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DOI: 10.35699/2317-6377.2021.35033
eISSN 2317-6377
“Você é cantor, mas vive do quê?:
a invisibilização social do cantor como trabalhador
Leila Claudia Monteiro de Castro dos Santos Braga
https://orcid.org/0000-0001-5830-3889
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos em Saúde Coletiva
leilamonteiro.fono@gmail.com
Gabriel Eduardo Schütz
https://orcid.org/0000-0002-1980-8558
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos em Saúde Coletiva
gabriel@iesc.ufrj.br
SCIENTIFIC ARTICLE
Submitted date: 03 jul 2021
Final approval date: 25 jul 2021
Resumo: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada com discentes e docentes de cursos de bacharelado em
música (habilitação canto) em duas instituições blicas de ensino, através da aplicação de entrevistas e observação
participante. As falas transcritas foram analisadas na modalidade da Teoria Fundamentada. Conclui-se que aspectos
como a fetichização do cantor e a multiatividade são alguns dos mais relevantes no processo de invisibilização social
do cantor trabalhador e, ainda, sobre como esta invisibilização social determina perdas na qualidade de vida,
manifestada em forma de frustração, perda da autoestima, estresse, instabilidade econômica, informalidade,
precarização laboral e sobrecarga de trabalho para realizar sua performance artística (o canto) de um lado, e obter os
meios de subsistência por outro.
Palavras-chave: Cantor; Invisibilização; Saúde do trabalhador; Saúde ocupacional; Qualidade de vida.
TITLE: “YOU ARE A SINGER, BUT WHAT DO YOU DO FOR A LIVING?”: THE SOCIAL INVISIBILITY OF THE SINGER AS A
WORKER
Abstract: It is a qualitative research, carried out in two public educational institutions with students and professors of
the Bachelor of Music (major in singing), through interviews and participant observation. The transcribed lines were
analyzed using the Grounded Theory. It was concluded that some aspects like the fetishizing of the singer and their
multitasking are some of the most relevant in the process of social invisibility of the working singer and also how this
social invisibility results in loss of quality of life, expressed in the form of frustration, low self-esteem, stress, economic
instability, informality, precarious employment, and work overload to achieve their artistic performance (the singing)
on the one hand, and obtaining their means of subsisting on the other hand.
Keywords: Singer; Invisibility; Workers’ health; Occupational health; Quality of life.
Per Musi, no. 41, General Topics, e214115, 2021
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Braga, Leila Claudia Monteiro de Castro; Schütz, Gabriel Eduardo. 2021. ““Você é cantor, mas o que faz para viver?”:
a invisibilização social do cantor como trabalhador". Per Musi no. 41, General Topics: 1-13. e214115. DOI 10.35699/2317-6377.2021.35033
“Você é cantor, mas o que faz para viver?”:
a invisibilização social do cantor como trabalhador
Leila Claudia Monteiro de Castro dos Santos Braga, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
leilamonteiro.fono@gmail.com
Gabriel Eduardo Schütz, Universidade Federal do Rio de Janeiro, gabriel@iesc.ufrj.br
1. Introdução
“Eu não sei trocar lâmpada, eu não sei bater martelo, eu só penso em música”
(Rodolfo, cantor, professor de canto e discente do bacharelado)
Este estudo é proveniente de uma dissertação de mestrado com o objetivo principal de investigar a
promoção e a proteção da saúde durante o processo de formação do cantor. Os achados deste estudo
trouxeram algumas questões a serem investigadas, dentre elas a percepção social de que o cantor não se
encaixa na ideia de trabalhador. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a qualidade de vida pode
ser entendida como a percepção que um indivíduo possui sobre sua posição na vida, tanto no contexto
cultural e sistema de valores quanto aos seus objetivos, expectativas e preocupações (WHOQOL 1995, 1405).
Nos últimos 60 anos, as atividades culturais vêm sendo reconhecidas como um setor da economia composto
por diversas cadeias produtivas, como o cinema, a produção literária, as artes performativas, o setor musical,
dentre outras (Earp 2002). A associação entre as atividades culturais e o desenvolvimento econômico, assim
como o status do artista na sociedade ocidental, advém de um processo histórico caracterizado por
transformações nas relações sociais de produção da arte.
Até o século XVIII, o artista tinha o status social de artesão: adquiria uma formação musical geral em
confrarias e irmandades, sendo ao mesmo tempo o intérprete e o compositor da obra. A produção musical
era destinada a um patrono, não havendo liberdade criativa. Já no século XVIII, observa-se o surgimento de
novas relações sociais de produção a partir do advento da impressão musical (partitura). O produto musical
ganhava status de mercadoria, sendo destinado ao mercado e não apenas ao patrono. Desta forma, surgiu
a possibilidade de divisão das funções de intérprete e compositor, e a especialização em determinado
instrumento, canto ou regência, sendo o processo de formação musical, que agora ocorria nos
conservatórios de música. A mudança do status de artesão para artista conferia ao músico autonomia para
a experimentação artística e o direcionamento de sua arte a um público anônimo (Elias 1995; Costa 2015,
5).
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A partir de 1920, a maior comunicação entre as classes sociais e a popularização dos musicais, levou ao
fortalecimento da música popular. O desenvolvimento da indústria fonográfica, com a possibilidade de
reprodução fonomecânica das gravações musicais em formato de disco, impulsionou a música a uma nova
escala de consumo. A popularização do rádio e do cinema musicado, nos anos 1930, contribuiu para a
ampliação dos meios de distribuição, consumo musical e desenvolvimento da indústria do entretenimento.
A cadeia produtiva do século XX passou por transformações em nível tecnológico. Composta por produtores
de fonógrafos e gramofones, fabricantes de discos e Compact Discs (CDs), indústria de instrumentos
musicais, artistas e consumidores de música, manteve-se em alta até o início do século XXI, sofrendo uma
queda brusca com a chegada do MP3 e das transferências ilegais realizadas online. Com a popularização do
acesso digital tornou-se possível encontrar artistas que, de forma independente, realizam criação de vídeos
e gravações para download (Genes, Craveiro e Proença 2012, 173-180). As mudanças tecnológicas, ocorridas
desde o final do século XX, levaram a uma modificação na cadeia produtiva musical, com redução do custo
da produção, mudanças na forma de distribuição e comercialização, enfraquecimento das grandes
gravadoras e flexibilização dos contratos de trabalho (Requião 2008, 139).
A cadeia produtiva musical pode ser dividida em cinco etapas: pré-produção, composta pela indústria dos
instrumentos musicais, equipamentos de gravação, fabricação de matéria prima e capacitação dos
profissionais; produção, caracterizada pela indústria fonográfica (responsável pelo processo desde a
produção artística até a prensagem) e pelos agentes governamentais e institucionais; distribuição, composta
pela publicidade e logística; a divulgação, realizada através de rádio, tv, shows e espetáculos, mídia impressa
e internet; a comercialização, através de vendas através de lojas, internet, trilhas sonoras, shows,
espetáculos e etc.; e o consumo, em execuções públicas ou privadas (Prestes Filho 2004). Apesar da
expansão do setor musical na economia brasileira, os profissionais que atuam na ponta da cadeia produtiva
continuam vivendo de forma precarizada. A fetichização do artista como um ser dotado de “capacidades
extraordinárias”, denominadas por muitos como “talento” ou “dom”, contribui para a invisibilização social
do artista como trabalhador e para a ilusão quanto ao real investimento em seu preparo como profissional
(Requião 2008, 136; Requião 2016, 250).
Tais percepções levariam a sociedade a invisibilizar a identidade profissional do cantor, em uma situação
que poderia ser sintetizada com a pergunta: “você é cantor, mas o que faz para viver?”. Neste sentido, este
artigo tem como objetivo discutir aspectos da invisibilização social do cantor como trabalhador e do impacto
em sua qualidade de vida, a partir de uma análise das falas produzidas por docentes e discentes de cursos
de bacharelado em música (habilitação canto) de instituições públicas de ensino.
2. Metodologia
A pesquisa qualitativa é capaz de se aprofundar no fenômeno investigado através da observação das
relações humanas, estando preocupada em compreender o significado, as motivações, as aspirações, as
crenças e os valores existentes nestas relações. Durante o desenvolvimento deste estudo, privilegiaram-se
instrumentos qualitativos com a utilização de questionário e roteiro de entrevista, em triangulação com
observação participante. Estes procedimentos são frequentemente utilizados em pesquisas de caráter
qualitativo na intenção acessar os significados contidos nas falas dos atores sociais investigados (Minayo
2001, 22; Neto 2001, 57).
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Desta forma, foram realizadas entrevistas estruturadas, contendo perguntas fechadas de caráter
sociodemográfico (questionário) e perguntas abertas (roteiro) que abordassem, de forma específica, o tema
pesquisado. As entrevistas foram divididas em duas categorias: a primeira direcionadas aos discentes que
cursavam o bacharelado em música (habilitação canto) no momento da pesquisa; e a segunda direcionada
aos informantes chaves (categoria essa composta por docentes, membros da coordenação do curso, e
cantores que tivessem alguma relação com o curso de bacharelado).
Para o recrutamento dos informantes chaves foi utilizada a técnica snowball (“bola de neve”), que consiste
numa amostragem não probabilística utilizada com frequência em pesquisas sociais. Esta técnica gera um
recrutamento em cadeia, onde os participantes iniciais indicam novos participantes que, por sua vez,
indicarão outros novos participantes e assim, sucessivamente, formando uma espécie de rede. O
recrutamento se encerra quando é atingido o “ponto de saturação”, momento em que os entrevistados
não acrescentam novas informações relevantes à pesquisa (Vinuto 2014, 203). No caso dos discentes do
curso de bacharelado em música (habilitação canto), o recrutamento para a participação das entrevistas foi
realizado através de convite via correio eletrônico, onde foi apresentada a proposta do estudo e sua
relevância. Todas as entrevistas realizadas foram concedidas após a leitura e a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), contando com a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do
Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC/UFRJ), CAAE 91288318.8.0000.5286.
As entrevistas foram agendadas e realizadas na própria instituição de ensino, com duração média de 25
minutos, onde se utilizou um gravador para a coleta das falas e posterior análise do conteúdo. No total foram
entrevistados doze cantores, sendo seis discentes que cursavam entre o segundo e o penúltimo período do
curso de bacharelado, com idades variando entre 18 e 36 anos, sendo cinco do sexo feminino e um do sexo
masculino; e seis participantes entrevistadas como informantes chaves, com idades entre 32 e 63 anos,
sendo todas do sexo feminino. Seguindo critérios éticos e com o intuito de preservar o anonimato dos
participantes, as autorias das falas destacadas não foram reveladas neste estudo. Os entrevistados
receberam nomes fictícios, sendo aqui representados por personagens de óperas famosas. Também não
serão reveladas as instituições públicas de ensino nas quais o estudo teve lugar. Em simultâneo, foram
realizadas observações participantes em disciplinas ministradas no curso de bacharelado em música
(habilitação canto), com registro em diário de campo para posterior análise do conteúdo.
A observação é o método que permite ao pesquisador acessar o conhecimento acerca das práticas,
descobrindo como algo efetivamente funciona (Flick 2009, 203). As observações participantes foram
concedidas através de carta de anuência das instituições em questão. A duração das observações levou cerca
de dois meses, com um total de setenta horas de observação de disciplinas ministradas para o curso de
bacharelado, onde foram abordados 24 discentes e 5 docentes, além de 8 horas de observação relativas à
três espetáculos abertos ao público, produzidos e executados pelos participantes e outros membros do
corpo docente e discente das instituições.
Para proceder à análise das falas, o primeiro passo foi relacionar o conteúdo transcrito das entrevistas com
os contextos da observação, buscando uma melhor aproximação das conjunturas de produção de sentido
“no mundo real”, indo além das opiniões vertidas na entrevista e de suas interpretações literais,
aproximando-se de uma avaliação das ações dos sujeitos na prática (Gray 2012, 320). Posteriormente, as
falas transcritas foram codificadas, ou seja, trechos das falas foram selecionados segundo sua capacidade de
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exprimir a percepção da invisibilidade do cantor como trabalhador, bem como para relatar as consequências
e desdobramentos que isto ocasiona na sua qualidade de vida.
A codificação é o processo analítico que permite identificar passagens do texto que exemplifiquem alguma
ideia temática específica. Os resultados são apresentados e discutidos na modalidade de Teoria
Fundamentada, uma das abordagens mais usadas para a codificação nas Ciências Sociais, gerando
significados teóricos ou propondo hipóteses em forma indutiva, a partir dos dados, sustentando-se na
interpretação dos sentidos sem, necessariamente, endossar as visões de mundo dos sujeitos da pesquisa
(Gibbs 2009, 71).
3. Resultados e discussão
“O meu sonho... sabe qual é o meu sonho? É ganhar dinheiro fazendo isso. (...) Não me
preocupo de ter que cantar em casamentos para pagar minhas contas, mas queria poder
viver disso...” (Rodolfo, cantor, professor de canto e discente do bacharelado)
3.1. O cantor trabalhador
A Classificação Brasileira de Ocupação (CBO) descreve a ocupação dos músicos intérpretes sob o código
2627, sendo subdividida em 2627-05 e 2617-10, respectivamente como “Músico intérprete cantor” (também
denominado “músico intérprete cantor erudito” ou “músico intérprete cantor popular”) e “músico
intérprete instrumentista” (também denominado músico intérprete instrumentista erudito” ou “músico
intérprete instrumentista popular”). Na descrição desta categoria, encontramos indivíduos que interpretam
músicas, seja por meio de algum instrumento ou por meio da voz, podendo se apresentar em público ou em
estúdios. Estes profissionais aperfeiçoam e atualizam suas técnicas de execução e interpretação, além de
pesquisar e trazer novas propostas para o campo (Brasil 2019).
A formação e experiência o descritas como um processo heterogêneo, adquiridas através dos
conservatórios musicais, junto a professores especialistas, em cursos de nível superior em música, ou ainda
de forma autodidata. Estão também explicitadas as condições para o exercício do trabalho, seja para música
erudita ou popular, podendo se organizar em carreira solo, em duos, trios, quartetos, bandas, coros,
orquestras, combinando modalidades ou se especializando em alguma delas. A maioria dos músicos trabalha
como autônomo para empresas e instituições privadas ou públicas, sendo apenas uma parcela empregada
em corpos musicais estáveis, vinculados à esfera pública. A regulamentação quanto a remuneração dos
cantores não segue normas específicas, sendo disponibilizadas tabelas sugeridas pelo sindicato com valores
de referência. Há ainda a descrição da rotina de trabalho destes profissionais como marcada por horários de
trabalho irregulares, necessitando permanecer por longos períodos em posições desconfortáveis, sob
pressão e ruído intenso.
Durante as entrevistas realizadas em pesquisa de campo, os discentes mencionaram inseguranças em
relação a atuação profissional e o fato de que, embora não houvessem optado pelo curso de licenciatura,
trabalhavam dando aulas particulares ou em cursos de música:
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“Porque a maioria, enfim, todo mundo vai se formar e vai dar aula, né? Carreira de solista
é sempre muito difícil. (...) A maioria dos alunos de canto fazem isso em paralelo ao canto,
né? Eu também, como cantora, sou professora. Também preciso entender para passar...
mas como eu vou explicar? Como que eu vou fazer o mecanismo para ele impostar a voz?
(Carmen, 25 anos, cantora, discente do curso do bacharelado e professora de canto)
Em outra entrevista com informante chave, uma cantora relatou que optou pelo curso de licenciatura em
música (habilitação canto) embora quisesse cursar o bacharelado, pois acreditava a formação em
licenciatura lhe traria mais oportunidades de trabalho:
“Na verdade, a vontade era de fazer um bacharel. que é a questão do emprego... E se
eu preciso fazer um concurso? Pra bacharel não vale. Eu fiz a licenciatura porque além de
eu cantar e dar aulas pra adultos, eu trabalho com musicalização infantil.” (Mimi, 30 anos,
cantora, professora de canto, discente do curso de licenciatura em música habilitação
canto)
Em seu estudo acerca das competências e saberes na atuação e formação dos músicos e suas realidades no
mundo do trabalho, Requião (2002, 64) observa a existência do profissional que designou como “músico-
professor”, ou seja, o profissional que teve sua formação voltada para o desenvolvimento de atividades
artísticas, porém desenvolve atividades docentes que correspondem, muitas vezes, à única atividade com
remuneração regular que possui.
Para os cantores que vivem esta realidade de instabilidade financeira e optam por dar aulas em busca de
uma remuneração mais regular, essa segunda atividade pode ainda influenciar sobre a qualidade vocal para
o canto e sobre a saúde dos cantores já que, como professores, os cantores necessitam utilizar o mesmo
instrumento de trabalho (a voz). A maior carga de trabalho interfere no tempo de repouso e de preparação
vocal em seu dia a dia, aumentando assim os riscos de desenvolver problemas de saúde geral e vocal.
“Na escola de música em que trabalho, dou aulas de canto (...) às vezes pego turmas
grandes, e quando eu dou uma carga horária muito grande lá, nossa... eu fico com a voz
muito cansada. E é ruim porque, como é um horário após o outro não tempo de fazer
minha alimentação direito, os dias que eu a minha gastrite grita, porque fico muito
tempo sem comer. (Pamina, 36 anos, cantora, professora de canto e aluna do
bacharelado)
A análise dos fatores de risco das vozes profissionais deve levar em consideração não apenas as questões
individuais, mas também os aspectos ambientais. No caso da voz cantada, as condições de apresentação do
cantor podem gerar impactos em sua saúde vocal (Behlau et. al. 2008, 248).
“Quem está usando a voz regularmente, que trabalha cantando, tem que manter a saúde,
tem que dormir bem, tem que repousar, não pode passar do limite de estudo, se tiver
ensaios tem que dosar o tempo que voesteja cantando, tem que aprender a marcar, a
não dar sempre voz plena, e precisa saber como fazer isso de forma saudável.” (Cecília, 63
anos, cantora e docente do bacharelado)
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O problema é se preservar, e isso vai requerer a você se privar de algumas coisas, né? Sai
de um show, ou sai de um concerto e vai falar? Conversar com os amigos num lugar
ruidoso? Aquelas situações que a gente sabe que são típicas, né? Ou então, o descontrole
psíquico-físico, né? O psíquico perturba exatamente a semana em que tem a estreia, e
não consegue lidar com aquilo, com aquela pressão, com a adrenalina e fica doente, perde
a voz...” (Aida, 54 anos, cantora e docente do bacharelado)
Dentre os riscos descritos na Classificação Brasileira de Ocupação (CBO) acerca da rotina de trabalho dos
músicos, encontramos o risco auditivo, devido à exposição ao ruído intenso. Este ruído, porém, é diferente
do ruído ao qual está exposto o trabalhador fabril, estando mais relacionado à intensidade do som (musical)
e às inadequações acústicas que podem ser encontradas nos ambientes de trabalho dos cantores. O ruído
industrial e o musical, embora similares em diversos aspectos, também apresentam características físicas
distintas: ambos possuem alcance similar de intensidade, porém com intermitências distintas. A música tem
momentos intensos seguidos de momentos de completo silêncio. Alguns estudos demonstram que o ruído
industrial causa uma maior mudança temporária de limiar auditivo do que a exposição a música, havendo
uma correlação entre a exposição a sons agradáveis e desagradáveis (Chasin 2018). Salienta-se a importância
de maiores estudos voltados para a particularidade da exposição à sica em intensidade elevada,
propiciando maior conhecimento acerca da saúde auditiva dos músicos em geral (Mendes e Morata 2007,
68).
Durante as entrevistas, o risco auditivo foi pouco mencionado pelos cantores. Em alguns casos, os cantores
chegaram a mencionar o desconforto auditivo devido a inadequações acústicas como um fator que os
incomoda, mas exceto por uma docente em particular, os demais não chegaram a citar qualquer
preocupação com relação a perda auditiva.
“Eu tenho dor de cabeça todos os dias que eu dou aula (...) tenho que tomar remédio
porque eu não consigo nem dormir. Sabe quando incomoda mesmo? Muito som, numa
sala com muito reverbe.” (Rosina, 49 anos, cantora e docente do bacharelado)
Quando questionados acerca da frequência com que realizam exames auditivos, apenas um dos cantores
entrevistados relatou ter realizado audiometria, mas que este não era um hábito frequente. Ainda não
existe no Brasil uma legislação específica que aos músicos o mesmo amparo legal que é dado a outros
trabalhadores, havendo pouco reconhecimento deste problema no coletivo de músicos em geral (Lüders e
Gonçalves 2013, 134). A falta de padronização legal para os níveis de pressão sonora voltados para este
coletivo poderia criar a falsa impressão de que os ambientes de trabalho dos músicos estão livres de riscos
auditivos (Owens 2004, 109).
Uma das docentes entrevistadas acredita que a sobrecarga de atividades é a causa mais comum dos
problemas de saúde desenvolvidos pelos cantores. Segundo ela, existem períodos do ano em que mais
ofertas de contratação principalmente no final do ano, quando são formados os coros de Natal e nestas
épocas tornam-se mais evidentes os efeitos desta sobrecarga:
“É comum os alunos cantarem em dois, três coros, fazerem ópera, darem aula, cantarem
na igreja e ainda fazerem aula de canto. Então, em geral, sempre tem problemas relativos
a isso, né? Edema, refluxo... vem tudo relacionado a quantidade de atividade e ao estresse
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gerado por essas atividades, (...) no Natal, então... que todo mundo fica sem voz, bem
na época das provas, porque eles têm coro de supermercado, e é uma quantidade absurda
de horas que eles cantam” (Rosina, 49 anos, cantora e docente do bacharelado)
O estresse é um sintoma frequentemente referido por cantores que atuam profissionalmente na noite,
podendo ser categorizado em dois tipos: estresse situacional e estresse contextual. O estresse situacional se
relaciona às condições ambientais ou situacionais, como a inadequação acústica do local da apresentação e
a falta de segurança no palco, enquanto o estresse contextual seria relativo aos contextos em que os
cantores se encontram inseridos, levando em consideração os contratempos encontrados em meio aos
deslocamentos para trabalhar, problemas relacionados à remuneração, ao impacto da irregularidade das
atividades profissionais, que influenciam a vida pessoal e familiar, e a sensação de discriminação em relação
à profissão, onde relatam ser vistos como “não tendo formação musical e técnica”. A pressão financeira
enfrentada pelos cantores seria o motivo que levaria os cantores a se submeterem a situações de risco
(Cintra e Vandenberghe 2014, 108-110).
O mundo do trabalho no qual o cantor está inserido seria marcado pela instabilidade financeira, pelo pouco
reconhecimento social, pela irregularidade em seus horários e pela informalidade (Requião 2008, 8). A falta
de regularidade e a instabilidade financeira foram alguns dos pontos mencionados pelos entrevistados. Uma
das cantoras entrevistadas mencionou que buscou o curso de bacharelado, embora acreditasse ser uma
profissão pouco remunerada:
“A minha família toda sempre me apoiou na escolha de que a gente tem ter um curso
superior em alguma coisa que vai fazer a gente feliz, não com base em alguma coisa que a
gente vai ganhar dinheiro porque o dinheiro não é garantia de nada. Eles sempre me
falaram muito isso, então foi por isso que eu escolhi cantar, porque é o que me faz mais
feliz” (Butterfly, 18 anos, cantora e discente do bacharelado)
Outra aluna comenta que iniciou o curso de bacharelado com a intenção de fazer carreira como cantora,
mas que a instabilidade da profissão a levou a garantir alternativas profissionais, para o caso de não
conseguir se manter financeiramente como cantora:
“Eu tenho o meu plano b, e eu acho que a chance de rolar com o plano b é maior... eu
trabalho com iluminação cênica e começando a mexer com produção, ainda na área
cultural, ainda querendo fazer ópera, mas não tem muita garantia de ganhar dinheiro
cantando.(Carmen, 25 anos, cantora, discente do curso do bacharelado e professora de
canto)
Muitos cantores vivenciam ainda a sobrecarga de trabalhar realizando muitas apresentações, enquanto
estão se capacitando profissionalmente. Esta situação condiz com os relatos dos discentes participantes
desta pesquisa. Estes profissionais precisam dar conta de estudar e ensaiar o repertório exigido pela grade
do curso, além de realizar espetáculos ao longo da graduação. A realidade do multiemprego vivida pelos
músicos é uma situação comum na busca de uma renda mais digna, retratando o processo de precarização
vivido pelos artistas (Guadarrama, Hualde e López 2012, 280).
A competitividade é outro aspecto mencionado durante as entrevistas. A realidade dos cantores
profissionais no mundo do trabalho é permeada pela concorrência constante, além do estresse físico (com
viagens constantes, privação de sono e trabalho em horários irregulares, muitas vezes durante as
madrugadas, a imprevisibilidade do local de trabalho e dieta irregular) e o estresse emocional (devido a
insegurança financeira e a tensão nas relações interpessoais) (Jahn 2009, 8).
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“Não é fácil ser cantor... o meio é muito competitivo. Eles começam a ser educados já
dentro desse universo de extrema competição e isso afeta demais psicologicamente... eu
fico brincando que no primeiro dia de aula eles entram com o sonho de serem cantores, e
no 2º dia de aula eles já tem medo de cantar, por conta do próprio ambiente. O ambiente
é muito rigoroso, digamos assim, não tolera erro.” (Rosina, 49 anos, cantora e docente do
bacharelado)
Durante as observações participantes, um dos cantores observados demonstrava estar cansado e por vezes
queixava-se de fadiga vocal, precisando utilizar técnica de sobrearticulação e evitando cantar com voz plena
para se poupar durante os ensaios. O cantor relatou ter sido contratado por um coro e estar em sobrecarga
de atividades, com muitos ensaios e apresentações agendadas em cidades diferentes, além de suas
atividades acadêmicas:
“Nas últimas três semanas o parei em casa. Fiz parte de três concertos e uma masterclass
onde cantamos por cinco horas! Comentaram comigo que vida de carreira é vida de mala
e hotel. Será que quero isso para a minha vida?” (Conde de Almaviva, cantor e discente do
bacharelado)
Ao longo de seu estudo acerca dos processos e relações de trabalho vivenciadas pelos músicos, Requião
(2008, 152) constatou que nenhum dos músicos entrevistados possuíam renda regular. A remuneração
recebida era geralmente estipulada por meio de acordo com os empregadores, sem seguir critérios
específicos. Todos os músicos entrevistados durante a pesquisa exerciam mais de uma função em suas
atividades profissionais: como instrumentistas, cantores, professores de música, copistas, técnicos de som,
regentes, arranjadores, compositores e locutores. Tais características reforçam a fala de uma das alunas
observadas durante as aulas do bacharelado, em desabafo com a professora:
“Já estou estressada com o recital porque, além de tudo, ainda tenho que organizar, tenho
que produzir, e as pessoas não colaboram!” (Violetta, cantora e discente do bacharelado)
A necessidade de exercer mais de uma função estaria relacionada ao conceito de “multiatividade”,
compreendido em três categorias distintas: a polivalência, a poliatividade e a pluriatividade. A polivalência
está relacionada ao profissional que interpreta gêneros musicais diversos ou, ainda, que toca mais de um
instrumento musical, independentemente de seu gosto ou vontade, mas a fim de aproveitar as
oportunidades que surgem no mundo do trabalho; a poliatividade se caracteriza pelo músico que exerce
outra profissão (não relacionada a atividade artística) para se sustentar financeiramente; e a pluriatividade
seria relativa ao profissional que executa mais de uma atividade remunerada, como o músico que realiza
espetáculos e exerce outra atividade, ainda na área da música, sendo a docência a atividade mais comum
(Machillot 2018, 266).
Uma das docentes comenta que uma de suas alunas, além do canto erudito, também trabalha com teatro
musical e que apresentou fadiga vocal por conta das apresentações que realiza profissionalmente. Devido
ao quadro de fadiga vocal foi necesrio reduzir o ritmo de suas atividades na universidade para não
ocasionar uma lesão.
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Braga, Leila Claudia Monteiro de Castro; Schütz, Gabriel Eduardo. 2021. ““Você é cantor, mas o que faz para viver?”:
a invisibilização social do cantor como trabalhador". Per Musi no. 41, General Topics: 1-13. e214115. DOI 10.35699/2317-6377.2021.35033
“Eu senti que ela estava com fadiga vocal, falei ‘você tem que dar uma olhada nisso porque
cantando não se sente tanto, mas no falar pra sentir’, e ela foi ver e era justamente
na região da fala, então é a fala que estava fazendo mal... cantar em cima disso não é bom
também, você tem que tratar desse problema para poder fazer (aula)”. (Cecília, 63 anos,
cantora e docente do bacharelado)
3.2. A 'fetichização' do cantor
Conforme expõe Adenot (2010, 2-4), o artista é percebido socialmente e, em muitos casos, se percebe
como um indivíduo dotado de uma vocação. O conceito de vocação, inicialmente relacionado a vida religiosa,
representa uma dádiva inevitável, estando além da escolha individual. A vocação poderia alcançar qualquer
pessoa, independentemente de sua origem ou posição social, porém passava a influenciar no papel social
do indivíduo, que o diferenciava dos demais como eleito. Sob influência do Romantismo, a partir do século
XVIII o conceito de vocação passou a abranger a área das artes, consagrando-se no inconsciente coletivo no
século XIX.
Segundo o autor, o conceito de vocação passou por um processo de modernização e laicização, atingindo
um novo ethos: o indivíduo eleito teria agora alguma ingerência sobre esse processo, sendo capaz ou não de
aproveitá-lo em busca de uma vida individual bem-sucedida e, portanto, também economicamente bem-
sucedida. Esta nova concepção tornaria a vocação ativa e produtiva.
Durante as entrevistas, uma das docentes comentou que gasta muito tempo de suas aulas lidando com
situações desencadeadas pela mitificação do cantor acerca de si próprio, acreditando ter um dom, uma
vocação. Segundo ela, muitos alunos, ao se depararem com os obstáculos comuns ao processo de formação,
acreditam não ter “nascido pra isso” e demonstram querer desistir do curso:
“Há questões que atrapalham... idealizações que os alunos têm: o cantor dotado de um
dom, de talento, essa busca pela plateia, por ser ovacionado. Isso de ser ovacionado acaba
existindo mais no ambiente familiar ou entre os amigos, na formação não existe... O cantor
não nasce pronto, é necessário estudo, esforço, técnica...” (Rosina, 49 anos, cantora e
docente do bacharelado)
A docente ainda comenta que este tipo de situação pode afetar a autoestima e a segurança emocional do
cantor que muitas vezes tenta agradar a plateia em busca de reconhecimento:
“Não existe pessoa que entre no palco para dar o pior de si. Todos entram no palco pra dar
o melhor de si, e nessas relações é que você vai aprendendo como melhorar, mas às vezes
eles não entram no palco para dar o melhor de si, mas para agradar aos outros, eles não
dão o melhor de si, porque ‘fulano não gosta que eu cante dessa forma, então vou cantar
assim’, aí não consegue executar” (Rosina, 49 anos, cantora e docente do bacharelado)
Para outra docente, nesta busca pelo reconhecimento e pela excelência, os cantores ainda lidam com o
estresse das constantes comparações entre si e os outros cantores, seja com relação as vozes ou com relação
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Braga, Leila Claudia Monteiro de Castro; Schütz, Gabriel Eduardo. 2021. ““Você é cantor, mas o que faz para viver?”:
a invisibilização social do cantor como trabalhador". Per Musi no. 41, General Topics: 1-13. e214115. DOI 10.35699/2317-6377.2021.35033
à execução musical que realizam. Nesta busca pela performance ideal muitos não estão totalmente
satisfeitos com suas vozes e com seu desempenho:
“Você não tem a barreira do instrumento físico, ela não existe pro cantor. Eu não posso
simplesmente trocar de instrumento porque o meu instrumento não tem a qualidade que
eu esperava, ou que outros esperavam que tivesse, ou o timbre que se esperava que
tivesse... eu não posso... a voz que eu tenho é essa, eu nasci com ela, eu não posso ir na
loja comprar outra.” (Tosca, 32 anos, cantora e docente do bacharelado)
A fetichização do cantor como um indivíduo dotado de um dom, de uma vocação, faria com que este fosse
visto de forma destacada de suas necessidades humanas. Ainda que desempregado o cantor continuaria
desfrutando do prestígio de seu blico (Coli 2006, 217). A noção de dom ou talento encobertaria a
complexidade do processo de trabalho do músico, levando a uma desvalorização de sua formação
profissional e, por consequência, a fragilização de suas relações de trabalho (Requião 2008, 204).
A invisibilidade do cantor como trabalhador fica evidente na fala de uma das informantes-chave que relatou
a dificuldade encontrada em ser socialmente reconhecida como trabalhadora. Percebemos também que o
ofício de docente é mais bem aceito socialmente do que o de cantor:
Essa questão (do cantor como trabalhador) é mesmo interessante. Uma vez eu fui fazer
um crediário e a vendedora me perguntou: ‘qual sua profissão?’. Respondi: ‘Cantora’. A
vendedora me olhou e disse: ‘não posso colocar isso... não vão liberar... posso colocar
professora de canto?’” (Norma, 50 anos, cantora e docente do bacharelado)
4. Considerações finais
Os relatos extraídos das entrevistas realizadas com os cantores docentes e discentes, assim como os textos
que costuram este estudo, nos fazem refletir sobre a percepção social quanto aos cantores em relação ao
mundo do trabalho, e sobre os desdobramentos da invisibilização social dos cantores como trabalhadores.
A irregularidade de horários de trabalho, a instabilidade financeira, o pouco reconhecimento profissional e
a alta competitividade foram algumas das situações relatadas pelos participantes da pesquisa em relação ao
mundo do trabalho. Tais fatores estariam diretamente relacionados à precarização e, consequentemente, à
necessidade de multiatividade profissional como forma de sobrevivência.
Concluiu-se também, que a ideia do cantor como um indivíduo dotado de um dom ou vocação é uma das
causas da invisibilização social como trabalhador e do menosprezo em relação ao investimento dedicado ao
longo da formação profissional. Da mesma maneira, a percepção de que o trabalho destes profissionais es
relacionado ao lazer, sem que seja visto como algo produtivo, faz com que não sejam reconhecidos
socialmente como trabalhadores. Esta invisibilização, para além de uma consequência puramente relacional,
gera a precarização das relações de trabalho, com consequente enfraquecimento de ações preventivas para
a saúde destes profissionais.
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Braga, Leila Claudia Monteiro de Castro; Schütz, Gabriel Eduardo. 2021. ““Você é cantor, mas o que faz para viver?”:
a invisibilização social do cantor como trabalhador". Per Musi no. 41, General Topics: 1-13. e214115. DOI 10.35699/2317-6377.2021.35033
Os desdobramentos do não-reconhecimento do status trabalhador na qualidade de vida destes profissionais
poderiam ser divididos em dois tipos de sofrimentos: (i) psicossocial (frustração, perda da autoestima,
estresse, sobrecarga de trabalho, precarização) e material (instabilidade econômica, informalidade).
As condições de trabalho dos cantores e suas consequências, bem como a compreensão de como este
profissional se articula dentro da economia do entretenimento, ainda são temas pouco explorados e que
carecem de maior aprofundamento. Espera-se que esta pesquisa venha a contribuir para o surgimento de
novos estudos relacionados ao tema e, quiçá, problematizar novas questões relativas ao cantor como
trabalhador.
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