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eISSN 2317-6377
A linha de baixo nos ritmos do sul do Brasil: proposi es
pr ticas, te ricas e suas aplica es no contrabaixo
ac stico
The ba li e i he h hm f S he B a il: ac ical a d he e ical
al a d i a lica i he d bleba
Ma he Me i a Pa ali1
matheuspasquali89@gmail.com
Leona do Pie ma i i1
1U i e idade d E ad de Sa a Ca a i a, CEART, Fl ia li , Sa a Ca a i a, B a i
ARTIGO CIENT FICO
Editor de Se o: Fe a d Chaib
Editor de Layout: Fe a d Chaib
Licen a: "CC b 4.0"
Data de submissão: 10 set 2024
Data final de aprovação: 27 out 2024
Data de publicação: 02 jan 2025
DOI: https:/ / doi.org/ 10.35699/ 2317- 6377.2025.54497
RESUMO: E e a ig e ma a li e da li ha de bai g e da mil ga e em i m imila e ,
ca ac e ic da egi l d B a il, a lica d - a c abai . C ide a- e a e a a ec ic
a a a b e de ma idade a iada, ma amb m a ec c cei al de e g e , e
dial gam c m c cei de cla e e mica adi i a. F i fei a ma a li e b e a cla e ada e e g e ,
e e a ame e a me ma e c ada em e il , ge i d ma el igem af ica a c m m.
E e m abalh i f mad ela ica, de m d a e a ici c m m ic c idad em
e f ma ce c m g Q a e C a de P , g e eciali ad e e i li , ediad em Lage -
SC. F i eali ada ma e e i a c m m ic J Gab iel R a, e amb m c m a ilh a e ce e e
ica . Ne e a ig e i cl da a c i e e a li e de ech de b a de e e e i a a c b a
a c cl e le a ada .
PALAVRAS-CHAVE: Ri m li ; R mica adi i a; M ica; C abai .
ABSTRACT: Thi a icle e a a al i f ba li e i he mil ga ge e a d imila h hm , cha ac e i ic
f he he egi f B a il, a l i g hem he c aba . N l he ac ical a ec f b ai i g a
a ia e d i c ide ed, b al he c ce al a ec behi d he e ge e , hich dial g e i h he
c ce f cla e a d addi i e h hm. A h hmic a al i a made f he claff f h e ge e , hich a e e ac l
he ame a h e f d i he le , gge i g a ible c mm Af ica igi . Thi i a k i f med b
ac ice, he e e f he a h a ici a ed a a g e m icia i e f ma ce i h he g Q a e
C a de P , a g eciali ed i he e e i e, ba ed i Lage -SC. A i e ie a ca ied i h
m icia J Gab iel R a, h al ha ed hi e ce i . Thi a icle i cl de a c i i a d a al e f
e ce f m k f m hi e e i e c b a e he c cl i ai ed.
KEYWORDS: S he h hm ; Addi i e h hmic; M ic; D bleba .
Per Musi | Belo Horizonte | v.26 | Gene al To ic |e252602 | 2025
Uma nova perspectiva sobre a nomenclatura das figuras musicais
no panorama lusófono e hispano-falante atual
A new perspective on the nomenclature of musical notes duration in the current
Lusophone and Spanish-speaking context
Ricardo Barceló1
ricardobarcelo@elach.uminho.pt
1 CEHUM, Universidade do Minho, Braga, Portugal
ARTIGO CIENTÍFICO
Editor de Seção: Fernando Chaib
Editor de Layout: Fernando Chaib
Licança: "CC by 4.0"
Data de submissão: 01 set 2025
Aprovação final de aprovação: 01 jan 2026
Data de publicação: 07 jan 2026
DOI: https://doi.org/10.35699/2317-6377.2026.61558
RESUMO: Ao observar sinais de desatualização na nomenclatura tradicional das figuras musicais em português e espanhol,
analisamos criticamente os seus nomes, que têm raízes em práticas antigas. Pretendemos, assim, propor uma terminologia mais
lógica, inspirando-nos em sistemas utilizados por países como a Alemanha e os Estados Unidos. No ensino da Música, ensina-se a
proporcionalidade matemática entre figuras partindo da figura de maior duração, mas as denominações atuais não evidenciam
essas relações internas. Esta desconexão obriga os estudantes a um maior esforço cognitivo para decifrar os valores de cada
símbolo, o que dificulta o ensino e facilita mal-entendidos. Tal situação ainda não foi suficientemente abordada nos contextos
ibérico e latino-americano.
PALAVRAS-CHAVE: Música; Figuras musicais; Terminologia; Etimologia; Denominação.
ABSTRACT: Observing signs of outdated terminology in the traditional naming of musical notes duration in Portuguese and
Spanish, we critically analyze their designations, which have deep roots in ancient practices. Our aim is to propose a more logical
system of terminology, inspired by approaches used in countries such as Germany and the United States. In music education, the
proportional relationship between note values is taught beginning with the longest note, but current names do not make these
internal relationships clear. This disconnect requires students to expend greater cognitive effort in deciphering the value of each
symbol, complicating instruction and increasing the possibility of misunderstanding. Such issues have not been sufficiently
addressed within the Iberian and Latin-American context.
KEYWORDS: Music; Notes duration; Terminology; Etymology; Naming.
Per Musi | Belo Horizonte | v.27 | General Topics | e262711 | 2026
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2
1. Introdução
Em um dos seus trabalhos académicos, a investigadora espanhola Cristina Diego Pacheco revela a posição
atual da situação da lexicologia musical. Citamos a seguir um fragmento do seu artigo (Diego Pacheco 2022),
para ajudar a perceber melhor a problemática que abordamos no presente trabalho.
Tendo em conta que é necessário recorrer inevitavelmente ao texto escrito para tentar
aproximar-nos destas realidades musicais, podemos perguntar-nos por que a musicologia
histórica (ou simplesmente a musicologia) até agora quase não se interessou pelas palavras
da música.
1
Nesse sentido, consideramos pertinente expor o nosso ponto de vista sobre a falta de adequação da
nomenclatura utilizada atualmente no ensino das figuras musicais, ou seja, dos nomes dos símbolos usados
para definir o ritmo, em português e em castelhano. Os especialistas em Formação Musical têm-se
debruçado na otimização pedagógica das matérias que devem ser ensinadas e em como as ensinar, segundo
a faixa etária e o nível de formação do aluno, incluindo a denominação dos símbolos que utilizamos
habitualmente para a indicar a duração relativa dos sons. No entanto, não tem havido aparentemente tanta
preocupação em analisar o porquê da terminologia atual para identificar às figuras musicais, nem em
perguntar-se se faz sentido continuar as ensinar da forma tradicional. No presente trabalho, pretendemos
demonstrar que a forma de chamar atualmente as figuras é um costume que se tem tornado numa espécie
de labirinto de complexidades para chegar aos conhecimentos básicos realmente práticos, e que é preciso
empreender algumas mudanças no ensino de Música.
bastante tempo que elucubramos sobre a obsolescência das nomenclaturas utilizadas no ensino inicial
das figuras musicais para definir o ritmo em português e em castelhano. Ambas as línguas apresentam
características similares neste âmbito, que é no qual temos tido as nossas principais experiências
pedagógicas. Assim, consideramos pertinente expor a nossa percepção sobre os nomes atuais desses
símbolos, aceites sem questionamentos no ensino da teoria musical.
Por outra parte, é vox populi que existe uma defasagem evidente entre o que é ensinado habitualmente na
disciplina de Formação Musical e as necessidades reais dos alunos em diferentes momentos do processo de
ensino e aprendizagem em cada um dos instrumentos musicais, como se a prática instrumental e a teoria
musical, em vez de serem duas caras da mesma moeda, fossem disciplinas independentes. Apesar de que se
tenham feito algumas tentativas para conseguir o ensino transversal e coordenado das matérias teóricas e
práticas no estudo da Música, estas, aparentemente, não deram os frutos esperados e tudo parece indicar
que é necessário desconstruir o sistema para realizar as correções pertinentes desde a raiz.
2. Breve revisão histórica
As relações matemáticas subjacentes aos símbolos conhecidos como figuras musicais são claras, evidentes
e universalmente aceites; por isso, não exigem uma discussão aprofundada. O mesmo, porém, não se pode
1
Teniendo en cuenta que se necesita irremediablemente recurrir al texto escrito para intentar acercarnos a
estas realidades musicales, podemos preguntarnos por qué la musicología histórica (o la musicología
simplemente) hasta ahora casi no se ha interesado por las palabras de la música. (Diego Pacheco 2022,
293294). Tradução da nossa autoria.
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afirmar quanto à sua nomenclatura. Por exemplo, a identificação das notas musicais no Ocidente utiliza
nomes baseados em sílabas (dó, ré, mi) ou letras (A, B, C), que não possuem sentido específico. Em
contrapartida, alguns nomes de figuras musicais apresentam significados reconhecíveis (por exemplo,
“mínima”), porém, estes podem ser interpretados de diferentes maneiras pelo receptor, o que influencia a
sua compreensão no estudo da Música.
Relativamente à duração de som, na prática atual cada figura sucessiva possui exatamente a metade do valor
da precedente e o dobro da posterior, como é sabido. Ou seja, uma semifusa possui a metade do valor da
fusa; uma colcheia vale a metade do que uma semínima, e assim por diante. Porém, no séc. XIV, isto era
verdade quando era aplicado o metro duplo (divisão em duas partes). Contudo, o antigo sistema de notação
mensural foi em princípio estabelecido exclusivamente para a medida tripla, sendo o tempo dividido em três
partes iguais, o que era conhecido como o metro "perfeito", práticas provavelmente inspiradas na doutrina
católica da santíssima Trindade. Portanto, antigamente cada nota durava uma terceira parte do que a nota
precedente na escala quantitativa (𝟏𝟑
). Nesse esquema de três partes, uma longa (1 ) era igual a três
breves (3 ). Então revelou-se necessário utilizar algum método para evitar a confusão quando era utilizado
o metro duplo, distinguindo os valores das notas nos dois metros mediante a coloração ou recheado das
figuras. Assim, no metro duplo as cabeças das notas eram escritas esvaziadas (ou em "branco") e no metro
triplo as notas eram escritas em vermelho e mais tardiamente em preto. No século XV as cabeças de notas
brancas e pretas já eram o padrão. Esta é uma prática que se conserva até hoje, tal como a relação
duplo/metade entre uma e outra figura imediata na ordem sequencial estabelecida, ao estilo do metro duplo
(sendo a tercina uma exceção à regra). Também foi nesta altura histórica quando os compositores acharam
necessário acrescentar figuras de menor valor, entre elas a semibreve e a mínima, denominações estas que
permaneceram até os dias de hoje em algumas línguas, apesar de terem desaparecido as figuras de maior
valor, a saber: máxima (dupla-longa), longa e breve. (Grier 2021).
A notação ortocrônica moderna, cujo nome provém dos termos gregos orthós (correto) e chrónos (tempo),
remonta aproximadamente ao início do século XVI. Este momento marca a passagem das figuras quadradas
sem preencher, conhecidas como “brancas”, e das quadradas preenchidas, chamadas de coloridas”, para
uma escrita musical de contornos mais arredondados. Tal evolução resulta diretamente da invenção da
impressão musical, indissociável do surgimento da tipografia. Em 1455, com o lançamento da Bíblia de
Gutenberg, inicia-se a era da impressão e, por volta de 1480, começam a ser publicadas as primeiras obras
musicais impressas, utilizando essencialmente os mesmos métodos técnicos.
A chegada da impressão musical teve um efeito profundo no percurso evolutivo da notação, funcionando
como um travão à velocidade das suas mudanças. Tal como aconteceu com o aparecimento e posterior
uniformização dos tipos de letra na imprensa, também os símbolos musicais, como notas, claves e
alterações, começaram a ganhar maior estabilidade a partir do momento em que a produção manuscrita foi
substituída pela impressão em série. Este fenómeno pode ser visto de diferentes ângulos, porque se, por um
lado, trouxe benefícios evidentes, por outro, levanta dúvidas quanto à ideia de progresso na notação
musical. Não se pode afirmar, de forma taxativa, que a notação desenvolvida nos séculos XVI e XVII
corresponda ao auge do seu potencial, nem que o processo histórico tenha esgotado as possibilidades de
melhoria dentro da tradição notacional. Pelo contrário, a fixação proporcionada pela técnica de impressão
contribuiu para consolidar certos modelos e abriu caminho para a padronização necessária ao ensino e à
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difusão da música, mas sem eliminar a margem para futuros aperfeiçoamentos desta escrita especializada.
(Eisenstein 1979; White 2023).
Não queremos estender-nos sobre as práticas habituais na notação musical atual em geral, mas
consideramos que a nomenclatura utilizada no ensino das figuras é perfectível. De facto, os pedagogos
especialistas em Formação Musical têm-se preocupado, e com razão, em otimizar as matérias que devem
ser ensinadas e em como as transmitir. No entanto, não tem havido tanta preocupação em analisar o porquê
da terminologia usada atualmente para identificar às figuras musicais, apesar de essa prática mostrar sinais
de obsolescência, do nosso ponto de vista. Aliás, vemos em tal facto um obstáculo para a aprendizagem,
porque a forma em como chamamos comumente as figuras rítmicas e a falta de ligação direta dos seus
nomes com as suas relações proporcionais, pode retirar clareza e linearidade ao pensamento dos estudantes
nas aulas de teoria musical, como explicaremos a seguir.
Focaremos concretamente as denominações utilizadas vulgarmente para identificar algumas figuras
musicais, tal como o valor semântico dos seus nomes, em Espanha e Portugal, países que temos escolhido
principalmente pelo facto de serem nações cultural e geograficamente próximas, que partilham realidades
nas quais estamos inseridos, mas também nos países onde se falam o espanhol ou o português.
3. Terminologia e etimologia dos nomes das figuras musicais
De acordo com o autor suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913), a língua, compreendida como um conjunto
de signos que serve a uma comunidade linguística, é adquirida como herança social. Consequentemente, as
ligações ao passado tendem a ser mais robustas do que a inovação. No entanto, isso não impede a ocorrência
de certas mudanças. O estudo que realiza Saussure na sua obra Curso de Linguística Geral (Saussure 1970)
contempla duas perspectivas: uma sincrónica e outra diacrónica, ou histórica. A abordagem sincrónica
analisa a língua a partir de uma visão estática, realizando um corte temporal para determinar as normas que
naquele momento específico estruturavam a língua aceite pela comunidade linguística. Por outro lado, a
abordagem diacrónica examina a evolução da língua ao longo do tempo, investigando como os signos das
palavras se modificam, surgem outros novos e alguns se tornam arcaicos. Justamente, o que pretendemos
demonstrar neste trabalho é que existe uma certa inércia, uma resistência a alteração, apesar de alguns
termos ligados à métrica musical revelarem uma inadequação, ou anacronismo, às necessidades de
comunicação contemporâneas. Assim, passaremos a analisar a seguir alguns termos específicos.
A figura musical que simboliza a maior duração de som é um signo chamado atualmente de SEMIBREVE, em
português, sendo uma herança linguística do latim, e de REDONDA, em espanhol, um nome que muito
provavelmente deriva da sua forma e por influência da sua denominação em francês (ronde), considerando
o forte peso da cultura francesa na sociedade espanhola, do ponto de vista histórico.
3.1 As figuras musicais em língua portuguesa
Quando observamos em particular o termo português “SEMIBREVE” (do latim SEMIBREVIS), é fácil perceber
que este está constituído pelo prefixo SEMI, que significa meio ou metade, e a palavra BREVE, que se define
como ato ou fenómeno de curta duração, noutras palavras, algo que permanece pouco tempo. É lógico e
evidente, que a denominação da figura que hoje conhecemos como SEMIBREVE teve a sua origem noutra
figura em desuso de maior duração, a BREVE. Conseguintemente, SEMIBREVE, em sentido etimológico, viria
a representar a metade de algo que já não existe no código que usamos atualmente. Continuando com este
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raciocínio, e sem saber muito da história da música, é possível deduzir que se havia uma figura de breve
duração, devia existir também uma de longa duração; e, de facto, existia: a LONGA.
Esta sucinta análise revela um problema para a sua cabal compreensão: quando uma ação é breve sabemos
que é de curta duração, mas, se esta for semi-breve, será mais curta ou menos curta? Assim fica patente
unos dos aspetos da ambiguidade do significado do termo, que por si vem a complicar mais o assunto que
tratamos.
Na realidade, historicamente a figura de maior valor foi, em algum momento, a MÁXIMA, cujo nome
expressava sem lugar a dúvidas a sua qualidade de figura de máxima duração. Como poderemos apreciar na
figura 2, mais abaixo, durante os processos históricos foram deslocados os valores das figuras de maior valor,
sendo-lhes atribuídos o nome de outras que tinham menor duração, perdendo-se consequentemente a
razão original da sua denominação. Por conseguinte, a relação entre as durações das figuras e os seus nomes
atuais poderá provocar perplexidade entre alguns estudantes.
Nesse sentido, fazia mais sentido a figura de maior valor usada atualmente não se chamar SEMIBREVE, mas
MÁXIMA, cujo significado seria compreendido de imediato. Máximo é um adjetivo ou substantivo com
origem no termo em latim maximus que significa algo maior ou acima de todos. Também pode expressar
um limite extremo de alguma coisa. Algo similar acontece com a figura que hoje chamamos de MÍNIMA, que
deveria estar no outro extremo. O espectável é que esta fosse a figura de menor duração, como deve ter
sido no passado, embora já não seja assim. Apesar de que, por definição, MÍNIMA, é a fração de menor
tamanho de algo, ainda temos uma figura que se chama SEMÍNIMA (uma simplificação de SEMIMÍNIMA),
que dura a metade do que a MÍNIMA, o que escapa as regras da lógica.
A partir da colcheia [corchea em espanhol] (fig. 1) o problema da denominação desaparece, porque este
símbolo tem um nome comum quer em português, quer em castelhano, que o evoca uma determinada
duração de som, nem a formas ou cores. O termo “colcheia” identifica uma figura musical que representa a
duração da oitava parte de uma semibreve, mas esse nome não fornece nenhuma informação direta sobre
tal facto. Com os nomes das figuras de menor duração do que a colcheia acontece algo similar.
Figura 1 Colcheias e nomes das suas partes: barra, haste, cabeça e colchete
Em certo momento histórico, os nomes das figuras em latim possuíam a tipologia lexicológica de
substantivos que hoje seriam identificáveis como metrónimos
2
musicais; pelo contrário, na denominação
portuguesa estes símbolos musicais são, de facto, pseudo-metrónimos (fig. 3), porque não fazem referência
verdadeira a uma série ordenada matematicamente que utiliza nomes próprios ou comuns dados às figuras
para aludir a certas durações, embora o pareça. Este é um dos pontos mais importantes para a nossa
exposição.
2
O neologismo metrónimo, de metro: medida e nimo: nome, é um termo composto que indica a
denominação de uma determinada medida.
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A seguir, na fig. 2, deslocamos virtualmente as figuras modernas de forma que não coincidam com as
denominações que persistem na atualidade, mas com as das figuras antigas de maior duração, tornando
mais inteligível o seu valor proporcional na escala de durações relativas.
MAXIMA LONGA BREVE SEMIBREVE MÍNIMA SEMIMÍNIMA
Figura 2. Deslocação imaginária das figuras modernas para a esquerda, adotando os nomes de figuras antigas de maior duração
Figura 3. Denominação das figuras musicais em português com pseudo-metrónimos (nomes com falsa aparência de medidas certas)
Com certeza, o que foi explicitado anteriormente será evidente para alguns leitores, mas não é uma
obviedade que torne banal a discussão deste assunto. Na realidade, o que é estranho é que as coisas tenham
ficado deste modo, e que ainda não tenha havido reação dos pedagogos para que o ensino das figuras
musicais nos ambientes lusófono e hispanófono seja otimizado. A causa pode radicar parcialmente na “falta
de recursos lexicográficos práticos neste âmbito e o trato marginal que dita terminologia recebe nos estudos
de línguas
3
. Mas, outra parte da responsabilidade poderia ser da imprensa, que fossilizou, através de uma
infinidade de publicações uma terminologia que devia ter ficado obsoleta. Se bem, alguns profissionais do
ensino de Música podem ter achado que este não era um assunto pertinente a tratar, outros devem ter tido
receios de introduzir alterações em práticas tão vincadas, por causa da resistência à mudança; no entanto,
estas são questões alheias à eficiência e a qualidade do ensino e da aprendizagem, e é possível que tal
imobilismo se mantenha primordialmente por razões pragmáticas. Evidentemente, é mais confortável o
continuísmo, do que empreender uma reforma profunda e séria; aliás, a história tem demonstrado que
sugerir mudanças para superar práticas pedagógicas conservadoras pode provocar emoções negativas e
conflitos entre colegas. No entanto, o objetivo de tais alterações apenas deveria ser tornar mais eficiente e
eficaz o sistema de ensino-aprendizagem.
3.2 As figuras musicais em língua castelhana
Os critérios para denominar as figuras de maior valor em língua castelhana, a saber, redonda, blanca e negra
(fig. 4), são diferentes do que em português. Os seus nomes não têm origem em antigas durações relativas,
mas na forma da sua cabeça, como no caso da redonda, ou na sua cor, branca ou preta. Desta forma, a
3
falta de recursos lexicográficos prácticos en este ámbito; el trato marginal que dicha terminología recibe
en los estudios de idiomas” (Alonso García 2016).
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designação das figuras em castelhano baseia-se na sua identidade visual, sob dois critérios diferentes:
morfológico (cabeça arredondada) e cromático (cabeça branca ou preta). Por conseguinte, os termos que
identificam as figuras musicais em espanhol não oferecem informação ligada com a duração relativa de som
que elas simbolizam.
Figura 4. Designação das figuras musicais em castelhano
Estas denominações são perfeitamente equivalentes a ronde, blanche e noire, em francês (fig. 5), o que se
explica pela forte influência da igreja francesa e das suas manifestações musicais na sociedade espanhola
desde a Idade Média. Portanto, a designação francesa das figuras musicais apresenta características
similares a que é usada em castelhano.
Figura 5. Comparação dos nomes das figuras em castelhano e em francês
Apesar do seu nome, a figura REDONDA, tem forma oval e não circular, na realidade. Embora pareça trivial,
isto pode ter um efeito psicológico e levar inconscientemente aos estudantes a desenhar a REDONDA em
forma de letra O. Ainda, esta é também de cor branca
4
, como a cabeça da figura que se chama BLANCA, e
cuja única diferença com a REDONDA é a de ter uma haste associada (ou seja, uma linha chamada plica em
castelhano), o que pode alimentar a confusão.
Em consequência, em espanhol, o professor terá o trabalho de explicar que a figura se chama redonda, mas
que, na realidade, não é propriamente redonda pois se desenha como um óvalo branco, mas que a blanca,
também é branca, como a redonda. Embora muitas crianças de curta idade tenham a capacidade de
descodificar essa informação, que parece um jogo de palavras, elas são obrigadas a dar mais um passo no
pensamento para processar e assimilar estes conhecimentos sem utilidade prática.
Já a NEGRA (semínima) não apresenta maiores problemas nesse sentido, especialmente no caso de se usar
uma caneta preta para preencher a cabeça da figura, salvo pelo facto de este nome não revelar informação
sobre a posição de tal figura na escala de durações relativas a partir da figura de máximo valor, como dizemos
anteriormente.
Concluindo, em espanhol, as figuras musicais referidas foram nomeadas obedecendo critérios como a sua
forma ou coloração, a diferença do que em português, cujos nomes sugerem falsa correspondência com as
suas proporções. Assim, a denominação das figuras em castelhano fornece apenas dados sobre
4
Porque a sua cabeça não está preenchida e no caso de o papel usado para escrita ser desta cor.
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características morfológicas e cromáticas, o que não favorece a assimilação imediata da informação útil para
o fim, pelo facto de não haver um padrão bem definido que revele as relações matemáticas subjacentes
entre as figuras.
3.3 Outras situações relacionadas
A problemática que acabamos de apresentar também se pode encontrar na lexicologia musical de outros
países europeus. Por exemplo, MINIM, que é o nome da figura mínima em inglês do Reino Unido e de
algumas regiões do Canadá, procede etimologicamente do termo mínima, que identificava à respetiva figura
usada na notação mensural, que em latim significa “a menor” porque naquela época esta figura era a mais
curta de todas as figuras musicais conhecida. Mas, de forma contrastante, em inglês dos Estados Unidos,
esta figura é conhecida como half [note], que significa metade, o que é uma imitação semântica da expressão
alemã halbe Note, que pode ser traduzida como “meia nota” (em relação à figura inteira, ou seja, a
semibreve). Isto, eventualmente, poderia radicar no facto de que as primeiras orquestras estabelecidas nos
EUA durante o século XIX tenham incluído um bom número de músicos provenientes da Alemania (Albo
2014), alguns dos quais também se teriam dedicado ao ensino de Música.
Da mesma forma, vemos que no inglês britânico e no inglês americano são usadas diferentes terminologias
para nomear as figuras, o que tem consequências na inteligibilidade do sistema, tendo em conta o que foi
exposto anteriormente. Curiosamente, em francês é usado um sistema que poderíamos de definir como
misto, relativamente às figuras e as suas pausas correspondentes, visto que embora a semibreve seja
chamada de ronde nessa língua, a pausa de duração máxima, é denominada simplesmente de pause, e a
pausa de mínima, de demi-pause, ou seja, média-pausa. Portanto, a duração de silêncio correspondente à
metade da duração da semibreve, indicada em francês com o termo demi-pause, revela claramente um valor
proporcional. Daí, é possível concluir que o nome demi-pause é um autêntico metrónimo, pois fornece
informação direta sobre a sua relação proporcional com a figura de maior valor, a unidade a dividir: o 1.
Por outra parte, temos constatado que em países como Áustria e Alemanha, nos quais a língua veicular é o
alemão, e nos Estados Unidos, entre outras nações, tem-se adotado em geral um sistema de ensino das
figuras musicais que assume as proporções matemáticas convencionais entre as mesmas como critério de
base para a sua denominação, como explicitado na tabela a seguir, segundo a prática habitual nos EUA.
Somos conscientes de que estas proporções matemáticas são ultraconhecidas por qualquer músico com
uma incipiente formação teórica, mas ainda continuamos a ouvir verdades parciais sacralizadas que induzem
ao erro, tais como que genericamente uma SEMIBREVE vale 4 tempos, ou pior, 4 unidades de tempo, o que
vem a trazer mais fôlego à confusão
5
. Portanto, uma afirmação, que só é válida em determinadas situações,
é canonizada e choca frontalmente com as bases da notação e da nomenclatura do nosso sistema rítmico
atual, que se apoia na unidade irrefutável da SEMIBREVE como figura de duração máxima (exceto em certas
obras recentes), à qual é atribuída por uma convenção com aceitação internacional o valor de 1, por tal facto,
e é representada igualmente na parte inferior dos indicadores de compasso com o número 1.
5
Especialmente quando não são definidos adequadamente termos e expressões como “tempo”, “unidade
de tempo”, nem de forma adequada as funções dos indicadores de compasso.
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Tabela 1 Tabela comparativa das denominações das figuras em inglês americano, castelhano e português.
SÍMBOLO
DA FIGURA
VALOR
ASSIGNADO
NOME EM INGLÊS, QUE INDICA DIRETAMENTE A
PROPORÇÃO EM RELAÇÃO À FIGURA DE DURAÇÃO
MÁXIMA
NOME EM
CASTELHANO
NOME EM
PORTUGUÊS
1
Whole
INTEIRA (figura de valor máximo no uso comum)
Redonda
Semibreve
1/2
Half
MEIO, ou metade (em relação à Inteira)
Blanca
Mínima
1/4
Quarter
QUARTO, ou quarta parte (em relação à Inteira)
Negra
Semínima
1/8
Eighth
OITAVO ou oitava parte (em relação à Inteira)
Corchea
Colcheia
1/16
Sixteenth
DÉCIMOSEXTO, dezasseis avo, ou decimo sexta parte
(em relação à Inteira)
Semicorchea
Semicolcheia
1/32
Thirty-second
TRIGÉSIMOSEGUNDO, trinta e dois avo, ou trigésima
segunda parte (em relação à Inteira)
Fusa
Fusa
1/64
Sixty-fourth
SEXAGÉSIMOQUARTO, sessenta e quatro avo, ou
sexagésima quarta parte (em relação à Inteira)
Semifusa
Semifusa
Por outra parte, é muito interessante e significativo notar que em inglês não existe uma palavra como
“figura” que identifique genericamente os signos que simbolizam as durações relativas dos sons na escrita
musical (p.e. semínima, ou colcheia), como sim acontece em português e em castelhano. Nestes idiomas é
utilizado o termo “figura”, mas em inglês apenas se fala de duration, que transmite a ideia certa sem
rodeios.
Se bem a prática de definir as diferentes durações relativas das notas mediante grafias e nomes específicos
também existe em inglês, a noção de figura musical não tem equivalência exata nessa língua. De facto, em
inglês americano só é possível referir-se às durações proporcionais das notas (ou seja, de determinados sons
ou frequências sonoras), através de expressões traduzíveis para português tais como nota inteira (whole
note: semibreve), media nota (half note: mínima), etc., por exemplo. Assim, em inglês, os símbolos de
duração de som se associam diretamente ao termo “nota” (note), portanto, o vocábulo que identifica uma
determinada duração não se torna permanentemente num substantivo desligado da altura sonora, baseado
numa abstração, como em português e em castelhano. Ou seja, para referir-se em inglês ao conceito de
“figura”, será necessário dizer duration(duração), que obviamente é ilustrativo, facilitando a compreensão
imediata da expressão e do seu significado objetivo, visto que o lema “figura”, que, em princípio, devia
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associar-se a uma grafia musical característica, tem múltiplas acepções que podem criar mal-entendidos na
aprendizagem inicial.
Resumindo: o conceito de “figura” musical aparece como um valor independente da nota no âmbito
lusófono e hispano-falante. Tal tendência poderia ter derivado do uso de certos tipos de tablatura, como
forma de notação destinada à música instrumental, amplamente disseminada no período renascentista. Por
exemplo, nas tablaturas para viola de mão (vihuela) as figuras aparecem separadas graficamente das linhas
que representam as cordas e dos signos que assinalam o lugar da escala do instrumento (normalmente
números arábigos ou letras latinas), acima das mesmas e sem contato direto com as cifras ou letras inseridas
nas linhas da tablatura. Essa ideia parece ter ficado latente a través dos séculos, persistindo ainda no ensino
de música. Consequentemente, quando os alunos aprendem cedo o conceito de figura como uma entidade
independente da nota, conseguir depois a justaposição ou fusão mental do binómio nota/duração poderá
lhes exigir um maior esforço. Isto é especialmente evidente no caso dos intérpretes de instrumentos que
não conseguem manter um fluxo constante de som, mediante um arco, o ar, ou sistemas electrónicos, tais
como a percussão, os instrumentos de corda beliscada e os de corda friccionada atacados em pizzicato, pelo
facto de terem de imaginar uma duração de som fictícia, fazendo de conta de que o som está presente
quando, de facto, este tem desaparecido fisicamente. Aqui está um dos pontos importantes da
interpretação por parte do músico para atingir um resultado musical funcional e que esta não seja apenas
um simples processo de decifragem, que uma figura não representa precisamente a o tempo que
permanece audível uma nota, mas a duração virtual escrita de um som. Dito de outra forma, as figuras
indicam o tempo relativo que decorre entre o ataque de uma e outra nota, mas se deveria ter em conta o
tipo de ataque e decaimento do som nos instrumentos mencionados, pois estes não reagem como alguns
teclados electrónicos, que podem produzir e manter o som real praticamente durante todo o tempo
figurado. Assim, o conhecimento de certos conceitos fundamentais da Acústica é importante do ponto de
prático e não só do teórico, para os músicos.
4. Proposta para implementar uma nova nomenclatura das figuras musicais
Aqui está o cerne do presente artigo: queremos propor aqui uma maneira de denominar as figuras musicais
6
similar à usada em línguas como o inglês americano, o neerlandês, o russo, o sueco e o alemão, adotando
um nome que aluda diretamente à duração relativa de tempo de cada uma delas, derivado da sua proporção
em relação à figura de máximo valor, ou seja, a Inteira ou Unidade ( ), chamada de 1 (Um). A continuação
apresentamos uma tabela com a nomenclatura proposta, seguindo tal raciocínio (Tabela 2).
É espectável que o simples facto de utilizar apenas os nomes dos números cardinais para dar nome às figuras
musicais, empregues como substantivos, venha a facilitar o entendimento das proporções entre as figuras,
que o número utilizado atualmente na parte de baixo do indicador de compasso coincide, justamente,
com esta denominação. Todavia, a vantagem de usar os nomes destes números no ensino poderá se verificar
principalmente no momento de os estudantes aprenderem os indicadores de compasso, onde acreditamos
que os benefícios pedagógicos da terminologia proposta serão muito evidentes.
6
Ou será melhor dizer aos símbolos que indicam as durações relativas dos sons?
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Tabela 2. Tabela com a nova denominação detalhada das figuras
SÍMBOLO
DA FIGURA
VALOR RELATIVO
EXPRESSADO EM FRAÇÕES
NÚMERO
IDENTIFICATIVO
NOME PROPOSTO
PARA A FIGURA EM
CASTELHANO
NOME PROPOSTO
PARA A FIGURA EM
PORTUGUÊS
𝟏𝟏
1
Uno
Um
𝟏𝟐
2
Dos
Dois
𝟏𝟒
4
Cuatro
Quatro
𝟏𝟖
8
Ocho
Oito
𝟏𝟏𝟔
16
Dieciséis
Dezasseis
𝟏𝟑𝟐
32
Treinta y dos
Trinta e dois
𝟏𝟔𝟒
64
Sesenta y cuatro
Sessenta e quatro
Os professores devem explicar, normalmente, que os dois dígitos naturais colocados no início de uma
partitura, um acima do outro, servem para indicar o tipo de compasso, mas que não representam um
número fracionário (especialmente para alunos por volta dos 9 ou 10 anos, idade na que habitualmente
adquirem este conhecimento). Mas, não é estranho os professores que ensinam esta matéria se
expressarem da seguinte forma: “O mero em cima indica a quantidade e o número abaixo define a
qualidade” (o inclusive, numerador e denominador, como nas frações, o que provoca equívocos). Parece
bastante claro que esta linguagem, não obstante ser correta do ponto de vista gramatical, não é muito
adequada para as idades típicas dos alunos que aprendem esta matéria. Os alunos normalmente repetem
as frases que ouvem dizer ao professor, mas dificilmente compreendem o verdadeiro significado do
enunciado que estão a repetir; isto significa que o investimento de ambas as partes foi tempo perdido, se
lembramos qual deveria ser verdadeira finalidade da aula.
Assim, no indicador de compasso o 2 em cima significa que o compasso se divide em duas partes (binário);
o número 4 em baixo, indica, por convenção, que cada una dessas partes deve durar uma semínima (a figura
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que aqui marca o batimento). Por conseguinte, em todo o compasso cabem duas semínimas ou um número
de figuras com um valor equivalente, com duas pulsações em cada compasso. Mas é sumamente importante
que os estudantes de música tenham presente desde o início da sua formação que um compasso não é uma
divisão aritmética; não é uma fração, e que também não é uma multiplicação (fig.6). E a nossa proposta está
ligada com este assunto.
NÃO 2 4| NÃO 𝟐
𝟒 | NÃO 2 x 4
Figura 6. O que não significa um indicador de compasso
Na realidade, o indicador de compasso de é apenas uma forma de expressar que o compasso tem uma
duração total de duas quartas partes de , e duas pulsações ou batimentos. No qual o número 4, que
representa a fração de um quarto de semibreve, equivale à figura .
Considerando que por norma é utilizado o número 4 para representar à semínima, seria mais prático e
coerente chamar a esta figura simplesmente de QUATRO em português, como um substantivo masculino, e,
de forma equivalente, CUATRO em espanhol, significando o número de partes em que é dividido o tempo
da figura máxima: UM, em cada figura menor.
Agora vejamos como funcionaria na prática o uso da terminologia proposta, baseada em simples números
cardinais, o que evita a ligação involuntária aos números fracionários (quatro, em vez de quarto; oito em
vez de oitavo. Etc.). E a exposição desta questão poderia ser mais o menos a seguinte.
Esta figura é 1 QUATRO:
Assim, um compasso de 2 tem 2 QUATROS (2 ), ou 4 OITOS (4 ), etc.
4
Como podemos ver, com esta explicação foram eliminadas algumas interferências desnecessárias na
transmissão da informação e fica totalmente transparente que um compasso de tem seis OITOS, ou seja:
Figura 7. Seis OITOS, com o número oito funcionando como um substantivo
Portanto, o DOIS, o QUATRO e o OITO, não são então nomes de números cardinais, mas os nomes das
respetivas figuras, que evocam às proporções matemáticas correspondentes. Embora estes não sejam
efetivamente metrónimos, são substantivos adequados para comunicar com clareza a ideia que
pretendemos, e para entender rapidamente o funcionamento dos indicadores de compasso nas partituras.
A experiência de ensino musical em vários países com línguas diferentes do espanhol e o português,
avalizaria esta forma de ensinar as figuras, com uma base teórica similar, que radica na identificação das
figuras musicais diretamente com numerais fracionários que surgem da proporção específica de cada uma
delas em relação à figura de máxima duração, cujo nome será, consequentemente UM (1). Com a aplicação
do sistema que propomos, é espectável que alguns mal-entendidos e contradições no discurso para explanar
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o funcionamento do sistema fossem liminarmente evitados, assim como as interferências na transmissão
das ideias relativas à escrita do ritmo através das grafias musicais convencionais.
Temos de tomar como certo o facto que, no sistema atual, os números indicadores de compasso mostram a
informação correta, indicando as figuras que definirão a pulsação (número em baixo) tanto como o número
delas em cada compasso (número em cima). Contudo, quando esta informação se transmite escrita ou
oralmente é tornada mais complexa, ou, no pior dos casos, deturpada, dando por vezes a sensação de que
os indicadores de compasso têm pouca relação com o funcionamento do sistema de figuras. Desse modo,
vemos que muitas vezes se diz que a figura representada na parte inferior do indicador de compasso
corresponde à “unidade de tempo”, pressupondo-se, erradamente, que o conceito de tempo é claro e
universalmente compreendido, quando na realidade isso nem sempre acontece. Frequentemente, falta uma
explicação detalhada sobre o que significa exatamente 1 tempo, pois isto é tratado como um saber
adquirido, embora nem sempre o seja. Este conceito não é difícil de perceber, mas tem de ser perfeitamente
compreendido, para que não haja dúvidas desde a base do conhecimento durante a formação musical. Uma
definição possível de “tempo”, em Música, é que este é a duração entre uma e outra pulsação ou batimento.
Porém, devemos também ter presente que o termo “tempoé polissémico, pois mesmo em Música também
se refere ao andamento ou as velocidades de uma obra musical, normalmente medidas em batimentos por
minuto (BPM). Portanto, as explicações devem ser muito claras nestes pontos, para evitar a confusão.
Todavia, ouvimos em aulas e tutoriais de internet, por exemplo, que a semibreve vale 4 tempos, como se
isto fosse um absoluto e todos tivessem claríssimo o que é um tempo, e se fala de uma “unidade de tempo”
que se confunde com a figura de valor máximo que é a unidade a ser dividida, identificada com o número
inteiro 1. Esta ideia frequentemente se explica recorrendo à metáfora da tarte ou da pizza como unidade ou
totalidade, representada por um círculo completo que se corta em porções regulares para dar lugar às
respetivas subdivisões.
Para dar um exemplo, vejamos o seguinte indicador de compasso.
3
1
Figura 8. Compasso de três UNS. Representando o um (1) a figura de máximo valor
Este indicador significa, indubitavelmente, que três unidades por compasso, e que cada uma delas vale
um tempo, o que quer dizer que o UM, neste compasso dura uma pulsação, ou que em cada batimento ou
pulsação começa um novo UM.
Dessa forma, a explicação da relação entre os valores das figuras musicais e os indicadores musicais torna-
se mais clara, sem distrações desnecessárias. Compreender como as figuras estão diretamente associadas
aos números e como refletem as proporções de duração e tempo consolida a base teórica e nos permite
avançar em direção a um ensino musical mais preciso e inequívoco. Assim, se alguém afirmar que uma
semibreve vale, a partida, 4 tempos, no compasso referido acima teríamos 3 x 4 tempos = 12 tempos no
total em cada compasso, o que é falso. Por ignorância, ou com a desculpa de que assim é melhor para ensinar
às crianças, se transmite uma quantidade de informação acessória; apenas para memorizar, o que é
evidentemente antipedagógico.
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4.1 Mal-entendidos comuns
No quadro que vemos a seguir, extraído de um artigo do Brazilian Journal of Development, do ano 2021,
intitulado A Utilização dos Símbolos Musicais para o Ensino de Matemática, vemos como rios
pesquisadores, não músicos, de diferentes áreas científicas, levam a cabo uma investigação a partir de uma
premissa errada, que obviamente deriva de mal-entendidos muito comuns. Em primeiro lugar, o título do
quadro alude às notas musicais, que, por definição, são sons de diferentes frequências, mas, na realidade,
pretende referir-se às durações dos sons representados por figuras musicais, identificadas por sus nomes
habituais, sem sabermos qual a importância de dizer que o compasso é “simples”, no mesmo título.
Figura 9. Imagem extraída do artigo A Utilização dos Símbolos Musicais para o Ensino de Matemática (Brazilian Journal of Development 2021
Neste caso, a figura máxima é a semibreve, identificada metaforicamente com uma pizza virtual como
unidade, à que dão inconsistentemente a duração absoluta de 4, desligada da proporção de 1. Assim,
segundo este quadro, é a semínima que tem o valor de 1, semeando a confusão.
Para esclarecer: se hipoteticamente se assumir que a semibreve tem uma duração de 4” [terceira cela
superior do quadro], e que a semibreve vale 4 semínimas, como se extrai da igualdade estabelecida na última
cela superior do quadro apresentada, se deduz que a semínima vale 1, e não um quarto! Porque para os
autores a “pizza” é a unidade (1), mas esta tem uma duração de 4 (4/4=1). Esta é uma clara evidência da
confusão atual neste terreno, ignorando a relatividade do valor das figuras. Na realidade, a cela da duração
está a mais, bastava com a retirar para que a informação que se pode extrair faça sentido, ficando logo
patente que a unidade é a pizza inteira, ou seja, a semibreve, com o valor de 1 (um), do qual se deduz que a
semínima tem ¼ parte desta duração.
Deixando de lado a observação anterior, continuamos dando alguns exemplos como parte da nossa
explicitação. Analisando o seguinte indicador de compasso.
Figura 10. Indicador de compasso de três dezasseis
Poderíamos dizer que nele entram três dezesseis ( ), ou figuras de duração equivalente, e que cada um
dos dezesseis indica uma pulsação. Habitualmente os professores ensinam que este é um compasso
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ternário, cuja unidade de tempo é uma semicolcheia, e que contém, portanto, 3 semicolcheias, o que torna
a explicação difícil de entender para as crianças.
Do ponto de vista musical, seria muito mais útil e interessante, ensinar qual a importância que estes
conhecimentos têm para a expressão musical em geral, e que efeitos têm na acentuação das notas, por
exemplo. Provavelmente, seria mais valioso, do ponto de vista artístico musical, usar estes dados para ajudar
aos estudantes a perceberem como os diversos tipos de compasso podem ter influência na dinâmica, na
agógica, na articulação e no fraseado de uma obra musical, sendo estes elementos normalmente menos
condicionados quanto menor for o número inferior dos indicadores de compasso nas partituras.
Em relação às pausas, no âmbito da nossa proposta as suas denominações serão equivalentes as usadas para
as figuras musicais, ou seja, pausa de 1, pausa de 2, pausa de 4, etc.
5. Disseminação da proposta: desafios e oportunidades
É de destacar que, apesar de que as alterações sugeridas possam ser interpretadas erroneamente por
algumas pessoas como uma espécie de ataque ao status quo, a indústria de publicações pedagógicas
musicais poderia ver esta proposta não só como uma potencial forma de melhorar o ensino da formação
musical em português e em castelhano, mas tamm como uma refrescante oportunidade de renovação da
literatura específica, que poderá ser estimulante tanto para professores de Música que assumam o novo
sistema, como para as editoras especializadas em pedagogia musical.
Seria necessário validar o resultado prático da aplicação dos conceitos propostos, através de uma
investigação experimental ou quase-experimental, realizada preferencialmente por professores de
Formação Musical. Estes poderiam trabalhar com dois grupos de estudantes de diversas idades que não
tenham tido previamente aulas de música, ou pelo menos que não tenham estudado teoria musical, e com
um grupo de controlo equivalente, ensinado da forma tradicional. Um destes grupos seria constituído por
alunos do 1º ciclo do ensino básico (até os 9 anos), normalmente sem conhecimento das frações
matemáticas, e o outro por alunos do ciclo do ensino básico, que dominem o uso das frações. Para
garantir o êxito desta intervenção, é essencial estabelecer um plano adequado que oriente os trabalhos de
forma homogénea. O período previsto para a execução desta etapa é, inicialmente, de até um mês, com o
objetivo de minimizar o risco de desistências e evitar a influência de fatores externos que possam
comprometer os resultados do estudo. Assim, reforçamos o nosso apelo à realização desta investigação,
salientando que a participação dos professores exige uma preparação sólida, fundamental para que a
transmissão da nova terminologia musical decorra sem dificuldades, assegurando clareza e eficácia em todo
o processo de ensino. A partir da análise dos dados obtidos, será possível estudar a possibilidade real de
implementação consistente deste novo sistema. Consideramos, que caso o estudo arroje resultados
positivos, a melhor via de divulgação e implementação desta nova prática pedagógica seria através de
instituições e órgãos do governo responsáveis pelos programas de Educação Musical.
6. Considerações finais
Resumindo, a nossa proposta é simples: substituir os nomes atuais das figuras musicais, em castelhano e em
português, pelos nomes dos números cardinais que representam as figuras, usando-os como substantivos.
Estes números definem as partes em que deve ser dividida a figura de máximo valor -1-, para obter a duração
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precisa de cada uma das restantes figuras menores, ou seja, 2, 4, 8, 16, 32 e 64. A análise evidencia que o
sistema tradicional de nomeação das figuras musicais incorpora elementos semióticos redundantes. Quando
o número inferior do indicador de compasso é 4, a prática convencional estabelece a cadeia de equivalências:
4 = semínima [negra] =
Contudo, o termo lexical intermediário não acrescenta informação estrutural ao sistema, e a sua eliminação
revela que a relação funcional entre o número cardinal e o valor relativo da figura é suficiente para a sua
identificação: 4 = , ou seja, quatro [cuatro] =
Esta observação demonstra que a nomenclatura histórica “semínima”, negra e outras designações
herdadas opera como um rótulo não-necessário dentro do modelo representacional. A designação
numérica, por si só, já codifica a proporção de subdivisão da unidade de referência (1), cumprindo
integralmente a função distintiva do signo. A adoção de uma nomenclatura estritamente numérica introduz
maior isomorfismo entre o símbolo e a sua função métrica, reduz a carga terminológica e aumenta a
transparência do sistema. Além disso, permite a extensão do princípio a todas as figuras musicais,
promovendo coerência interna, simplificação cognitiva e modernização dos processos de ensino.
7. Referências bibliográficas
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