
Per Musi | Belo Horizonte | v.27 | General Topics | e262710 | 2026
Sousa, Fabio Wanderley Janhan. “Desafios e soluções no desenvolvimento da banda sonora do curta-metragem Partir
elementos visuais apresentados em tela; e os sons diegéticos e não-diegéticos, aqueles cuja presença está
ou não integrada diretamente à lógica narrativa da obra. Assim, o desenvolvimento da banda sonora de um
filme insere-se diretamente nesse campo de investigação, revelando-se como um espaço fértil para a análise
das dinâmicas intermídia que permeiam a construção audiovisual.
Leite (2004) propõe distintas possibilidades de articulação entre imagem e som no contexto de produções
audiovisuais de natureza intermídia. Entre elas, destacam-se: (1) o processo de criação de uma partitura
musical a partir de estímulos visuais, na qual a imagem serve como ponto de partida para a geração de
materiais sonoros ou para a construção de estruturas composicionais; (2) o processo de produção no qual o
som é concebido para uma imagem previamente finalizada — ou, inversamente, a imagem é elaborada a
partir de uma composição musical já existente; (3) a apropriação de sons reais presentes na imagem como
matéria-prima para a composição musical; (4) a composição simultânea de imagem e música, em que ambos
os elementos interagem e influenciam-se mutuamente durante sua elaboração; e (5) a utilização da imagem
como ilustração de uma música previamente composta. Essas abordagens evidenciam a complexidade e a
diversidade das relações possíveis no processo de criação de um produto audiovisual, reforçando que a
banda sonora, longe de ser apenas a soma de composição musical, efeitos e diálogos, constitui um espaço
de experimentação intermídia no qual som e imagem se entrelaçam no processo de construção da obra.
Os processos de criação da banda sonora em produções cinematográficas podem assumir os mais variados
formatos, tanto no âmbito industrial quanto em contextos independentes. No modelo hollywoodiano,
consolidou-se uma lógica de extrema hierarquização e divisão de funções, na qual cada dimensão sonora —
composição musical, diálogos e foley/efeitos — é atribuída a equipes especializadas e posteriormente
integrada pelo mixador ou editor de som. Essa configuração favorece a qualidade técnica e a padronização
estética, mas não representa a totalidade das práticas existentes no campo audiovisual.
Entre as abordagens descritas por Leite (2004), destaca-se aquela em que, durante o processo de produção,
a composição musical é concebida para uma imagem previamente finalizada, ou, em casos menos
frequentes, a imagem é construída a partir de uma composição musical já existente. Essa modalidade,
referida pela autora como abordagem (2), é particularmente comum em produções de baixo orçamento, nas
quais não há previsão de recursos financeiros ou temporais suficientes para viabilizar um trabalho minucioso
e colaborativo com a equipe de áudio (compositores, músicos, técnicos de som, editores, entre outros) ao
longo de todas as etapas da realização audiovisual.
Também se observa com frequência a situação (3), em que sons provenientes da própria imagem gravada
passam a integrar a banda sonora do filme. Esses sons, sejam eles o som direto ou o foley, são classificados
como diegéticos — ou seja, estão inseridos diretamente na narrativa, e podem ser captados durante a
encenação ou recriados posteriormente em estúdio (Chion 1994, 2009). Dependendo da estética adotada,
tais elementos podem ser incorporados não apenas à banda sonora como um todo, mas também à
composição musical, trazendo coerência ao resultado. Em produções de maior escala, os processos de
estruturação e planejamento da banda sonora tendem a se aproximar da situação (4), na qual a concepção
sonora e imagética ocorre de forma simultânea. Nesse contexto, profissionais de composição musical e
design sonoro participam ativamente desde a fase de roteirização, esboçando trechos musicais e
selecionando elementos sonoros essenciais para cada cena, seja para gravação ou dublagem em estúdio.
Essa abordagem colaborativa favorece a criação de um produto final mais coeso e expressivo. A concepção
simultânea entre som e imagem é particularmente evidente na elaboração da composição musical —