A música composta por Dinorá de Carvalho para a canção Último retrato é caracterizada por uma sonoridade
bastante escura, com uso corrente do registro super grave do piano, melodia vocal em região médio grave,
dinâmicas de pouca intensidade e uma harmonia gravitando em torno de Dó menor, com dissonâncias e
cromatismos abundantes. A peça se caracteriza por um “tonalismo aberto”, tendo Dó menor como centro
tonal, mas utilizando recursos harmônicos que fogem à harmonia tonal tradicional. Segundo Flávio Carvalho
(2001), estudioso da obra de Dinorá, esse tipo de escritura pode ser também observado em outras canções
da compositora.
A nota Dó tem papel proeminente na canção, sendo a principal nota de apoio e chegada nas frases da
melodia, aparecendo também iterada na linha do baixo no início e fim, de modo a estabelecer uma
centricidade. Outros recursos composicionais observados são: o uso de ostinatos melódicos; a variação no
uso de escalas menores sobre Dó, como a menor harmônica ou o modo frígio; a linha mais grave do piano
iterando notas importantes do campo harmônico de Dó; a criação de uma textura contrapontística imitativa;
o uso de acordes com sonoridade tonal contando com extensões ou formados pela sobreposição de
intervalos específicos; uma melodia vocal marcada pela centricidade em Dó, sobretudo no início, e pelo
cromatismo descendente no decorrer da peça.
Informações mais detalhadas sobre a peça e sua edição, tanto em sua versão de câmara (cuja partitura está
publicada a seguir) como na versão orquestral, podem ser lidas no artigo a respeito desta produção artística
que se encontra neste mesmo número da revista Per Musi.
2. Biografia das autoras
Dinorá de Carvalho (1895-1980) foi uma compositora, pianista, educadora e crítica musical com intensa
atuação sobretudo na cidade de São Paulo-SP ao longo do século XX. Foi inspetora de ensino superior no
Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, criadora e diretora da Orquestra Feminina de São Paulo,
iniciativa pioneira na América Latina. Ao longo de sua vida obteve diversos prêmios tanto como educadora,
quanto como compositora, de prestigiadas instituições como a Associação Paulista de Críticos de Arte
(APCA). Dentre sua produção musical se destacam as canções de câmara, compostas entre 1933 e 1980.
Maria Antonia é o pseudônimo de Maria Aparecida de Campos Salles Franchini-Netto (1918 ou 1919-1973).
Foi uma jornalista e escritora, autora de poemas e contos, que se dedicou a valorizar a produção feminina
no campo da literatura. Trabalhou no jornal Gazeta de São Paulo, ficando a cago da página feminina.
Promoveu concursos literários de contos e poemas para escritoras e publicou um livro de contos, chamado
As Ilhas Habitadas (Antonia 1959).
3. Referências bibliográficas
Antonia, Maria. 1959. As Ilhas Habitadas. São Paulo: Livraria São José.
Carvalho, Flávio. 2001. Canções de Dinorá de Carvalho: uma análise interpretativa. Campinas, SP: Editora da
UNICAMP.
Figueiredo, Carlos Alberto. 2014. Música sacra e religiosa brasileira dos séculos XVIII e XIX: teorias e práticas
editoriais, 2nd rev. ed. [n.p.]. http://www.musicasacrabrasileira.com.br/ebooks/Musica_sacra.pdf.
Accessed August 14, 2023.