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DOI: 10.35699/2317-6377.2021.26949
eISSN 2317-6377
Ampliando a técnica violonística de mão direita:
um estudo sobre a repetição por deslizamento
Bruno Madeira
https://orcid.org/0000-0002-3869-9828
Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Departamento de Música
madeirabruno@gmail.com
SCIENTIFIC ARTICLE
Submitted date: 02 jan 2021
Final approval date: 09 apr 2021
Resumo: Considerando a técnica instrumental um organismo em constantes transformações, abrangendo pouco a
pouco técnicas estendidas e convertendo-as em tradicionais, o presente artigo investiga a repetição por deslizamento,
recurso da técnica violonística na qual um dedo da mão direita ataca uma corda e no mesmo movimento,
subsequentemente, ataca a corda adjacente. As análises e discussões são embasadas nos poucos textos que
mencionam o recurso e em exemplos do repertório violonístico didático e de concerto. São expostas quatro situações
na qual a repetição por deslizamento é encontrada nas referências: arpejos de várias cordas, arpejos melódicos,
escalas e ornamentos; por fim, são apresentadas duas situações de aplicação do recurso ausentes na bibliografia:
contraste entre vozes e movimentos rápidos em cordas adjacentes.
Palavras-chave: Performance musical; Técnicas estendidas; Técnica violonística; Repetição por deslizamento; Violão.
TITLE: EXTENDING RIGHT-HAND GUITAR TECHNIQUE: A STUDY ON REPETITION BY SLIDING
Abstract: Considering the instrumental technique an organism in constant transformation, gradually encompassing
extended techniques and converting them into traditional ones, this article investigates repetition by sliding, a
resource of the guitar technique in which a right-hand finger attacks a string and in the same movement, subsequently,
attacks the adjacent string. The analyses and discussions are based on the few texts that mention the resource and on
examples from the didactic and concert guitar repertoire. Four situations are exposed in which repetition by sliding is
found in the references: arpeggios of various strings, melodic arpeggios, scales and ornaments; finally, two situations
of application of the resource that are absent in the bibliography are presented: contrast between voices and rapid
movements on adjacent strings.
Keywords: Musical performance; Extended techniques; Guitar technique; Repetition by sliding; Guitar.
Per Musi, no. 41, General Topics, e214102, 2021
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Madeira, Bruno. 2021. “Ampliando a técnica violonística de mão direita:
Um estudo sobre a repetição por deslizamento” Per Musi no. 41, General Topics: 1-17. e214102. DOI 10.35699/2317-6377.2021.26949
Ampliando a técnica violonística de mão direita:
um estudo sobre a repetição por deslizamento
Bruno Madeira, Universidade do Estado de Santa Catarina, madeirabruno@gmail.com
1. Introdução
O presente artigo tem como objetivo recolher da bibliografia, analisar e exemplificar usos de um
procedimento mecânico relativo à mão direita do violonista – a repetição de um dedo através de seu
deslizamento por mais de uma corda. Na literatura para violão, são raras as menções e exemplos do
procedimento, expostos aqui na segunda seção, que compreende uma revisão bibliográfica. Na terceira e
quarta seção, são expostos casos de aplicação do recurso que não são mencionados nas publicações
analisadas, com o intuito de ampliar a gama de possibilidades técnicas do violonista.
Vários casos da repetição por deslizamento podem ser considerados como técnicas estendidas, quando as
entendemos como “processos que num determinado momento são utilizados marginalmente pelos
intérpretes e que ampliam a paleta sonora de um instrumento ou propõem diferentes soluções mecânicas
para determinadas situações” (Madeira; Scarduelli 2013, 183). Essa concepção de técnica estendida (ou
expandida) vai além da definição de Silva, que as define como aquelas “técnicas não-convencionais, não-
ortodoxas e não tradicionais, [...] [usadas] no sentido de obter sons não-usuais ou timbre instrumentais
diferenciados” (Silva 2013, 123). Mais abrangente é a definição de Vasconcellos: “técnicas de performance
não totalmente assimiladas” (Vasconcellos 2013, 15), que exemplifica com Burtner que o próprio crescendo,
no século XVIII, era considerado uma técnica estendida. Vasconcellos ainda se apoia em José Padovani e
Silvio Ferraz (2011), que afirmam que a técnica estendida se refere a “modos de tocar um instrumento ou
utilizar a voz que fogem dos padrões estabelecidos principalmente no período clássico-romântico” (Padovani
e Ferraz 2011, 11).
Para este artigo, o conceito de técnica estendida estará no campo da interpretação – como manipulações
instrumentais pouco comuns –, não no relacionado à composição – como resultados sonoros pouco comuns.
Nesse sentido, sigo aqui com a mesma linha de investigação apresentada em um trabalho prévio (Madeira;
Scarduelli, 2013), assim como o título sugere.
Concluindo essa pequena introdução, é importante destacar que é consenso entre os autores a volatilidade
da fronteira entre a técnica estendida e técnica tradicional, considerando que a técnica instrumental passa
por contínuas transformações que incorporam pouco a pouco novos procedimentos.
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Madeira, Bruno. 2021. “Ampliando a técnica violonística de mão direita:
Um estudo sobre a repetição por deslizamento” Per Musi no. 41, General Topics: 1-17. e214102. DOI 10.35699/2317-6377.2021.26949
2. Revisão bibliográfica
Os mais antigos exemplos encontrados na literatura específica para violão
1
estão no Studio per la chitarra,
op. 1 de Mauro Giuliani (1812). A primeira parte desse importante documento é dedicada a arpejos, na qual
o autor expõe cento e vinte padrões de dedilhado que fazem o leitor compreender quais eram as
preferências técnicas do autor para variadas situações, além de desenvolver a técnica de mão direita.
Através de uma leitura atenta do op. 1 é possível vislumbrar o estilo técnico-interpretativo do início do século
XIX, conforme Fernández (2013) demonstra. Especificamente sobre o tema da repetição por deslizamento,
Giuliani deixa quatro exemplos:
Figura 1 – Fórmulas de arpejo com repetição por deslizamento. Os pequenos círculos acima das notas representam os dedos indicador (1
círculo), médio (2) e anular (3). O acento circunflexo abaixo das notas representa o polegar
Fonte: Giuliani (1812)
Observa-se que em arpejos descendentes, Giuliani usa a repetição do dedo indicador em duas cordas. Apesar
de não constar detalhamento sobre a realização das repetições, supõe-se que Giuliani as fazia através do
deslizamento, evitando assim uma repetição menos favorável (com outro dedo) ou um reposicionamento
da mão direita, inevitável com a não-repetição. Fernández (2013) salienta que o exercício n. 89 contém um
dedilhado com repetição por deslizamento para um arpejo circular de cinco notas que pode ser aplicado
também em Villa-Lobos, conforme ilustra a figura a seguir:
Figura 2 – Compasso 1 da seção central do Prelúdio n. 2, de Heitor Villa-Lobos, utilizando a repetição por deslizamento do dedo indicador
nas últimas duas semicolcheias
Fonte: o autor (2020), a partir de Fernández (2013) e Villa-Lobos (1990)
Ricardo Barceló (1995) também escreve sobre o procedimento, logo após uma lúcida reflexão sobre hábitos
adquiridos sem os devidos questionamentos, como pode ser a alternância de dedos da mão direita. O autor
1
A guitarra romântica do século XIX será considerada como violão, já que possui o mesmo número de cordas
e afinação e ser seu antepassado direto.
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Madeira, Bruno. 2021. “Ampliando a técnica violonística de mão direita:
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afirma que a repetição por deslizamento do polegar é amplamente aceita, bem como a do indicador, “em
especial quando se tocam todas as cordas (uma por nota), em forma de arpejo, no sentido normal da
pulsação” (Barceló 1995, 68). Exemplos dessa aplicação são encontrados frequentemente no repertório,
como nas peças de Joaquín Turina e Joaquín Rodrigo que Barceló escolheu para ilustração:
Figura 3 – Exemplos de repetição por deslizamento dos dedos p e i em obras de Turina e Rodrigo
Fonte: Barceló (1995)
Para exemplificar o mesmo procedimento citado por Barceló, exponho também aqui um trecho da Homenaje
pour le tombeau de Claude Debussy, de Manuel de Falla, e um exercício retirado do método de Pujol:
Figura 4 – Compassos iniciais de Homenaje pour le tombeau de Claude Debussy, de Manuel de Falla, ilustrando a repetição por
deslizamento do dedo indicador no c. 2
Fonte: Falla (1980)
Figura 5 – Trecho de exercício de glissado (sic) de polegar em notas sucessivas
Fonte: Pujol (1971)
Na literatura consultada, Barceló é o único a detalhar do ponto de vista mecânico a realização da repetição
por deslizamento, além de listar três maneiras de realizá-lo: “a) mediante um movimento exclusivo do dedo
que vai realizar [o deslizamento]; b) graças a um movimento realizado pelo pulso; c) por meio de um
deslocamento do braço” (Barceló 1995, 68). O conceito carlevariano de fixação (fijación) pode ser aplicado
aqui para compreender melhor as maneiras listadas – “a anulação (não mobilidade) voluntária e
momentânea de uma ou várias articulações com o objetivo de dar lugar à atuação de elementos mais aptos
e fortes para cumprir determinado fim” (Carlevaro 1979, 34). A cada uma das maneiras expostas para realizar
o deslizamento, um grupo muscular maior é ativado.
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Madeira, Bruno. 2021. “Ampliando a técnica violonística de mão direita:
Um estudo sobre a repetição por deslizamento” Per Musi no. 41, General Topics: 1-17. e214102. DOI 10.35699/2317-6377.2021.26949
Käppel (2016) dedica uma página de seu método para o que chama de arpejos de um dedo sobre várias
cordas. Diferentemente de Barceló, que usa exemplos do repertório, Käppel apresenta dezesseis exercícios
para a realização do procedimento com os dedos indicador ou anular, abrangendo duas, três, quatro, cinco
e seis cordas. Alguns dos exercícios estão ilustrados abaixo:
Figura 6 – Exercícios para repetição por deslizamento em arpejos de quatro e seis cordas
Fonte: Käppel (2016)
Assim como o dedilhado dos arpejos do op. 1 de Giuliani fornece pistas para a compreensão de um estilo
técnico-interpretativo, a revisão e edição feita por Narciso Yepes da Collectici Íntim, de Vicente Asencio
2
,
deixa o registro das maneiras preferidas por Yepes para a resolução técnica. O exemplo abaixo apresenta
um caso de arpejos semelhante aos anteriores, no qual a opção pela repetição por deslizamento é
determinante para a realização
3
:
Figura 7 – Trecho de La Frisança, último movimento de Collectici Íntim, de Vicente Asencio, no qual há alternadamente a repetição por
deslizamento do indicador e anular
Fonte: Asencio (1988)
Voltando a Barceló, ainda se observa o uso da repetição por deslizamento para a ornamentação (Figura 8,
abaixo). Para essa função, o autor utiliza apenas o dedo indicador, escolha que é ampliada também para o
anular em Rosa (2016), conforme mostra a Figura 9. Barceló, apesar de ter publicado o material mais
detalhado sobre a repetição por deslizamento, tendo inclusive compartilhado a percepção de que os
violonistas são reticentes ao uso do recurso quando o trecho não se trata de um arpejo em todas as cordas,
não descreve outras situações além das aqui citadas.
Figura 8 – Exemplo de repetição por deslizamento do dedo indicador para ornamentação em três cordas.
Fonte: Barceló (1995)
2
Vale notar que Asencio é espanhol, assim como Falla, Turina e Rodrigo dos exemplos anteriores, o que
levanta hipóteses de correlação entre recurso técnico-idiomático e estilo composicional.
3
Um detalhe relevante é a opção por realizar o último acorde do c. 28 com o anular escovado, procedimento
que será descrito no fim da seção.
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Um estudo sobre a repetição por deslizamento” Per Musi no. 41, General Topics: 1-17. e214102. DOI 10.35699/2317-6377.2021.26949
Figura 9 – Exemplos de repetição por deslizamento dos dedos indicador e anular para ornamentação em duas cordas.
O polegar repousa na terceira para evitar que ela vibre
Fonte: Rosa (2016)
O fato de o dedo médio ser preterido pelos autores não é explicado; porém, supõe-se que, para os casos
levantados por Rosa, que pode ser considerado uma diminuição do exemplo de Yepes da Figura 7, a
diferença de tamanho do médio em relação ao indicador e anular seja um empecilho à precisão. A
similaridade de força e comprimento entre indicador e anular são evidenciadas por Barceló quando trata de
outros temas, afirmando que a distância entre eles favorece a mobilidade e independência (Barceló 1995,
58-59).
Outro dos poucos autores a abordar a repetição por deslizamento é Pepe Romero (1982). Sua descrição
difere da dos autores anteriores por abordar o procedimento em escalas: “Essa técnica no toque apoiado é
opcional, apesar de ser uma que eu uso com grande prazer e sucesso. Ela envolve o deslizar do dedo
indicador para a corda mais grave” (Romero 1982, 34). O autor ilustra o procedimento com o seguinte
exemplo:
Figura 10 – Repetição por deslizamento em realização de escala
Fonte: o autor (2020), a partir de Romero (1982)
Romero também observa um importante detalhe em relação ao ponto de contato da unha e dedo com a
corda para o ataque da segunda nota:
Depois de tocar o Si na segunda corda, o dedo indicador não está em perfeita posição para
tocar o Lá na terceira corda. Ele chegará com muita carne. Enquanto mantém a pressão na
corda, role o dedo indicador até que você sinta o canto da unha tocar a corda e que esteja
na posição correta para soltar a corda para que vibre. Essa manobra precisa ser feita em
um movimento contínuo e rápido. (Romero 1982, 34)
Observa-se também na escolha de dedilhado de Yepes para trechos da Collectici Íntim a repetição por
deslizamento para a realização escalar em duas cordas (Figura 11) e três cordas (Figura 12):
Figura 11 – Trecho de La Joia, segundo movimento de Collectici Íntim, de Vicente Asencio, no qual o anular é repetido por deslizamento em
graus conjuntos
Fonte: Asencio (1988)