afirmar quanto à sua nomenclatura. Por exemplo, a identificação das notas musicais no Ocidente utiliza
nomes baseados em sílabas (dó, ré, mi) ou letras (A, B, C), que não possuem sentido específico. Em
contrapartida, alguns nomes de figuras musicais apresentam significados reconhecíveis (por exemplo,
“mínima”), porém, estes podem ser interpretados de diferentes maneiras pelo receptor, o que influencia a
sua compreensão no estudo da Música.
Relativamente à duração de som, na prática atual cada figura sucessiva possui exatamente a metade do valor
da precedente e o dobro da posterior, como é sabido. Ou seja, uma semifusa possui a metade do valor da
fusa; uma colcheia vale a metade do que uma semínima, e assim por diante. Porém, no séc. XIV, isto só era
verdade quando era aplicado o metro duplo (divisão em duas partes). Contudo, o antigo sistema de notação
mensural foi em princípio estabelecido exclusivamente para a medida tripla, sendo o tempo dividido em três
partes iguais, o que era conhecido como o metro "perfeito", práticas provavelmente inspiradas na doutrina
católica da santíssima Trindade. Portanto, antigamente cada nota durava uma terceira parte do que a nota
precedente na escala quantitativa (𝟏𝟑
⁄). Nesse esquema de três partes, uma longa (1 ) era igual a três
breves (3 ). Então revelou-se necessário utilizar algum método para evitar a confusão quando era utilizado
o metro duplo, distinguindo os valores das notas nos dois metros mediante a coloração ou recheado das
figuras. Assim, no metro duplo as cabeças das notas eram escritas esvaziadas (ou em "branco") e no metro
triplo as notas eram escritas em vermelho e mais tardiamente em preto. No século XV as cabeças de notas
brancas e pretas já eram o padrão. Esta é uma prática que se conserva até hoje, tal como a relação
duplo/metade entre uma e outra figura imediata na ordem sequencial estabelecida, ao estilo do metro duplo
(sendo a tercina uma exceção à regra). Também foi nesta altura histórica quando os compositores acharam
necessário acrescentar figuras de menor valor, entre elas a semibreve e a mínima, denominações estas que
permaneceram até os dias de hoje em algumas línguas, apesar de terem desaparecido as figuras de maior
valor, a saber: máxima (dupla-longa), longa e breve. (Grier 2021).
A notação ortocrônica moderna, cujo nome provém dos termos gregos orthós (correto) e chrónos (tempo),
remonta aproximadamente ao início do século XVI. Este momento marca a passagem das figuras quadradas
sem preencher, conhecidas como “brancas”, e das quadradas preenchidas, chamadas de “coloridas”, para
uma escrita musical de contornos mais arredondados. Tal evolução resulta diretamente da invenção da
impressão musical, indissociável do surgimento da tipografia. Em 1455, com o lançamento da Bíblia de
Gutenberg, inicia-se a era da impressão e, por volta de 1480, começam a ser publicadas as primeiras obras
musicais impressas, utilizando essencialmente os mesmos métodos técnicos.
A chegada da impressão musical teve um efeito profundo no percurso evolutivo da notação, funcionando
como um travão à velocidade das suas mudanças. Tal como aconteceu com o aparecimento e posterior
uniformização dos tipos de letra na imprensa, também os símbolos musicais, como notas, claves e
alterações, começaram a ganhar maior estabilidade a partir do momento em que a produção manuscrita foi
substituída pela impressão em série. Este fenómeno pode ser visto de diferentes ângulos, porque se, por um
lado, trouxe benefícios evidentes, por outro, levanta dúvidas quanto à ideia de progresso na notação
musical. Não se pode afirmar, de forma taxativa, que a notação desenvolvida nos séculos XVI e XVII
corresponda ao auge do seu potencial, nem que o processo histórico tenha esgotado as possibilidades de
melhoria dentro da tradição notacional. Pelo contrário, a fixação proporcionada pela técnica de impressão
contribuiu para consolidar certos modelos e abriu caminho para a padronização necessária ao ensino e à