CADERNO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
Agrarian Sciences Journal
Controle da dor em bovinos: revisão bibliográfica
Jackson Schade
1
*, Michail Sabino Moroz
2
, Anderson Fernando de Souza
3
, Beatriz Tofani Maia
4
, Juliana
Massitel Curti
5
, Gustavo Romero Gonçalves
6
, Peterson Triches Dornbusch
7
DOI: https://doi.org/10.35699/2447-6218.2021.26317
Resumo
Com a crescente preocupação social quanto ao tratamento moral e ético dos animais de produção, o controle da dor
em bovinos é um tema de grande relevância. Levando em consideração que os animais de produção são os que mais
sofrem com a dor dentre os animais domésticos, faz-se necessário o desenvolvimento de estratégias e alternativas que
minimizem o sofrimento e melhorem a qualidade de vida destes animais. É de extrema relevância conhecer as vias
fisiopatológicas da dor, bem como classificá-las como adaptativa ou não adaptativa, crônica ou aguda, levando em
consideração aspectos como intensidade e duração do estímulo doloroso. A utilização de estratégias que minimizem
e previnam a ocorrência da dor é importante principalmente em casos de dor aguda resultante de procedimentos
cirúrgicos. A utilização de anestésicos locais, anti-inflamatórios (esteroidais e não esteroidais), analgésicos sedativos
(alfa-2 agonistas, opioides e antagonistas dos receptores NMDA), bem como possíveis associações, tem se mostrado
eficaz em bovinos. Entretanto, vale ressaltar que para a utilização dos diferentes fármacos disponíveis, é necessário o
conhecimento de farmacocinética, início de ação, duração, técnicas e vias de administração. A compreensão dos me-
canismos associados à dor, bem como a seleção racional de fármacos, é necessária para que o subsequente tratamento
da dor obtenha êxito, evitando assim, casos de progressão de dor aguda em crônica, que possam tornar o paciente
refratário ao tratamento. O objetivo do presente trabalho é descrever as vias fisiopatológicas da dor, bem como as
características dos principais fármacos disponíveis para o tratamento da dor em bovinos.
Palavras-chave: Bem estar animal. Qualidade de vida. Ruminante. Terapia Analgésica.
Pain control in cattle: literature review
Abstract
With the growing social concern about the moral and ethical treatment of farm animals, pain control in cattle is a
topic of great relevance. Whereas farm animals suffer the most from pain among domestic animals, it is necessary
to develop strategies and alternatives that minimize suffering and improve the quality of life of these animals. It is
extremely important to know the pathophysiological pathways of pain, as well as to classify it as adaptive or non-a-
daptive, chronic or acute, taking into account aspects such as intensity and duration of the painful stimulus. The use
1
Universidade Positivo, Curitiba, PR. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-2267-2946
2
Universidade Positivo, Curitiba, PR. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-7262-2541
3
Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP. Brasil.
https://orcid.org/0000-0001-8066-4787
4
Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, SP. Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-1476-6894
5
Centro Universitário Ingá, Maringá, PR. Brasil.
https://orcid.org/0000-0001-9587-0073
6
Centro Universitário Ingá, Maringá, PR. Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-1467-1406
7
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-0280-6548
*Autor para correspondência: schademv@gmail.com
Recebido para publicação em 17 de novembro de 2020. Aceito para publicação em 02 de fevereiro de 2021.
e-ISSN: 2447-6218 / ISSN: 2447-6218 / © 2009, Universidade Federal de Minas Gerais, Todos os direitos reservados.
Schade, J. et al.
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of strategies that minimize and prevent the occurrence of pain is important, especially in cases of acute pain resulting
from surgical procedures. The use of local anesthetics, anti-inflammatory drugs (steroidal and non-steroidal), sedative
analgesics (alpha-2 agonists, opioids and NMDA receptor antagonists), as well as possible associations, have been
shown to be effective in cattle. However, is necessary to knowledge the pharmacokinetics, such as onset of action,
duration, techniques and routes of administration, which are different for the different types of drugs available. For
the pain management to be successful, it is necessary to understand the mechanisms associated with pain as well as
the rational selection of drugs, avoiding cases of acute chronic pain progression, which may lead the patient refractory
to treatment. Thus, the aim of the present study is to describe the pathophysiological pathways of pain, as well as the
characteristics of the main drugs available for treatment of pain in cattle.
Keywords: Analgesic therapy. Animal welfare. Quality of life. Ruminant.
Introdução
Os animais de produção são os que mais sofrem
com a dor entre os animais domésticos. Condições clíni-
cas dolorosas e a realização de procedimentos cirúrgicos
cruentos com a finalidade de aumentar a capacidade
produtiva ou corrigir problemas relacionados com a pro-
dução são frequentes nestas espécies (Luna, 2008). Dor
de origem iatrogênica devido à realização de procedi-
mentos cirúrgicos, tais como, descorna ou castração, ou
associados a doenças, incluindo claudicações, desordens
abdominais ou infecções são frequentemente observados
em bovinos (Stock e Coetzee, 2015). No entanto, a pro-
filaxia para a dor ou o tratamento analgésico são muitas
vezes negligenciados (Luna, 2008).
Atualmente, a preocupação social quanto ao
tratamento moral e ético dos animais de produção está se
tornando cada vez mais frequente (Rollin, 2004). Neste
contexto, o controle da dor deveria ser considerado para
minimizar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida
destes animais (Anderson e Muir, 2005a). A administração
de fármacos para o alívio da dor em bovinos é variável
entre Médicos Veterinários (Anderson e Edmondson,
2013). Em um levantamento realizado no Canadá, 6,9%
dos bezerros de corte e 18,7% dos bezerros leiteiros sub-
metidos a castração receberam medicação analgésica por
Médicos Veterinários (Hewson et al., 2007). Em outro
estudo, realizado no Reino Unido, os Médicos Veterinários
questionados utilizavam pelo menos um fármaco analgé-
sico (AINE (anti-inflamatório não esteroidal), α2-agonista
ou anestésico local) em cirurgias de castração (74,9%),
descorna (98,8%) e cesariana (99,7%), entre outros
procedimentos (Huxley e Whay, 2006).
O objetivo do presente trabalho é descrever as
vias fisiopatológicas da dor em animais, bem como as
características dos principais fármacos disponíveis para
o controle da dor em bovinos.
Metodologia
Uma busca bibliográfica foi realizada nas bases
de dados Google Scholar, ScienceDirect, PubMed, Scielo e
CAB Abstracts, utilizando os termos: “farm animals”, “food
animals” “bovine”, “cattle”, “cow”, “pain”, “analgesia”.
Não houve restrição de data de publicação ou idioma.
Dor em animais
Dor é definida pela International Association for
the Study of Pain (IASP) como “experiência sensorial e/
ou emocional desagradável associada à lesão tecidual real
ou potencial, ou descrita em termos de tal lesão”. Esta
definição, embora estabelecida para seres humanos, tem
sido uniformemente aplicada para animais (Hellebrekers,
2002), sendo extremamente ampla e aberta para inter-
pretação (Leslie e Petersson-Wolfe, 2012). Trata-se de
uma experiência subjetiva acompanhada de alterações
emocionais como medo, ansiedade e até mesmo pânico
(Andrade e Cassu, 2008).
No passado, acreditava-se que os animais não
possuíam qualquer sensação de dor, da forma como o ser
humano a conhecia, pois eram, em geral, considerados
inferiores ao homem do ponto de vista evolutivo ou de
desenvolvimento (Leslie e Petersson-Wolfe, 2012). De
acordo com o princípio de analogia, se os animais possuem
elementos neurais e consequências biológicas (fisiológi-
cas, neuroendócrinas e comportamentais) semelhantes,
se não iguais aos humanos, é muito provável que sintam
dor de forma parecida (Anderson e Muir, 2005a).
A dor pode ser classificada de maneira ampla em
adaptativa e não adaptativa. A dor adaptativa aumenta
o potencial de sobrevivência por proteger o animal de
uma lesão e promover a cura. Pelo contrário, a dor não
adaptativa é uma doença criada por processos patológicos
que resultam na persistência da dor muito tempo depois
que a causa inicial foi removida (Anderson e Muir, 2005b).
Dor adaptativa
O componente fisiológico da dor é chamado de
nocicepção, que consiste dos processos de transdução,
transmissão, modulação, projeção e percepção dos sinais
neurais gerados em resposta a um estímulo nocivo (An-
derson e Muir, 2005b; Klaumann et al., 2008).
Receptores de auto limiar (nociceptores) locali-
zados nas terminações nervosas aferentes finas ou não
mielinizadas Aδ e C, respectivamente (fibras aferentes
primárias), codificam o estímulo nocivo (mecânico, tér-
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mico ou químico) em potenciais de ação (transdução),
que são transmitidos para o corno dorsal da medula
espinhal pelas fibras aferentes primárias, liberando glu-
tamato na membrana pré-sináptica (transmissão). Os
receptores α-amino-3hidroxi-5-metil-4-isoxazolpropiô-
nico (AMPA) e kainato (KA) presentes na membrana
pós-sináptica (neurônio de segunda ordem) são ativados
pelo glutamato e atuam como mediadores primários da
transmissão excitatória rápida da dor (Anderson e Muir,
2005a). Os neurônios de segunda ordem formam um
complexo sistema de vias diretas e indiretas de transmis-
são de informações nociceptivas que enviam o estímulo
ao tálamo, mesencéfalo, sistema límbico e formação
reticular. Estes centros nervosos são responsáveis pela
percepção da dor, incluindo a localização e intensidade,
bem como aspectos afetivos e cognitivos (Klaumann et
al., 2008). As informações sensoriais recebidas pelo en-
céfalo são moduladas por vias excitatórias e inibitórias
descendentes (Anderson e Muir, 2005b). Estas projeções
descendentes podem inibir a descarga dos neurônios de
segunda ordem, atuando diretamente sobre eles por ini-
bição de interneurônios excitatórios ou por estimulação
de interneurônios inibitórios (Klaumann et al., 2008).
A inibição descendente é mediada principalmente por
serotonina, noradrenalina e opioides endógenos. Estas
substâncias hiperpolarizam os neurônios do corno dorsal,
tornando-os menos sensíveis aos estímulos nociceptivos
(Rang et al., 2007). Na ausência de lesão tecidual, dor é
considerada como sendo “fisiológica” e consiste em uma
resposta protetora que utiliza as vias sensoriais normais,
sinalizando o potencial para o desenvolvimento de uma
lesão tecidual (Anderson e Muir, 2005a).
Dor não adaptativa
Quando o estímulo nocivo é suficiente para causar
lesão no tecido ou nervo, com consequente resposta infla-
matória, a dor é considerada patológica e frequentemente
envolve o desenvolvimento de sensibilização periférica
e sensibilização central (Anderson e Muir, 2005a). O
processo inflamatório associado a lesão inclui eventos
vasculares e celulares que resultam da liberação de me-
diadores químicos, migração de células inflamatórias e
ativação de cascatas enzimáticas (Rang et al., 2007). A
sensibilização periférica associada a inflamação ocorre
com a liberação e disseminação local de íons hidrogênio
e potássio, prostaglandinas (PGE2 e PGI2), histamina,
serotonina, bradicinina, noradrenalina, substância P, ci-
tocinas (TNFα, IL-1 e 6) e quimiocinas (Hellebrekers,
2002; Kamerling, 2006). Estas substâncias atuam siner-
gicamente, produzindo uma “sopa sensibilizadora”, que
diminui o limiar dos nociceptores e ativa nociceptores
silenciosos. Como consequência, o estímulo que antes era
percebido como inócuo (não doloroso) passa a ser uma
experiência dolorosa (Hellebrekers, 2002; Klaumann et
al., 2008), resultando em uma zona de hiperalgesia pri-
mária. Vasodilatação local e extravasamento de plasma
resulta em amplificação da resposta inflamatória e a pro-
pagação da hipersensibilidade para os tecidos adjacentes
(hiperalgesia secundária) (Anderson e Muir, 2005a).
A sensibilização central consiste em alteração
dinâmica na excitabilidade dos neurônios do corno dorsal,
que modifica suas propriedades nos campos receptivos
(Klaumann et al., 2008). Os estímulos periféricos per-
sistentes, provenientes do tecido danificado, resultam
em aumento da liberação de substância P, neurocinina
A, neurotrofinas e glutamato nos terminais centrais da
fibra aferente primária (Kamerling, 2006). Estímulos
frequentes das fibras aferentes geram a somação dos
potenciais de ação e consequente despolarização pós-
-sináptica cumulativa. O glutamato ativa os receptores
N-metil-D-aspartato (NMDA), o qual é fosforilado para
deslocar o bloqueio exercido pelo íon magnésio (“wind
up”). A ativação dos receptores NMDA conduz ao aumento
da concentração de cálcio nos neurônios do corno dorsal,
resultando em aumento da excitabilidade e descargas
ectópicas espontâneas. A produção de substâncias sen-
sibilizadoras (prostaglandinas) pelas células gliais em
resposta ao aumento da concentração de citocinas no
líquido cerebroespinhal (TNFα e IL-1) também contribui
para o aumento da excitabilidade neuronal sensorial no
corno dorsal (Anderson e Muir, 2005b). Como resultado
do processamento central alterado no corno dorsal da me-
dula espinhal, as fibras Aβ que antes respondiam apenas
às sensações inócuas, são agora recrutadas gerando dor
(Klaumann et al., 2008). Dessa forma, acredita-se que a
sensibilização dos neurônios do corno dorsal (sensibili-
zação central) seja responsável pela sensação dolorosa
a estímulos que habitualmente não causariam dor fora
da área de lesão (alodinia) (Anderson e Muir, 2005a).
A extensão da sensibilização central da medula
espinhal para o cérebro leva ao desenvolvimento ou
modificação de padrões de memória e é responsável por
mudanças no comportamento do animal. Dor intensa
ou contínua conduz a alterações bioquímicas (transcri-
cional) nos neurônios do corno dorsal, promovendo o
desenvolvimento de estados de dor crônica causados por
mudanças no fenótipo neuronal (neuroplasticidade). O
desenvolvimento de sensibilização periférica e sensibiliza-
ção central representam um processo doloroso contínuo,
que existe em consequência de dor contínua, incessante
e não tratada (Anderson e Muir, 2005b).
Controle da dor em bovinos
A intensidade e a duração do estímulo doloroso é
de grande importância na seleção de fármacos para o tra-
tamento da dor. Por exemplo, animais que apresentam dor
aguda como observado em fraturas, apresentam resposta
mais favorável a terapia analgésica quando comparados
com animais portadores de dor crônica relacionada a uma
úlcera de sola (Anderson e Muir, 2005a). Além disso, a
abordagem analgésica deve ser diferenciada entre casos
agudos e crônicos. A progressão da dor aguda para a
doença crônica pode resultar em alterações neurológicas,
tornando o paciente refratário ao tratamento analgésico.
Nestes casos, fármacos utilizados no tratamento de dor
neuropática podem ser uma alternativa eficaz para o
tratamento (Stock e Coetzee, 2015).
Schade, J. et al.
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A dor aguda resultante de procedimentos ci-
rúrgicos pode ser facilmente controlada por meio de
estratégias que previnam a sua ocorrência (Anderson e
Muir, 2005b). Analgesia preventiva envolve a adminis-
tração de analgésicos antes que a lesão tecidual ocorra,
minimizando a dor pós-cirúrgica, além de promover curto
período de recuperação do paciente (Klaumann et al.,
2008). O principal objetivo é evitar o desenvolvimento
de sensibilização periférica e central, prevenindo a dor e
tornando-a mais fácil de controlar (Hellebrekers, 2002).
Entretanto, esta modalidade não elimina a necessidade
de analgésicos no período pós-operatório (Klaumann et
al., 2008).
Outra estratégia que visa maximizar o sucesso da
terapia analgésica é o conceito de analgesia multimodal
ou balanceada. Esta modalidade consiste na combinação
de analgésicos de diferentes classes farmacológicas e/ou
vias de administração para atuar em diferentes pontos ao
longo da via nociceptiva, resultando em controle mais efi-
caz da dor (Anderson e Edmondson, 2013). Desta forma,
analgesia multimodal em bovinos pode ser alcançada com
a combinação de anestésicos locais, anti-inflamatórios não
esteroides (AINE), α2-agonistas, opioides, antagonistas
dos receptores NMDA e antagonistas da dor neuropática
(Anderson e Muir, 2005a).
Anestésicos locais
Os anestésicos locais são os fármacos mais co-
mumente utilizados para promover analgesia preventiva
em animais de produção, atuando na prevenção da dor
incisional durante cirurgias (Anderson e Muir, 2005a). O
mecanismo de ação consiste no bloqueio reversível dos
canais de sódio, impedindo a despolarização da fibra
e a condução do impulso nervoso, causando a perda
da sensibilidade dolorosa (Andrade e Cassu, 2008). Os
anestésicos locais são bases fracas e para que exerçam seu
efeito devem se dissociar em meio alcalino (Fantoni et al.,
2006). Em tecidos infectados, inflamados ou isquêmicos
a qualidade da anestesia local é frequentemente pobre,
pois o meio relativamente ácido nestes tecidos inibe a
dissociação da droga (Anderson e Edmondson, 2013).
A absorção do anestésico local determina a sua
duração de ação e é influenciada pelo fluxo sanguíneo do
tecido e a passagem para o compartimento intravascular.
Além disso, quanto maior a absorção, maior o risco de
toxicidade (Fantoni et al., 2006). Uma alternativa para
diminuir a velocidade de absorção dos anestésicos locais
é a adição de vasoconstrictores como a adrenalina (Stock
e Coetzee, 2015). Esta associação, além de diminuir o
risco de toxicidade, aumenta de modo significativo a
duração do efeito. Apresentações comerciais contendo
associação de anestésicos locais e adrenalina estão dispo-
níveis comercialmente. No entanto, a sua administração
deve ser evitada em extremidades, pois a redução do
consumo de oxigênio tecidual, associado à vasoconstrição,
pode causar hipóxia e necrose nestes locais. Além disto,
a administração intravenosa dos vasoconstritores pode
provocar efeitos indesejáveis como agitação e taquicardia
(Fantoni et al., 2006).
Exemplos de anestésicos locais disponíveis são
o cloridrato de lidocaína e o cloridrato de bupivacaína
(Coetzee, 2011). Lidocaína a 2% é o anestésico local
mais comumente utilizado em bovinos, devido a sua
boa eficácia, curto período de latência, menor risco de
toxicidade e baixo custo (Anderson e Edmondson, 2013).
Após administração, o início de ação ocorre em 2 a 5
minutos e persiste por aproximadamente 90 minutos, o
qual pode ser aumentado para 120 minutos com a adição
do vasoconstritor adrenalina. A bupivacaína apresenta
como vantagem um longo período de ação (2 a 4 horas)
(Fantoni et al., 2006), entretanto, o período de latência
prolongado (20 a 30 minutos), além do alto custo e
maior risco de toxicidade tornam este fármaco menos
interessante para uso na espécie bovina (Coetzee, 2011).
Diversas técnicas de administração podem ser
utilizadas em bovinos, incluindo anestesia infiltrativa (bo-
tão anestésico ou infiltrativa local), bloqueio perineural,
anestesia regional (“Linvertido, epidural e paravertebral)
e anestesia intravenosa regional (bloqueio de Bier) (Fan-
toni e Cortopassi, 2008; Anderson e Edmondson, 2013).
A anestesia epidural pode ser realizada no es-
paço sacrococcígeo (S5-Co1, epidural caudal alta) ou
intercoccígeo (Co1-Co2, epidural caudal baixa). Quando
se deseja analgesia da região perineal, com o animal em
estação, um volume baixo de lidocaína (0,5-1,0mL/50kg
de peso vivo) deverá ser administrado. Por outro lado, a
administração de maior volume (1mL/50kg de peso vivo)
é necessário para analgesia da região pélvica e abdomi-
nal. No entanto, quando maior volume é administrado
ocorre o bloqueio dos nervos motores e o procedimento
deverá ser, obrigatoriamente, realizado com o animal em
decúbito (Anderson e Edmondson, 2013).
Para anestesias infiltrativas, muitas vezes é neces-
sária a administração de grandes volumes de anestésico
local. Nestes casos, o volume de lidocaína administrado
não deve ultrapassar a dose máxima de 7mg/kg. Entre-
tanto, quando associado a adrenalina, a dose máxima
poderá ser elevada para 9mg/kg (Fantoni e Cortopassi,
2008). Quando o volume administrado é maior que o
estipulado como dose máxima, sinais de intoxicação por
anestésico local podem ocorrer e consistem em sinais
neurológicos (dormência, torpor, tremores musculares,
perda da consciência, convulsão, coma e apneia) e car-
diovasculares (depressão miocárdica) (Fantoni et al.,
2006).
Anti-inflamatórios
Os fármacos anti-inflamatórios incluem os an-
ti-inflamatórios esteroides, conhecidos também como
corticosteroides, e os anti-inflamatórios não esteroides
(AINE) (Anderson e Edmondson, 2013).
Controle da dor em bovinos: Revisão bibliográfica
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O uso de corticosteroides para o controle da dor e
inflamação associados a procedimentos cirúrgicos, apesar
de utilizado por muitos profissionais, não é recomendado
devido à preocupação com o risco aumentado de infecção
e inibição da cicatrização (Stock e Coetzee, 2015).
Os AINE são os fármacos mais comumente uti-
lizados no controle da dor leve a moderada, em espe-
cial, no manejo da dor crônica, tanto em seres humanos
quanto na Medicina Veterinária (Andrade e Cassu, 2008).
Apresentam efeitos anti-inflamatório analgésico e antipi-
rético, os quais são relacionados ao bloqueio da enzima
cicloxigenase (COX) e consequente inibição da produ-
ção de prostaglandinas a partir do ácido araquidônico
(Tasaka, 2006). COX-1 e COX-2 são as duas principais
isoformas da enzima COX. A COX-1 é expressa de maneira
constitutiva, sendo responsável pela produção de pros-
taglandinas envolvidas na manutenção da homeostase,
incluindo a diminuição da acidez abomasal e manutenção
do fluxo sanguíneo renal. A COX-2 é expressa de maneira
induzida, produzindo prostaglandinas (PGE-2, PGI-2)
relacionadas com o processo inflamatório. Desta forma
são responsáveis por vasodilatação local, hiperalgesia e
potencialização de efeitos de outros mediadores como
bradicinina e histamina, responsáveis por hiperalgesia e
aumento da permeabilidade vascular (Rang et al., 2007;
Andrade e Cassu, 2008).
Os AINE podem ser classificados de acordo com
a capacidade de inibição das isoformas COX-1 e COX-2.
Dessa forma, podem ser divididos em não seletivos, pre-
ferenciais COX-2 e seletivos COX-2. Os AINE não seletivos
foram inicialmente desenvolvidos e atuam inibindo as
enzimas COX-1 e COX-2 em proporções semelhantes,
os quais incluem o ácido acetilsalicílico (AAS), diclofe-
naco, fenilbutazona, flunixin meglumine, piroxicam e
cetoprofeno. Devido à forte inibição da isoforma cons-
titutiva COX-1, estes fármacos apresentam maior risco
para o desenvolvimento de efeitos adversos como úlcera
de abomaso e insuficiência renal aguda especialmente
em animais desidratados. Os AINE preferenciais COX-2
foram a primeira geração de AINE desenvolvidos com
o objetivo de diminuir a ocorrência de efeitos adversos
relacionados a inibição da enzima COX-1, sendo o me-
loxicam e o carprofeno, os principais representantes. A
segunda geração de AINE seletivos COX-2 foram lançados
mais recentemente e são considerados os mais seguros
quanto ao desenvolvimento de efeitos adversos, sendo o
seu representante em Medicina Veterinária o firocoxibe
(Tasaka, 2006; Jericó e Andrade, 2008; Steagall e Rocha,
2012). Entretanto, este fármaco ainda não está disponível
para administração em bovinos (Stock e Coetzee, 2015).
Outros analgésicos (anestésicos locais, xilazi
-
na, opioides e cetamina), atuam inibindo a detecção ou
intensidade da dor por bloquear um ponto específico
da via nociceptiva. Entretanto, esses fármacos não tra
-
tam o processo responsável pela persistência da dor. O
desenvolvimento de sensibilização periférica e central,
como visto anteriormente, são provocados pelo processo
inflamatório envolvido com a lesão tecidual. Dessa forma,
os AINE constituem parte fundamental para a terapia
multimodal da dor, uma vez que atuam diminuindo o
processo inflamatório (Anderson e Muir, 2005a). Os
principais AINE utilizados em bovinos e suas respectivas
doses, via e frequência de administração estão expostos
na Tabela 1.
Tabela 1 – Dose, via e frequência de administração (horas) dos principais anti-inflamatórios não esteroides (AINE)
utilizados em bovinos.
Fármaco Dose (mg/kg) Via de administração Frequência (h)
Flunixin meglumine 1,1-2,2 IM ou IV 12-24
Fenilbutazona
4,0-8,0 VO 24-48
4,0 IV 24
Meloxicam
0,5 IM ou IV 24
0,5-1,0 VO 24-48
Cetoprofeno 3,0 IM ou IV 24
Carprofeno 1,4 SC ou IV 24
Diclofenaco 1,0 SC, IM ou IV 24
Ácido acetilsalicílico 50-100 VO 12
Dipirona 50 SC, IM ou IV Única
Firocoxib 0,5 VO ou IV -
VO = via oral; IM = intramuscular; SC = subcutânea.
Schade, J. et al.
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O flunixin meglumine é o principal AINE utili-
zado em bovinos, apresentando tempo de meia-vida de
3 a 8 horas quando administrado por via intravenosa
(IV). Observações clínicas sugerem que este fármaco
oferece excelente analgesia visceral, porém apresenta
efeitos menos potentes para injúrias musculoesqueléticas
(Anderson e Muir, 2005b).
A fenilbutazona é caracterizada por apresentar
longo período de meia-vida (40-55h) quando comparado
com outros AINE, sendo o seu uso proibido em vacas
leiteiras acima de 20 meses de idade pela Food and Drug
Administration (FDA) (Coetzee, 2011). Ao contrário do
flunixin meglumine, oferece excelente analgesia muscu-
loesquelética e menor benefício para o controle da dor
visceral (Anderson e Muir, 2005b). Após administração
oral, apresenta biodisponibilidade variando entre 54% e
69%, com pico de concentração plasmática alcançada em
8,9 a 10,5h (Lees et al., 1988). Dessa forma, torna-se uma
boa opção para administração pela via oral (VO), visto
que está comercialmente disponível a apresentação em
pó. Apesar de estudos clínicos demostrarem a utilização
de fenilbutazona pela via intramuscular (IM) (Marçal et
al., 2006), esta via é contraindicada devido ao risco de
lesão muscular e retardo na absorção pela intensa ligação
com proteínas (Tasaka, 2006; Smith et al., 2008). Além
disto, a administração perivascular pode causar flebite
e necrose (Tasaka, 2006).
O meloxicam constitui uma boa opção quando
necessidade de analgesia por mais de três dias, pois inibe
preferencialmente a COX-2, o que o torna mais seguro
(Anderson e Edmondson, 2013). Apresenta tempo de
meia-vida plasmática médio de 22 horas quando admi-
nistrado pelas vias IV ou subcutânea (SC). Um estudo em
bezerros ruminantes de três meses de idade revelou que
o meloxicam apresenta meia-vida prolongada e elevada
biodisponibilidade quando administrado por VO (Coetzee
et al., 2009).
O cetoprofeno administrado pela via IV, apresenta
curto tempo de meia-vida plasmática (0,42h) (Stock e
Coetzee, 2015) e pequeno volume de distribuição (Smith
et al., 2008), sendo necessárias múltiplas doses para
manutenção da analgesia (Stock e Coetzee, 2015). Desta
forma, a utilização de cetoprofeno parece ter diminuído
substancialmente nos últimos anos, pois não oferece van-
tagens sobre outros AINE, além de ser mais caro (Smith
et al., 2008).
O carprofeno é outro AINE preferencial COX-2,
sendo também uma boa opção quando o necessidade
de administração prolongada (> 3 dias). Propriedades
farmacocinéticas em bovinos incluem tempo de meia-vida
prolongado (30,7 horas) depuração lenta e possível ex-
creção biliar. Além disto, apresenta tempo de meia-vida
prolongado (49,7 horas) em animais jovens (< 10 sema-
nas de idade), atribuída a depuração e eliminação mais
lenta (Stock e Coetzee, 2015). Por apresentar mínima
excreção no leite, constitui boa opção para utilização
em vacas leiteiras em período de lactação (Smith et al.,
2008).
O AAS, apesar de historicamente utilizado, é
associado com limitada distribuição tecidual, baixa absor-
ção oral e rápida eliminação em ruminantes, não sendo
uma boa opção analgésica para a espécie bovina (Stock
e Coetzee, 2015).
Fármacos como o diclofenaco de sódio e o piroxi-
cam apresentam poucos dados referentes a farmacociné-
tica e utilização em bovinos. Entretanto, estão presentes
em apresentações comerciais associados com antibióticos
para uso em bovinos. Dessa forma, deve-se tomar o cui-
dado para não administrar outro AINE quando utilizados
antibióticos associados ao diclofenaco ou piroxicam, visto
que a utilização concomitante de dois AINE potencializa
a ocorrência de efeitos adversos (Tasaka, 2006).
A dipirona é um fármaco antipirético e analgésico
que apresenta pobre ação anti-inflamatória devido a sua
fraca ligação com proteínas e mínima distribuição em te-
cidos inflamados (Jericó e Andrade, 2008). É um fármaco
não licenciado para animais de produção de alimentos e
está proibido há décadas nos EUA e Europa devido aos
efeitos adversos causados em humanos (Steagall e Rocha,
2012).
O firocoxibe é o representante da nova geração
de AINE COX-2 seletivos em Medicina Veterinária (Tasaka,
2006). Estudos referentes a utilização deste fármaco em
bovinos foram realizados em bezerros pré-ruminantes.
As propriedades farmacocinéticas foram caracterizadas
por elevada biodisponibilidade, tempo de meia-vida pro-
longado (18,8h) e grande volume de distribuição (Stock
et al., 2014).
Com o objetivo de evitar a presença de resíduos
e a preocupação na segurança alimentar, a administração
de AINE em animais de produção de alimentos, como
os bovinos, deve respeitar o período de carência para a
presença de resíduos na carne e no leite (Tabela 2).
Analgésicos Sedativos
Os principais fármacos analgésicos sedativos utilizados
em Medicina Veterinária são os α2-agonistas, opioides
e antagonistas dos receptores NMDA (Coetzee, 2013).
Entretanto, a aquisição de fármacos psicotrópicos como
os opioides, por Médicos Veterinários, apresenta regu-
lação e procedimentos de acordo com a Portaria SVS/
Anvisa 344/98 e IN MAPA 35/17. Informações
referentes a dose, via e frequência de administração dos
principais analgésicos sedativos utilizados em bovinos
estão expostos na Tabela 3.
Controle da dor em bovinos: Revisão bibliográfica
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Tabela 2 – Período de carência para carne e leite dos principais anti-inflamatórios não esteroides (AINE) utilizados em
bovinos.
Fármaco Via Carne Leite
Flunixin meglumine
IV 4 dias 36 horas
IM 30 dias 3 dias
Fenilbutazona
VO 50 dias Não aprovado
IM 55 dias Não aprovado
Meloxicam IM ou IV 15 dias 5 dias
Cetoprofeno IM ou IV 7 dias 24 horas
Carprofeno SC ou IV 21 dias 0 dias
Diclofenaco SC, IM ou IV 10 dias 3 dias
AAS VO 24 horas 24 horas
Dipirona - Não indicado Não indicado
Firocoxibe IV ou VO Estudos inexistentes Estudos inexistentes
VO = via oral; IM = intramuscular; SC = subcutânea; AAS = ácido acetilsalicílico.
Tabela 3 – Dose, via e frequência de administração (horas) dos principais fármacos analgésicos sedativos utilizados em
bovinos.
Fármaco Dose (mg/kg) Via Frequência (h)
Xilazina
0,05-0,3 IM ou IV -
0,02-0,05* IM ou IV -
0,05 EP -
Butorfanol 0,02-0,05
IV 2-4
SC 6-8
Morfina
0,5*-1,0 IV 12
0,5-0,1 EP 24
Cetamina 0,05-0,1* IM ou IV -
SC = subcutâneo; IM = intramuscular; IV = intravenosa; EP = epidural.
*Dose para associação de cetamina, xilazina e opioide.
A xilazina é o principal fármaco α2-agonista
utilizado em bovinos, o qual produz sedação, relaxa-
mento muscular e analgesia (Coetzee, 2011). Fornece
analgesia moderada, a qual ocorre devido a ativação dos
receptores α2-adrenérgicos no sistema nervoso central,
incluindo ação medular e encefálica. Devido à ampla
distribuição dos receptores α2-adrenérgicos, os agonistas
destes receptores podem suprimir os sinais nociceptivos
nas seguintes vias da dor: inibição da liberação de neu-
rotransmissores originados das fibras aferentes primárias
para os neurônios de segunda ordem; modulação pré e
pós-sináptica de sinais nociceptivos segmentares no corno
dorsal; influência no sistema de modulação descendente
do tronco cerebral ou afetando a modulação ascendente
de sinais nociceptivos no diencéfalo e áreas límbicas (Luna
et al., 2012).
Efeitos adversos relacionados à administração de
α2-agonistas incluem diminuição do débito cardíaco, di-
minuição da frequência respiratória mediada centralmente
e hipomotilidade intestinal (Coetzee, 2013). A dose de
xilazina recomendada para sedação é de 0,05 a 0,3mg/kg,
IV ou IM. A administração de baixas doses (< 0,1mg/kg)
é caracterizada por leve diminuição do tônus muscular,
sendo mantida a capacidade de permanecer em estação.
Por outro lado, doses maiores (> 0,1mg/kg) produzem
intensa sedação e relaxamento muscular, levando o animal
ao decúbito. Devido ao efeito depressor da motilidade
intestinal, recomenda-se jejum antes da administração
de xilazina para reduzir o risco do desenvolvimento de
timpanismo e aspiração de conteúdo ruminal (Coetzee,
2011).
Schade, J. et al.
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A administração epidural de α2-agonistas pode
produzir analgesia com mínimos efeitos sedativos e car-
diovasculares quando comparados com a via intravenosa
e intramuscular (Coetzee, 2011). Quando administrada
pela via epidural, xilazina (0,05mg/kg diluídos em 5 mL
de solução fisiológica), apresenta prolongado período
de latência (12±1 minutos) e ação (303±11 minutos)
quando comparados a administração de lidocaína pela
mesma via. Desta forma, a combinação de lidocaína e
xilazina, administrada pela via epidural, oferece analge-
sia de início mais rápido e duração prolongada (Stock e
Coetzee, 2015).
Os opioides são fármacos que apresentam potente
efeito analgésico por atuarem em receptores μ (mu), κ
(kapa) e δ (delta) ao nível cerebral, medular e periférico.
A ativação destes receptores é associada a hiperpolariza-
ção dos neurônios e consequente inibição da excitação
neuronal nas vias nociceptivas (Górniak, 2006). Embora
os três receptores produzam analgesia, o receptor μ é o
principal responsável pelos efeitos adversos, incluindo
depressão respiratória, hipomotilidade gastrintestinal,
náuseas, sedação e euforia (Stock e Coetzee, 2015).
O butorfanol é o principal opioide utilizado em
Medicina Veterinária. Trata-se de um agonista dos re-
ceptores κ e antagonista dos receptores μ, que produz,
por este motivo, analgesia com mínimos efeitos adver-
sos (Stock e Coetzee, 2015). A dose recomendada para
este fármaco em bovinos é de 0,02 a 0,05mg/kg, IV a
cada 2 a 4 horas ou SC a cada 6 a 8 horas (Anderson e
Edmondson, 2013).
A morfina é um opioide agonista dos receptores
μ e κ que exerce potente efeito analgésico, sendo eficaz
no controle da dor moderada a grave (Steagall e Luna,
2012). Este fármaco é associado a efeitos adversos devido
a estimulação dos receptores μ opioides (Andrade e Cas-
su, 2008). Para bovinos, a dose recomendada é de 0,5 a
1,0 mg/kg, IV a cada 12 horas. A administração epidural
(0,05 a 0,1mg/kg, SID, diluídos em 20 mL de solução
fisiológica) pode ser utilizada para promover analgesia
de longa duração, sem interferir na função motora. A
principal desvantagem da utilização de morfina por esta
via é o prolongado período de latência, que varia de 2 a
3 horas (Anderson e Edmondson, 2013).
A cetamina produz anestesia dissociativa quando
utilizada na dose de 2 a 4mg/kg, IV e consiste no anta-
gonista dos receptores NMDA mais comumente utilizado
em Medicina Veterinária (Stock e Coetzee, 2015). O seu
efeito analgésico é relacionado principalmente ao blo-
queio dos receptores NMDA no corno dorsal da medula
espinhal, além da atuação em receptores μ e κ opioides
(Fantoni e Cortopassi, 2008; Stock e Coetzee, 2015). O
uso de cetamina pela via epidural caudal, tem demons-
trado resultados promissores em bovinos, com mínimas
alterações na frequência cardíaca, frequência respiratória,
temperatura retal, motilidade ruminal e pressão arterial.
A duração da analgesia e presença de ataxia variam com
o volume administrado. Cetamina 5% administrada nos
volumes de 5, 10 ou 20 mL apresentaram grau de ataxia
crescente e tempo de analgesia de 17, 34 e 62 minutos
respectivamente (Lee et al., 2003).
A associação de fármacos analgésicos sedativos
em doses sub-terapêuticas, consideradas baixas para
produzir efeito sozinhas, podem atuar de maneira si-
nérgica, potencializando o efeito analgésico e sedativo
(Stock e Coetzee, 2015). A combinação de xilazina (0,02
a 0,05mg/kg) e cetamina (0,05 a 0,1mg/kg), IM ou IV,
promove sedação moderada, sem levar o bovino a decú-
bito. Butorfanol (0,05mg/kg) ou morfina (0,05mg/kg)
podem ser incluídos para aumentar o efeito analgésico
(Coetzee, 2013). Esta associação tem sido benéfica quan-
do da execução de procedimentos cirúrgicos em bovinos
indóceis ou que apresentam dor grave relacionada a
doença primária (Stock e Coetzee, 2015).
Controle da dor neuropática
A Gabapentina é um análogo do ácido gama-a-
minobutírico (GABA), desenvolvido originalmente para o
tratamento de desordens espásticas e epilepsia (Coetzee,
2011). Estudos em seres humanos tem reportado que
este fármaco é efetivo no controle da dor neuropática
de origem inflamatória, apresentando efeitos sinérgicos
quando associados com AINE para promover efeitos an-
ti-hiperalgésicos (Hurley et al., 2002). Dados de farma-
cocinética sugerem que a gabapentina administrada na
dose de 15mg/kg, VO, a cada 24 horas, pode ser utilizada
para o tratamento da dor neuropática e inflamatória re-
lacionadas a sensibilização central em bovinos (Coetzee,
2011). No entanto, apresentações comerciais para uso
em bovinos são inexistentes.
Conclusão
A compreensão dos mecanismos fisiopatológicos
envolvidos nas vias da dor é de fundamental importância
para o desenvolvimento de terapias racionais no controle
da dor. O conceito de analgesia preventiva constitui um
ponto chave para prevenir o desenvolvimento pós cirúr-
gico de sensibilização periférica e central. Diferentes fár-
macos, incluindo anestésicos locais, AINE, α2-agonistas,
opioides, cetamina e gabapentina podem ser utilizados em
protocolos de analgesia multimodal em bovinos, visado
maior eficácia da terapia analgésica.
A consciência de promover um ambiente livre
de dor e sofrimento, não aos bovinos, mas a qualquer
animal de produção, não se limita a desempenho produ-
tivo e lucro melhores, mas sobretudo o respeito à vida.
Controle da dor em bovinos: Revisão bibliográfica
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Cad. Ciênc. Agrá., v. 13, p. 01–09, https://doi.org/10.35699/2447-6218.2021.26317
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