Buguinha: Só isso. Isso aí, eu não tenho dúvida. Então, assim, eu não tenho medo nenhum
de nada, muito pelo contrário. Eu quero ver o moleque, quando eu dou a Oficina aDUBada,
eu quero ver o moleque bombando! [risos].. E dizendo assim, “o meu professor foi o
Buguinha”. Pronto. A gente não é nada, mas pô, é lindo isso. Então…
Yuri: Então, isso é algo que tem que ter cada vez mais, essa galera como ele, que já sabe
como ministrar um curso, seja numa faculdade ou seja num instituto, tipo um Paço do
Frevo, um lugar que tenha muita gente interessada, e muito jovem, que está se
interessando por isso. Isso é massa, porque tira os guris de outro foco, de videogame, de
não sei quê, de aposta, de não sei o quê, e sair para a arte, pra música, e tal, e dizer “pô,
isso aí eu quero fazer!”. (Yuri Queiroga e Buguinha Dub, entrevista concedida à autora).
Esses relatos e práticas permitem afirmar que os quatro produtores analisados não apenas desempenham
funções técnicas ou executivas, mas atuam como profissionais plenos, conscientes e posicionados dentro de
um campo cultural complexo e em transformação. A produção musical, tal como exercida por eles, exige
uma conjugação e alinhamento de saberes e modos de fazer dispostas em uma lógica de projeto, mas
também de responsabilidade social, sensibilidade estética e atitudes coletivas.
A capacidade ocupacional, tal como formulada por Winch (2014), aparece aqui não apenas como um ponto
culminante de uma série de competências acumuladas, mas como um modo ampliado de engajamento com
o trabalho em si. Ela se realiza quando os produtores são capazes de ler a cena cultural, de refletir sobre o
sentido das suas escolhas e adaptá-las quando necessário, de atuar com intencionalidade ética e de
compartilhar saberes com as novas gerações, recusando o monopólio do conhecimento em nome da
cooperação, da criatividade, e da permanência de uma cultura musical viva.
Em última instância, essas habilidades — do fazer técnico à condução estratégica de projetos, da escuta
sensível à consciência crítica sobre o próprio lugar na cadeia produtiva — não se apresentam como atributos
isolados, mas como dimensões interdependentes de um saber-fazer que é também um saber-ser produtor
musical. Cada um, a seu modo, construiu a sua prática como um território de mediação entre arte, técnica,
relações e sentidos. É nesse território que se reconhece a expertise profissional plena, expressa em uma
ocupação exercida com domínio, autoria e responsabilidade social.
5. Considerações Finais: o que isso nos diz sobre nossa formação superior em
Música
Como procuramos evidenciar ao longo deste artigo, os quatro produtores pernambucanos realizam
trabalhos em diferentes segmentos, e alguns deles desenvolvem e/ou acumulam também outras funções
distintas dentro da cadeia da produção. Enquanto Yuri Queiroga e Cláudio do Nascimento atuam mais
diretamente na produção musical de artistas em fonogramas e em shows ao vivo, sendo também
instrumentistas, Diogo Felipe volta-se para a produção musical no campo da publicidade e propaganda,
executando boa parte das tarefas implicadas que vão desde a criação da ideia, execução musical, captação
e tratamento da sonoridade. Já Buguinha Dub produz - embora não exclusivamente - artistas dentro de um
segmento da cultura popular pernambucana designada como “tradicional”, mas é mais amplamente
conhecido e procurado por suas mixes “adubadas”, ou seja, pela sonoridade idiossincrática que desenvolveu
enquanto artista, baseada no Dub Jamaicano. O estudo nos permitiu a construção de mapas comparativos,