Entre os compassos 41 e 44 se delineia o ponto culminante do solo. No compasso 41, baixista, baterista e
pianista acentuam o primeiro tempo, e o contratempo do segundo tempo. Após um arpejo ascendente, no
terceiro tempo do compasso 41 Dorin toca um fragmento melódico que repetirá de forma variada até o
compasso 44; tal passagem se dá com tercinas de colcheia, e se consiste em um salto descendente, com
intervalo de quarta justa nos compassos 41 e 42, e terças – maiores ou menores – nos compassos 43 e 44.
Entre a apresentação inicial do fragmento melódico supracitado, no terceiro tempo do compasso 41, e o
segundo tempo do compasso 42, o saxofonista opta por uma transposição desta passagem, avançando
cromaticamente; ademais, entre o segundo e quarto tempos do compasso 42, Dorin utiliza-se do recurso de
outside. Assim, a somatória de elementos potencialmente interacionais utilizados pelo solista (a reiteração
do fragmento, a transposição pelo caminho cromático e o outside) gera um acúmulo de energia; tal potência
reverbera no sistema, e funciona como ignição combinatória para alterações nas linhas improvisadas dos
outros músicos. Além da globalidade, já observada em outros pontos, neste trecho é evidenciada a
propriedade de novidade, uma vez que a mudança na harmonia é um evento musical não-planejado, e
resulta de uma interação ocorrida no sistema.
André Marques altera a progressão harmônica originalmente prevista para a seção de improvisação. No
compasso 43, ao invés de Ebm7, o pianista toca uma tríade de D, e com semínimas pontuadas, progride de
meio em meio tom, passando pelas tríades de Eb, E, F, F# e G, até chegar ao acorde de Am7 – que faz parte
da progressão harmônica “original” – no contratempo do quarto tempo do compasso 44. Na improvisação
em música popular, a progressão harmônica é frequentemente alterada e ampliada na performance. Como
afirma Monson (1996), mesmo nas situações mais comuns, os músicos fazem uso de substituições de
acordes, com tanta frequência que as harmonias de um tema podem servir apenas como uma referência,
mudando a partir do que ocorre na improvisação. Mesmo sem Dorin manter o outside, voltando à harmonia
“original” a partir da anacruse do compasso 43, a reharmonização de Marques se encaixa e dá suporte ao
desenvolvimento melódico realizado pelo solista, que em uma melodia que evolui ascendentemente, chega
ao registro superagudo do sax soprano.
Como afirma Monson (1996), se por um lado a improvisação é centrada na criatividade oriunda da expressão
individual, por outro, momentos de clímax de expressão musical exigem a participação de todo o grupo, de
forma coesa. Em uma formação musical dividida em seção rítmico-harmônica e solista, a autora identifica
dois níveis em que a tensão indivíduo versus grupo atua: a relação do solista (que pode ser um membro
seção rítmico-harmônica) com a cozinha, e a relação entre os performers da seção rítmico-harmônica. Neste
trecho, a ignição combinatória parte do solista Vinicius Dorin no compasso 41, e a primeira reação é
executada pelo pianista André Marques, no compasso 42. Em um circuito de ações musicais que fortalecem
umas às outras de forma subsequente, no compasso 43 o baterista Cleber Almeida reage aos eventos
musicais que ocorrem no ambiente, “desmanchando” o groove nos dois primeiros tempos, e acentuando os
contratempos do segundo e terceiro tempos do compasso. O baixista Fabio Gouvea – que do compasso 41
ao 43 deu sustentação às interações, mantendo uma linha de baixo regular – reage no compasso 44 à
emergência resultante da interação dos outros músicos, tocando apenas a nota Si bemol, em duas oitavas
diferentes. No fim do compasso 44, Almeida toca duas notas na caixa que funcionam como uma “chamada”
para o retorno ao ciclo harmônico, e atua ainda como uma marcação do fim desta ocorrência musical.