionado
pelos entrevistados, a maioria a comercialização do mel
como principal fonte de renda familiar. Grande parte
dos entrevistados possui experiência entre 3 e 15 anos
na criação de abelhas (Figura 2a), realizaram algum
tipo de curso para auxiliar nas atividades apícolas e em
algum momento tiveram oportunidade de participar
de treinamentos relacionados à atividade (Figura 2c).
Entretanto, percebeu-se a necessidade de renovação das
práticas pelos produtores, pois, muitos relataram conduzir
informalmente a atividade em associações (Figura 2b).
Dado que determina uma necessidade imininete de as-
sistência técnica especializada para o exercício correto
do associativismo associado à obtenção de lucros.
A apicultura entre os entrevistados é praticada
utilizando tanto a mão de obra familiar quanto a não
Gonçalves, J. R. S. M. et al.
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familiar (Figura 2d). O que demonstra que o exercí-
cio apícola pode ser praticado por pequenos e grandes
produtores, constituindo uma atividade importante e
promissora para ambos. A apicultura não exige dedica-
ção exclusiva, possibilindo o desenvolvimento de outras
concomitantemente. O que viabiliza a geração de renda
pela diversificação da produção na propriedade. Dados
literários destacam a apicultura como a atividade de
valor social, econômico e ambiental, com potencial de
exequibilidade em praticamente todo tipo de propriedade
rural (Lima, 2005). Integrando um segmento produtor
que tem despertado interesse social, por se tratar de
um empreendimento de fácil manutenção e baixo custo
inicial em relação às demais atividades agropecuárias
(Golynski, 2009).
Figura 2 – Qualificação da mão de obra utilizada na apicultura.
O conhecimento da flora apícola possibilita a
identificação, preservação e multiplicação das espécies
vegetais mais importantes na área (Wiese, 1985). No que
diz respeito ao pasto apícola, os apicultores do Médio
Jequitinhonha declararam grande participação das flo-
radas de aroeira e silvestre na produção do mel (Figura
3a). Entretanto, cinco apicultores relataram que utilizam
pasto apícola dentro de área de reflorestamento de euca-
lipto (Figura 3c). Ainda foi declarado que a maioria dos
pastos apícolas se situam a menos de 50 km dos apiários
(Figura 3b). Do total de apicultores entrevistados, seis
pagam algum tipo de pasto apícola para conseguirem
uma boa produção de mel (Figura 3D).
Conhecer o comportamento dos fluxos de pro-
dutos apícolas em relação às variações climáticas que
influenciam diretamente na flora apícola de uma região
e, consequentemente no nível de aproveitamento desses
recursos pelas abelhas, é a base para uma apicultura
sustentável (Santos et al., 2006). Uma ferramenta que
tem sido bastante utilizada, visando garantir a qualidade
do mel e do pólen é a análise polínica (Luz et al., 2007);
que além de ser um indicativo seguro do período de
produção, origem botânica e geográfica de um produto
apícola (Barth, 2004), ajuda a agregar valor de mercado
a esses produtos (Jones e Bryant, 1996). Somando que,
essa ferramenta tem contribuído para o desenvolvimento
da apicultura no Brasil (Luz et al., 2007).
Faz-se importante mencionar que no presente es-
tudo, não foi registrado nenhum procedimento específico
com o intuito de maximizar o aproveitamento da florada
e a produção do mel e de outros produtos da colmeia.
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Figura 3 – Informações sobre pasto apícola utilizado pelos apicultores
De modo geral, os maiores consumidores do mel
produzido pelos apicultores entrevistados são vizinhos,
amigos e conhecidos que recebem o produto diretamente
em suas casas ou providenciam a coleta nas residências
dos apicultores. Há, pelo menos, seis apicultores que con-
seguiram inserir a produção nos mercados e supermerca-
dos regionais (Figura 4c e 4d). A maioria dos apicultores
relatou obter informações acerca do mercado apícola,
o que os fazem copreender que a apicultura representa
uma possibilidade real de negócios e inclusão social. De
acordo com levantamento realizado, a colheita de mel no
Médio Jequitinhonha e entorno pode acontecer durante
todo o ano, devido a diversidade da flora presente na
região. o preço do litro, depende da época do ano,
espécie de abelha e perfil do apicultor.
Figura 4 – Dados da produção à comercialização do mel
Gonçalves, J. R. S. M. et al.
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Constatou-se que, com exceção de um apicultor
que possui um número muito pequeno de colmeias e um
apicultor que possui um grande número de colmeias,
o número total de colmeias nos apiários é pequeno ou
médio (Figura 5a) e geralmente o número máximo de
melgueiras por colmeia é maior que dois (Figura 5b).
Quando perguntados sobre o principal motivo dos núme-
ros reduzidos de colmeias, os entrevistados mencionaram
as dificuldades relacionadas à comercialização do produto
e necessidade de desenvolvimento de outras atividades,
além da falta de assistência técnica e recursos para rea-
lizar novos investimentos. O estado de conservação das
colmeias não foi avaliado, uma vez que, não houve visita
aos apiários.
O levantmaneto demonstra que as melgueiras
são quase sempre transportadas adequadamente até o
local de processamento, sendo este manejo realizado em
veículo particular (Figura 5c e 5d). Procedimento que
corrobora com outros estudos apresentados na literatura.
Por exemplo, em estudo realizado no município de Pires
do Rio - GO, verificou-se que 54 % dos apicultores reali-
zam o transporte dos favos de mel de maneira adequada,
por meio da utilização de caixas plásticas previamente
higienizadas, lonas e telas (Ananias, 2010).
Figura 5 – Caracterização dos apiários: colmeias e melgueiras
Entre os entrevistados, dez utilizam mais de
duas áreas diferentes para a instalação dos apiários,
com proximidade mínima entre os apiários superior a
1km (Figura 6a e 6b). Como não ocorreram visitas aos
apiários, não existem dados disponíveis sobre a distância
média exata entre eles. Apenas um apicultor relatou a
presença de fonte de água a uma distância inferior a
100m (Figura 6c). Ter fonte água próxima aos apiários
é um fator importante para uma boa produção pelas
abelhas. Tendo em vista que as espécies, utilizam a água
no controle da temperatura da colmeia e na produção de
alimentos para as crias. Dessa forma, a fonte de água do
presente estudo é um ponto positivo para os apicultores
entrevistados.
Na época das chuvas, os apicultores declararam
ter problemas de acesso aos apiários. Devido a dificuldade
de acesso as visitas aos apiários geralmente ocorrem me-
nos de uma vez por semana, pela maioria dos apicultores
entrevistados. O que implica em dificuldade ao manejo e
exige maior energia por parte do apicultor, pois, muitos
acessos são realizados a pé, obrigando-os a improvisarem
algumas técnicas para facilitar o dia-a-dia de trabalho. Esta
realidade observada no presente estudo, pode também
ser verificada em apiários situados em outras regiões do
país. Tem sido constatado, por exemplo, que cerca de
20% dos apiários avaliados no município de Monteiro
Lobato-SP estavam em áreas inadequadas e de acesso
(DIB, 2009).
O número reduzido de visitas aos apiários pode
prejudicar a produção do mel e acarretar técnicas de
manejo inadequadas. Assim, o local de instalação do
apiário deve dispor de boas estradas, apresentando condi-
ções favoráveis para o escoamento dos produtos apícolas
(Sodré et al, 2003).
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Figura 6 – Caracterização dos apiários: localização
A maioria dos entrevistados realiza a retirada do
mel das melgueiras na chamada “casa do mel” (Figura 7a),
um local específico para tal finalidade. Os demais extraem
o mel de forma mais rústica, em um cômodo separado
da casa, localizado na área urbana ou diretamente no
local dos apiários. A retirada do mel realizada de forma
adequada na “casa do mel” implica na obtenção de pro-
dutos de melhor qualidade atendendo às boas práticas de
produção apícola. Considerando este quesito, a situação
verificada nos apiários do Médio Jequitinhonha, está em
melhores condições em comparação a outras localidades
do país. Em estudo realizado no município de Pires do Rio,
Estado de Goiás, por exemplo, apenas 36 % dos apiculto-
res possuíam casa de mel para realizar o processamento
dos favos (Ananias, 2010). Essa vantagem dos apiários
dos apicultores entrevistados pode estar relacionada à
presença da COOAPIVAJE – Cooperativa de apicultores
do Vale do Jequitinhonha, localizada do município de
Turmalina – MG, que oferece aos apicultores associados
uma infraestrutura adequada para a coleta do mel.
No presente estudo, com exceção de dois apicul-
tores, a extração ocorre durante a noite, na maioria dos
casos. Para a extração do mel, nenhum dos entrevistados
utilizam centrífugas e 64% chacoalham os favos com as
mãos (Figura 7b). Nenhum dos entrevistados utiliza uma
mesa desoperculadora de madeira; e 82% dos entrevis-
tados declararam embalar o mel imediatamente após a
filtragem em embalagens para atacado e varejo (Figura
7c).
O combate a pragas é uma técnica realizada
por seis dos apicultores entrevistados (Figura 7d). As
principais pragas enfrentadas pelos apicultores foram as
formigas, traças, ácaros e cupins, os quais, foram mencio-
nados somente pelo nome popular, o que não permitiu
estimar o número de espécies por grupo taxonômico.
Alguns apicultores declararam já ter utilizado produtos
químicos dentro da colmeia para controlar os ácaros.
Como os apiários, em sua maioria, são de pequeno
porte, o número total de caixas-isca é geralmente menor
ou igual a 15 (Figura 7e). Ainda com relação às técnicas
de manejo utilizadas pelos apicultores, foi relatado que a
troca de cera ocorre quase sempre ao escurecer (Figura
7f). Com o passar do tempo as abelhas começam a rejeitar
a cera presente nos quadros de ninho, dessa forma faz-se
necessário que o apicultor verifique periodicamente a sua
qualidade nos quadros de ninho, realizando a substitui-
ção por uma nova. Esta técnica de manejo adotada pelos
apicultores do presente estudo não diferencia muito dos
dados obtidos em outros apiários em diferentes locais do
Brasil. Em estudo realizado no município de Monteiro
Lobato SP, por exemplo, foi constatado que 70 % dos
apicultores avaliados realizam a troca de cera gradati-
vamente (DIB, 2009).
A maioria dos apicultores não adotam o uso da
alimentação de inverno (Figura 7g). Quando o período
chuvoso termina e se inicia o seco, a flora apícola dimi-
nui drasticamente. Dessa forma, surge a necessidade de
fornecimento de alimento para as colônias presentes no
apiário. Neste sendito, observou-se que 64% dos entre-
vistados afirmaram não fornecer alimentação de subsis-
tência ou estimulante, a fim de manter as colônias em
boas condições nos períodos de escassez de néctar e/ou
pólen (Figura 7). Segundo Drumond e Souza (2010),
para alguns apicultores o fornecimento de alimentação
artificial representa uma tentativa de falsificar o mel,
embora reconheçam que as abelhas necessitam de reser-
Gonçalves, J. R. S. M. et al.
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vas de alimento suficientes para atender a sua própria
alimentação e das crias em desenvolvimento.
O mel é o principal produto comercializado pe-
los apicultores entrevistados. Todavia, 54% deles co-
mercializaram ou doaram outros produtos das abelhas
africanizadas, como própolis (Figura 7h). O mel, o pólen,
a própolis, a geléia real, a cera, a apitoxina, produzidos
dentro de normas tecnicamente corretas, têm boa aceita-
ção no mercado consumidor e proporcionam rendimentos
econômicos compensadores (Senar, 2010).
Figura 7 – Manejo e tecnologias empregados na manutenção das colmeias e coleta do mel
Diante do exposto, conhecer a situação dos
produtores envolvidos na apicultura na região, permiti
sugerir novas pesquisas que visem desenhos específicos
para maximizar a produção de mel e seus subprodutos.
Pesquisas na vertente tecnológica, como desafio para
outros estudos, assim como, a inclusão de análises de
indicadores sociais, políticas de incentivos, formas de
organização e comercialização da produção, com a finali-
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dade de compreender a importância destes elementos de
forma sistêmica. Além disso, o delinemamento do perfil
profissional na área, pode contribuir com o desenvolvi-
mento e disponibilização adequada assistência técnica
e de extensão rural direcionada aos apicultores e do
Médio Jequitinhonha, assim como, o desenvolvimento
de conhecimento aplicado que vise a capacitação tecno-
lógica e gerencial.
Conclusão
A presente pesquisa ressalta as limitações es-
truturais e as dificuldades de acesso à tecnologia e aos
serviços de assistência dos apicultores no Médio Jequiti-
nhonha e serve como material de referência à promoção
do desenvolvimento da apicultura regional. No entanto,
enfatiza-se a necessidade de continuidade nos estudos,
abrangendo número maior de apicultores.
Este estudo foi conduzido com o propósito de
contribuir com a formulação de políticas públicas e de-
senvolvimento de tecnologias que estimulem a promoção
dessa atividade na região. Espera-se que a melhora nos
processos produtivos e de comercialização dos produtos
oriundos das abelhas, agregue valor à produção apícola
familiar e comercial, aprimorando a organização dos
apicultores e a transmissão de conhecimentos acerca
dessa atividade.
Agradecimentos
Ao Instituto Federal do Norte de Minas Gerais
(IFNMG) - Campus Araçuaí, MG e à Cooperativa de Api-
cultores do Vale do Jequitinhonha (COOAPIVAJE) Tur-
malina, MG, Brasil.
Financiamento
Este estudo foi apoiado pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Mi-
nistério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA),
Chamada Nº 21/2016 - Linha 2: Manutenção de Núcleo
de Estudo em Agroecologia e Produção Orgânica (NEA),
Processo: 402913/2017-5
Aprovação do Comitê de Ética
Este estudo foi executado conforme os pre-
ceitos éticos de pesquisa em seres humanos (CAAE:
98183718.0.0000.5146, aprovada com Número do Pa-
recer: 3.037.374).
Referências
Ananias, K. R. 2010. Avaliação das condições de produção e qualidade
de mel de abelhas (Apis Mellifera L.) produzido na microrregião de
Pires do Rio, no Estado de Goiás. Disponível em: https://repositorio.
bc.ufg.br/tede/bitstream/tde/1423/1/dissertacao%20karla%20
r%20ananias.pdf.
Barth, O. M.