Costa-Lima Neto (2022) identifica procedimentos relacionados à musicalização da fala nos trabalhos de
MonoNeon, Christophe Chassol e Jovino Santos Neto. Esses casos evidenciam a circulação e a transformação
do procedimento hermetiano, ainda que a presença das propriedades associadas à CNA terciária deva ser
examinada segundo as configurações mediológicas específicas de cada prática.
O baixista MonoNeon, por exemplo, cria composições curtas em que a voz falada é editada em loops e
acompanhada por levadas de funk, emulando a fala de personalidades ou pessoas comuns (Costa-Lima Neto
2022, 11-12). O compositor francês Christophe Chassol desenvolve “ultrascapes”, obras audiovisuais em que
harmoniza a fala de pessoas filmadas em locações reais, sincronizando suas melodias ao teclado e
adicionando harmonias e ritmos (Costa-Lima Neto 2022, 13). Jovino Santos Neto, antigo parceiro de
Hermeto, cria instalações sonoras em que vozes de imigrantes são tratadas musicalmente, sendo “elevadas
à condição musical” (Santos Neto apud Costa-Lima Neto 2022, 16).
Os projetos de Jacob Collier permitem observar outra dimensão do argumento da CNA terciária, ao
deslocarem o princípio hermetiano da escuta da voz do outro para uma prática de interação distribuída em
rede. No Overjoyed Challenge (2016), Collier disponibiliza uma base vocal da canção de Stevie Wonder e
convida usuários do mundo inteiro a duetar com ele. “Os usuários da internet dispostos a aceitar o desafio
tocam junto com o artista e aparecem ao seu lado no vídeo” (Araújo Costa 2023, 6). A complexidade
harmônica da base não é obstáculo, mas catalisador da interação: desafia os participantes e oferece um
terreno compartilhado para a experimentação. O que Attali chamaria de “composição” aqui se materializa
como prática social distribuída.
O IHarmU (I Harmonize You) leva a lógica um passo adiante, invertendo o fluxo da interação. Desta vez, são
os usuários que enviam vídeos com performances autorais caseiras, e Collier elabora arranjos complexos
sobre esse material, devolvendo-os à rede. Araújo Costa descreve: “pessoas de todo o mundo enviaram
vídeos contendo performances musicais autorais, caseiras, ao artista, que projetou um arranjo complexo e
intrincado interagindo com a performance e então o publicou novamente na plataforma” (Araújo Costa,
2023, 7). Aqui, a figura do “compositor” se aproxima surpreendentemente da do “arranjador” hermetiano:
Collier torna-se um “tradutor” das performances alheias, ecoando a poética do som da aura, em que
Hermeto se considerava arranjador da voz do outro. A diferença crucial é que a matéria-prima não é mais a
fala, mas a performance musical de anônimos, e o resultado é imediatamente reinserido no fluxo da rede,
realimentando o ciclo de interações.
Albert Figurt, em seu estudo sobre a evolução dos videoclipes na era digital, capta essa mesma dinâmica ao
analisar o fenômeno das “VideoSongs”. Figurt descreve a proliferação de artistas que, como Collier, utilizam
a tela dividida para apresentar múltiplas versões de si mesmos, em um processo que ele chama de “self-
splintering” (auto-fragmentação). Para Figurt, a obra em processo, o making-of e a exposição do trabalho
artesanal tornam-se elementos centrais da experiência estética. A conexão com Hermeto, nesse ponto, não
está apenas na mediação audiovisual, mas sobretudo na exposição do processo: assim como o trabalho de
Hermeto com fitas cassete e harmônio revela a fabricação musical da fala, as VideoSongs tornam visível a
montagem, a escuta e a reconstrução do material sonoro no ambiente digital. As recontextualizações
audiovisuais de MonoNeon e, mais explicitamente, os projetos participativos de Collier sugerem que os
ambientes digitais contemporâneos se aproximam, em certos aspectos, do horizonte da composição
descrito por Attali. Contudo, eles também evidenciam uma tensão inerente a esse modelo: a ampliação das
possibilidades de produção musical não implica necessariamente uma ampliação equivalente das práticas