Chamada para número temático - Inserção dos Estudos Geográficos Brasileiros nos Estudos Globais

2020-01-15

A Comissão Editorial da Revista Geografias abre chamada para submissões de artigos sobre o tema “A Inserção dos Estudos Geográficos Brasileiros nos Estudos Globais” com o objetivo de cobrir uma lacuna sobre o conhecimento da comunidade de geógrafos quanto ao estado da arte do grau de relacionamento de dois campos de estudos.  Atualmente, como os estudos geográficos brasileiros se relacionam com os estudos globais e com os estudos sobre a evolução geo-histórica da economia mundial e do sistema-mundo?

É importante salientar que os geógrafos brasileiros ou brasilianistas produziram trabalhos importantes no interior de temáticas globais. São exemplos dessa fortuna crítica as produções de Wanderley Messias da Costa, André Roberto Martin, Bertha Becker, Cláudio Egler, Hervé Théry, Wagner da Costa Ribeiro, entre outros. Todavia, a Revista Geografias chama atenção para os estudos em uma linha específica dos estudos globais: aquela relacionada aos conceitos de economia-mundo, sistema-mundo, além dos conceitos derivados como, cultura-mundo, sociedade-mundo, etc.

A definição do conceito de “economia mundial” aqui adotado está relacionada com a produção intelectual sobre a evolução da “economia-mundo capitalista”. “Economia-mundo” é um conceito de raiz alemã [weltwirtschaft] que significa uma economia territorial em escala continental que tende para mundialização, segundo o historiador Fernand Braudel. No século XVI, as principais economias-mundo consolidadas eram a mediterrânea, a chinesa e a russa. Eric Hobsbawm diferencia “economia-mundo” de “economia mundial” ao definir a última como uma arena global, fenômeno predominantemente contemporâneo. Porém, esse fenômeno também possui uma geo-história.  Ainda no século XVI, começa a se gestar a economia-mundo atlântica, cujos pontos estratégicos se encontravam em Sevilha, Lisboa e em cidades americanas, como Peru e Salvador, segundo Pierre Chaunu, que precedeu a emergência da economia-mundo capitalista, no Ocidente, e da economia mundial, com dinâmica calcada na globalização. Hoje, há discussões em curso sobre a “recentragem” (o termo é um neologismo) da economia mundial do Ocidente para o Oriente. Ademais, tem se expandido o alcance de pressupostos sistêmicos para outras áreas em que se viu o avanço da mundialização. Assim, a ideia de sistema-mundo reforça a conectividade global para além da economia e chega ao interior das dimensões da cultura e da sociedade. Muitos autores falam hoje de uma geo-cultura.

Como já afirmado, o Brasil tem uma importante tradição em geo-história, geoeconomia histórica e contemporânea, e geopolítica. Porém, os estudos contemporâneos, principalmente em se tratando de uma abordagem interdisciplinar entre a geografia, a economia, a política e a história (mas também a antropologia e a sociologia), ou, quando a geografia conduz esses campos (abordagem simbolizada pela adoção do prexifo “geo”), parecerem ter sido poucas vezes colocados em relação com os chamados estudos globais e estudos sistêmicos da economia-mundo, notavelmente em seus aportes mais contemporâneos. Esses aportes podem ser representados pelos trabalhos de Fernand Braudel, Eric Hobsbawn, Immanuel Wallerstein, André Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Karl Polaniy,  John Darwin, entre outros.

Sobre esses últimos estudos, o prefixo “geo”, colocado à frente de outros definidores quanto ao campo intelectual, resultando em termos como geo-economia, geopolítica e geo-história (pode-se falar de uma geo-antropologia, uma geo-sociologia ou uma geo-cultura?), tem sido hoje entendido como sinônimo de “global”.  Portanto, ao alançar a hipótese de que a atual produção geográfica brasileira esteve pouco conectada com os estudos dessa linha específica de estudos globais, significa dizer que a associação dos estudos geográficos brasileiros com os estudos globais contemporâneos, ou seja, a compreensão da própria inserção do Brasil em uma geo-história do sistema mundial, partindo dos domínios da geografia, geógrafos ou os  que praticam a geografia, permanece como um campo pioneiro, notadamente quando se procura a relação com os autores citados, ou, em relação aos domínios da arte, da sociedade e da cultura.

 Afinal, qual é o estado da arte do relacionamento dos estudos geográficos brasileiros com os estudos dos autores acima citados no presente momento? Como os geógrafos, ou os praticantes da geografia, estão relacionando seus trabalhos com a tradição lançada por Fernand Braudel, a saber, representada pelos trabalhos de Immanuel Wallerstein, Andre Gunder Frank, Giovanni Arrighi, Karl Polaniy,  John Darwin, Eric Hobsbwan, entre outros historiadores, antropólogos, economistas, sociólogos, filósofos ou críticos de arte e da cultura dos estudos globais?- é com o objetivo de responder essas questões que a presente chamada está sendo lançada pela Revista Geografias.

O prazo para envio dos artigos para a Revista Geografias é até 10 de julho de 2020, de acordo com as instruções de preparação dos originais contidos na seção “Diretrizes para os autores”.

Coordenação: Larissa Alves de Lira