Nas últimas décadas, o campo de estudo sobre groove e microtempo atraiu uma série de pesquisadores que
abordaram o tema sob várias perspectivas metodológicas e a partir de várias culturas musicais. Depois da
proposta seminal de Keil (1995), Benadon (2003), Friberg e Sundström (1997) e Progler (1995), dedicaram-
se a caracterizar o groove como uma questão fundamentalmente microtemporal no contexto cultural do
jazz. Estes autores utilizaram a proximidade da definição culturalmente situada do groove no jazz com as
evidências já reportadas na literatura do jazz. Outros estudos enfrentaram a questão fora do escopo do jazz,
apresentando padrões microtemporais e uma discussão do groove em culturas musicais como a música
cubana (Alén 1995; Manuel 1985; Washburne 1998), na percepção de groove em culturas de Nova Guiné
(Feld 1988), e na música norueguesa (Kvifte, 2007). A partir dos anos 2000, uma série de estudos começaram
a utilizar aportes do campo de recuperação de informação musical (MIR) e música computacional para
definir padrões de microtempo em bases de áudio musical. Esses estudos incluem bases de dados
heterogêneas de música comercial, jazz e música brasileira (Davies et al. 2012; Pressing 2002) e estudos
sobre a percepção do groove (Frühauf, Kopiez, and Platz 2013; Janata, Tomic, and Haberman 2012). Tais
abordagens são importantes, porque a detecção computacional de eventos no áudio permite mais
consistência na definição de padrões microtemporais, o que a percepção auditiva humana impede, no nível
de precisão necessário para as análises. Abordagens sistemáticas sobre padrões de groove e microtempo no
samba estão presentes nos esforços de Gerisher (2006), que abordou o samba baiano a partir de uma
detecção manual em software, e da série de estudos iniciados por Gouyon e Naveda (Gouyon 2007; Naveda
et al. 2009; Naveda et al. 2011), que abordaram a questão específica de padrões de microtempo no samba
comercial. Mais especificamente, Naveda e colegas (2011) ampliaram a investigação sobre os desvios de
microtempo incluindo padrões de dinâmica (intensidade) e estruturas métricas, ainda suportados por uma
abordagem computacional sobre excertos de canções populares de samba. Essa análise demonstra como o
samba apresenta padrões recorrentes que combinam desvios sistemáticos de posições métricas e padrões
dinâmicos (intensidade do som) repetitivos. O estudo sugere que esses padrões multidimensionais formam
características fundamentais, ainda que tácitas, dos elementos rítmicos e do groove do samba.
1.2. Bass lines, estruturação e função musical
As linhas de acompanhamento de contrabaixo são elementos da performance do instrumento relacionadas
pela literatura com a definição do groove na performance (ver, por exemplo, Monson 1999; Bolden 2013).
Definidas como linhas de acompanhamento de contrabaixo, ou mais frequentemente bass lines, elas
denotam elementos e conceitos do discurso musical pertencentes ao vasto campo de estudos da música
popular (De Toledo, 2018), onde se inserem o samba e a música brasileira. Essa ideia de performance em
música popular se retroalimenta de padrões, estruturas, recursos técnicos e elementos interculturais que se
combinam no intertexto característico das performances de música popular brasileira. Contudo, a
perspectiva analítica musical tradicional, moldada segundo as demandas de análise da música erudita
ocidental da Europa, apresenta ferramentas que normalmente falham em capturar as nuances e dinâmicas
relevantes da música popular ou de músicas de outras matrizes culturais, em especial, os elementos que
formam o groove (Caporaletti 2020, 2).
Estruturas como repetição, vínculos com culturas de movimento e dança, aberturas para jogos
improvisativos e similaridades com estruturas musicais da diáspora africana estão presentes nas bass lines
como condutores de um complexo difuso relacionado ao groove no contrabaixo. Ao mesmo tempo, essas
estruturas reafirmam o status e a função do contrabaixo dentro de um plano da análise musical tradicional