CADERNO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
Agrarian Sciences Journal
Aspectos geológicos e pedológicos dos solos do município de Montes Claros - MG
Regynaldo Arruda Sampaio
1
, Luiz Arnaldo Fernandes
2
*
DOI: https://doi.org/10.35699/2447-6218.2021.33964
Resumo
Objetivou-se realizar o levantamento dos aspectos geológicos e pedológicos bem como interpretações sobre fertilidade
dos solos do município de Montes Claros – MG. O levantamento foi realizado a partir de dados de literatura, de in-
cursões a campo para verificação de informações, de descrição de perfil de solo e de resultados de análises químicas e
físicas de solo. Ao final foram sistematizadas recomendações gerais de uso e manejo para as principais ordens de solo
do município, com destaque para a calagem, fertilização com nitrogênio e fósforo, e adoção de práticas de incremento
da matéria orgânica e de conservação do solo.
Palavras chave: Levantamento de solo. Capacidade de uso das terras. Classificação de solo.
Geological and pedological aspects of soils in the municipality of Montes Claros - MG
Abstract
The objective was to carry out a survey of the geological and pedological aspects as well as interpretations on soil
fertility in the municipality of Montes Claros – MG. The survey was carried out using literature data, field incursions
to verify information, description of the soil profile and results of soil chemical and physical analysis. At the end,
general recommendations for use and management were systematized for the main soil orders in the municipality,
with emphasis on liming, fertilization with nitrogen and phosphorus, and adoption of practices to increase organic
matter and soil conservation.
Key words: Soil survey. Land use capability. Soil classification.
1
Universidade Federal de Minas Gerais. Montes Claros, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-3214-61115
2
Universidade Federal de Minas Gerais. Montes Claros, MG. Brasil.
https://orcid.org/0000-0002-9877-1924
*Autor para correspondência: luizmcmg@gmail.com
Recebido para publicação em 07 de maio de 2021. Aceito para publicação em 17 de maio de 2021
e-ISSN: 2447-6218 / ISSN: 2447-6218 / © 2009, Universidade Federal de Minas Gerais, Todos os direitos reservados.
Sampaio, R. A.; Fernandes, L. A.
2
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Introdução
O solo é um componente fundamental do ecossis-
tema terrestre e representa a interface entre os diversos
compartimentos que influenciam diretamente a vida
humana, como a litosfera, hidrosfera, atmosfera e bios-
fera. Na agricultura tem papel relevante como substrato
e fonte de água, nutrientes e ar para as plantas, bem
como, na regulação dos processos de infiltração, arma-
zenamento e escoamento da água. A sua conservação e
manejo adequados geram riquezas, proporcionando de
forma sustentável a necessária produção de matéria-prima
que alimenta a indústria e a economia regional (Lepsch,
2011; Rezende et al., 2014).
Neste contexto, realizou-se o levantamento dos
aspectos geológicos e pedológicos, e de fertilidade dos
solos, do município de Montes Claros - MG.
Material e Métodos
Para o levantamento dos aspectos geológicos e
pedológicos utilizou-se de informações disponíveis em
Jacomine et al. (1979), Chaves e Benitez (2007), Valadão
et al. (2008), UFV - CETEC - UFLA FEAM (2010), Cha-
ves e Andrade (2012); IBGE (2012), Chaves e Andrade
(2014a), Chaves e Andrade (2014b), Kuchenbecker e
Costa (2014), Kuchenbecker et al. (2014) e Embrapa
(2018), de incursões a campo para verificação de infor-
mações e de descrição de perfis de solo.
A partir dos dados de literatura e dos trabalhos
de campo foi apresentada a coluna estratigráfica, foi
sistematizada uma evolução geológica e petrográfica
das unidades estratigráficas do Cráton São Francisco,
foram construídos e, ou adaptados mapas de geologia,
de altitude, de vegetação e de solos e, foi esquematiza-
da uma seção, na latitude 16°44’0”S (porção central do
município, na direção leste-oeste), com informações de
geologia, de geomorfologia, de pedologia e de vegetação
do município de Montes Claros.
Os aspectos relacionados à fertilidade do solo
foram levantados a parir de análises químicas e físicas
de amostras de solo e de incursões a campo para le-
vantamento da fertilidade natural do solo, friabilidade,
rochosidade, declividade, profundidade efetiva (horizon-
tes A+B), susceptibilidade à erosão e limitações ao uso
agrícola (médio e alto nível tecnológico) das principais
ordens de solo do município de Montes Claros – MG. A
partir desses resultados foram propostas algumas reco-
mendações gerais de uso e manejo das principais ordens
de solo do município de Montes Claros - MG.
Resultados e Discussão
Contexto geológico
O município de Montes Claros encontra-se sobre
as unidades litoestratigráficas do Grupo Bambuí e de
coberturas fanerozóicas (Figuras 1, 2 e 3).
Os limites geográficos dessas unidades litoestra-
tigráficas situam-se entre a Serra do Espinhaço, a leste,
e o Rio São Francisco, a oeste, encontrando-se inserida
na zona de transição entre o Cráton São Francisco e a
Faixa de Dobramentos Araçuaí. O Cráton mencionado é
formado por uma plataforma cristalina surgida em tempos
pré-brasilianos e que serviu de antepaís para as faixas
de dobramentos firmadas no Brasiliano. Por situar-se
externamente ao cinturão orogênico, as estruturas sedi-
mentares sofreram pouco metamorfismo (Chaves et al.,
2011; Chaves e Andrade, 2014a).
A formação geológica de maior extensão exposta
à superfície no município é a Lagoa do Jacaré, a qual se
subdivide nas fácies Calcários e Metassiltitos Rítmicos
(Figura 4), ocupando o sudoeste e a faixa central do
munícipio na direção norte-sul. O calcário é maciço, puro
e de cor cinza-escuro, com predominância de calcilutitos
e calcarenitos, enquanto os ritmitos apresentam alternân-
cias de níveis milimétricos argilo-siltosos de coloração
cinza-clara, com níveis carbonáticos de coloração cin-
za-escura. A formação com calcário caracteriza-se pela
melhor qualidade dos substratos em relação a fertilidade
do solo, principalmente de cálcio. Todavia, esse litotipo
tende a ocupar faixas de relevos mais acidentados e com
menor aptidão agrícola (Figura 5).
A Formação Serra de Santa Helena, formada de
metassiltitos, tende a formar solos de baixa fertilidade
(Figura 4). Porém, possui uma boa concentração de mus-
covita, o que pode explicar os teores variando de médio
a alto de potássio nos solos dessa formação. Embora
constitua uma faixa de relevo de altitude mais baixa,
com condições hídricas mais favoráveis (Figura 5), as
limitações edáficas contribuem para o estabelecimento
de vegetação de Cerrado e de Floresta Estacional (Figura
6).
A Formação Serra da Saudade, formada de ar-
gilitos, siltitos e diamictitos, tende também a ter solos
menos férteis (Figura 4), embora possua boa concentra-
ção de muscovita, com boa disponibilidade de potássio
(Figuras 1 e 3). Neste ambiente, encontram-se os solos
mais desenvolvidos, como os Latossolos (Figura 7), e pela
condição hídrica mais limitada, a vegetação de Cerrado
ou contato Cerrado / Floresta Estacional (Figura 4).
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Figura 1 – Coluna estratigráfica do município de Montes Claros - MG. As espessuras das unidades não se encontram
em escala real. Fonte: Adaptado de Chaves e Andrade (2014a).
Os Depósitos Elúvio-Coluvionares compreendem
uma boa extensão da faixa ocidental do município de
Montes Claros, aflorando em manchas restritas, cobrindo
e tendo adjacência principalmente a formação Serra da
Saudade e Lagoa do Jacaré (Figura 4). São constituídos
por sedimentos areno-siltosos, de cores amareladas à
avermelhadas, contendo fragmentos de quartzo de veio
esparsos, e presença de superfícies lateritizadas em alguns
locais. Os solos desse ambiente são mais intemperizados
e também com maior restrição hídrica, sendo a área
ocupada por vegetação de Cerrado em contato com a
Floresta Estacional (Figura 6).
Os Depósitos detrítico-lateríticos abrangem uma
boa parte da porção norte/nordeste do município (Figura
4). Nestes substratos são encontradas coberturas arenosas
finas a médias, consolidadas ou semiconsolidadas, sendo
em geral de coloração vermelha intensa, indicando contri-
buição ferruginosa. É uma área de grande ocorrência de
Nitossolos (Figura 7), sendo um ambiente de mais baixa
altitude (Figura 5) e de maior conservação de umidade.
A vegetação característica deste ambiente é a Floresta
Estacional-Caducifólia (Figura 6).
A Formação Urucuia distribui-se de forma esparsa
do centro ao sul do município e é constituída por arenitos
finos, com intercalações locais de siltitos (Figura 4). Os
arenitos são predominantes, possuindo cores variando
de branca a branca-avermelhada, enquanto os arenitos
siltosos e siltitos apresentam coloração roxa. Esta for-
Sampaio, R. A.; Fernandes, L. A.
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mação encontra-se em altitude mais elevada (Figura 5),
sendo os solos desse ambiente o Latossolo, o Cambissolo
e o Neossolo (Figura 7). Pelas restrições hídricas e baixa
fertilidade dos solos, a área é principalmente de ocorrência
de vegetação de Cerrado (Figura 6).
Figura 2 – Evolução geológica e petrografia das unidades estratigráficas 1, 2, 3 4 e 5 do Cráton São Francisco.
Evolução geológica
(1)
Petrografia
(1)
1 - Deposição dos sedimentos arenosos da Formação Duas Barras,
basal do Grupo Macaúbas, em ambiente marinho raso a fluvial, numa
idade inferior a aproximadamente 900 milhões de anos, cobrindo os
sedimentos siliciclásticos mesoproterozóicos do Supergrupo Espinha-
ço (que ocorrem a sul e leste, fora da área), principal abastecedor de
material clástico dessa formação.
Formação Duas Barras: Quartzo-metarenitos
impuros formados à base de quartzo (85-
94%), fragmentos de rochas (0-10%), óxidos
e argilominerais (5-6%). Presença de musco-
vita, rutilo e limonita dispersos na estrutura
da rocha.
2 - A Formação Duas Barras é sobreposta pelos diamictitos de am-
biente glacial da Formação Serra do Catuni. Embora na área esses
sedimentos estejam mal expostos, e ainda bastante mascarados pela
deformação, a sul eles foram caracterizados como de origem glacio-
marinha proximal. A idade máxima de sedimentação para tais depó-
sitos é balizada em cerca de 850 milhões de anos.
Formação Serra do Catuni: Metadiamictitos
formados de argilominerais (4-80%), quart-
zo (15-65%), carbonatos e óxidos (0-5%),
sericita (0-1%), fragmentos de rochas (0-
30%). Presença de biotita dispersa na estru-
tura da rocha.
3 - É possível que tenha ocorrido um hiato sedimentar expressivo,
até iniciar a sedimentação pelito-carbonática do Grupo Bambuí. Esses
depósitos foram acumulados em um mar epicontinental preferencial-
mente raso, com certas porções localizadas mais profundas, numa
bacia de antepaís (foreland), onde a principal área-fonte de detritos
estaria a oeste, na região da Faixa Brasília.
-
4 - A seção basal do Grupo Bambuí, Formação Sete Lagoas (não pre-
sente no município de Montes Claros), foi datada em 740 milhões
de anos, que indicam os quase 100 milhões (máximos) de anos de
diferença para a sequência inferior, cujos calcários representam típi-
cos Cap carbonates. Nesta etapa, pode ter havido um expressivo hiato
deposicional dentro da própria sequência.
-
5 - A sedimentação das formações Serra de Santa Helena e Lagoa do
Jacaré na área enfocada, marca regionalmente o segundo megaciclo
deposicional da Bacia Bambuí, o qual se caracteriza por uma sequên-
cia basal marinha transgressiva (Formação Serra de Santa Helena)
que evolui para outra, regressiva (Formação Lagoa do Jacaré), com
seus depósitos típicos de mar bastante raso.
Formação Serra de Santa Helena: Metassil-
titos formados de quartzo (50%), argilomi-
nerais (30%), muscovita (10%) e óxidos de
ferro (10%).
Formação Lagoa do Jacaré (Metassiltitos
Rítmicos): Base síltica com argilominerais
(92-94%), quartzo (2-5%), óxidos (1-2%) e
muscovita (1-2%).
Formação Lagoa do Jacaré (Calcários): Cal-
cilutitos e calcarenitos com 95-98% de car-
bonato e 2-5% de argilominerais, sulfetos
(pirita) e quartzo.
A Formação Abaeté, pertencente ao grupo Area-
do, distribui-se de forma esparsa na porção meio norte e
noroeste do município (Figura 4). Essa unidade é formada
de conglomerados clasto-sustentados, polimíticos, com
seixos de quartzitos, quartzo e metapelito, com ocorrência
em condições de maior altitude (Figura 5). O Latossolo é
a ordem predominante deste ambiente (Figura 7), sendo
ocupado pela vegetação de Cerrado (Figura 6).
Os Depósitos aluvionares constituem a menor e a
mais recente unidade geológica, situada na porção norte
do município sobre a Formação Serra de Santa Helena
(Figura 4). Os depósitos têm ocorrência nas áreas de mais
baixas altitudes do município (Figura 5) e são formados
de sedimentos arenosos com cascalhos inconsolidados,
com ampla presença de seixos de quartzo arredondados e
por sedimentos de silte e argila. Solos como os Neossolos
e Argissolos são encontrados neste ambiente (Figura 7),
bem como a predominância de Floresta estacional-cadu-
cifólia (Figura 6).
Distribuição e atributos das principais ordens de solos
do município
A área total do município de Montes Claros é
de 3.576,76 km
2
, sendo as ordens de solos, conforme o
Aspectos geológicos e pedológicos dos solos do município de Montes Claros - MG
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Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (Embrapa,
2018), na escala de 1:100.000, distribuídas da seguin-
te forma: Nitossolo Háplico (1.623,49 km
2
), Latossolo
Vermelho-Amarelo (780,45 km
2
), Cambissolo Háplico
(437,08 km
2
), Neossolo Litólico (382,00 km
2
), Argissolo
Vermelho-Amarelo (227,48 km
2
) e Latossolo Vermelho
(126,26 km
2
) (Figura 7).
Figura 3 – Evolução geológica e petrografia das unidades estratigráficas 6, 7, 8 e 9 do Cráton São Francisco.
Evolução geológica
1
Petrografia
1
6 - O terceiro megaciclo de sedimentação do Grupo Bambuí é ca-
racterizado na região pela sedimentação dos argilitos e diamictitos
da Formação Serra da Saudade, os quais evidenciam uma nova fase
transgressiva, cujos depósitos possuem localmente evidências de mar
mais profundo. Neste período, a sedimentação que vai caracterizar
uma nova regressão marinha, representada pelos depósitos arenosos
da Formação Três Marias, não ocorre na região (somente a oeste),
constituindo o topo do Grupo Bambuí.
Formação Serra da Saudade: Rocha pelítica
formada por argilominerais (25-60%), mus-
covita (10-30%), quartzo (15-30%) e óxidos
(5-10%).
7 – A sedimentação da Bacia Bambuí ocorreu em parte paralelamente
à edificação das faixas Brasília (a oeste) e Araçuaí (a leste) às mar-
gens do Cráton São Francisco, durante a orogenia Brasiliana. Esse
período orogênico teve seu clímax desenvolvido entre 630 e 490
milhões de anos, promovendo dobramentos e falhamentos na zona
externa ao cráton, afetando ainda as unidades inferiores do Grupo
Bambuí, principalmente nas áreas próximas às margens cratônicas.
8 - Um longo período de quiescência tectônica sobreveio ao final do
Brasiliano. A geração da Bacia Sanfranciscana, termo utilizado para
designar a depressão na qual se acumularam as coberturas fanerozói-
cas sobre o Cráton São Francisco, iniciou-se no final do Paleozóico,
possuindo representantes na área enfocada com os depósitos conti-
nentais fluviais e eólicos, respectivamente, possuindo idades cretáci-
cas inferior (Formação Abaeté) e superior (Formação Urucuia).
Formação Abaeté: Conglomerados clasto-
-sustentados, polimíticos, com seixos de
quartzitos (predominantes), quartzo e meta-
pelito, com quase ausência de matriz e um
cimento silicoso, depositados em sistemas
fluviais e de leques aluviais.
Formação Urucuia: Formada por arenitos
finos, vermelhos, de sedimentação eólica,
compostos de quartzo (60-95%), argilomi-
nerais (2-20%), óxidos (1-20%) e fragmen-
tos de rochas (0-2%). Presença de muscovita
dispersa na estrutura da rocha.
9 No final, essas unidades cretácicas de cobertura do cráton são
soerguidas e capeadas, durante o Cenozóico, por sedimentos incon-
solidados, representados por depósitos detrítico-lateríticos, colúvio-e-
luviais e aluvionares.
Depósitos detrítico-lateríticos: Coberturas
arenosas finas a médias, consolidadas ou se-
mi-consolidadas, em geral de coloração ver-
melha intensa denotando contribuição ferru-
ginosa, com formação em diversos locais de
horizontes lateríticos.
Depósitos colúvio-eluviais: Sedimentos are-
no-siltosos amarelos a avermelhados, con-
tendo fragmentos de quartzo de veio espar-
sos, com ocorrência restrita de superfícies
laterizadas.
Depósitos aluvionares: Sedimentos arenosos
com cascalhos inconsolidados, com amplo
predomínio de seixos de quartzo arredonda-
dos, e também por sedimentos enriquecidos
por silte e argila.
(1) Adaptado de Chaves et al. (2011) e Chaves e Andrade (2014a).
A ordem Nitossolo Háplico é a que ocupa maior
área no município (45,39% da área total), apresentando,
em geral, como principais atributos, o Horizonte A de
textura argilosa ou muito argilosa, com estrutura do tipo
blocos, de tamanho médio, consistência seca, moderada
ou forte e consistência úmida firme, com transição gradual