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eISSN 2317-6377
A linha de baixo nos ritmos do sul do Brasil: proposi es
pr ticas, te ricas e suas aplica es no contrabaixo
ac stico
The ba li e i he h hm f S he B a il: ac ical a d he e ical
al a d i a lica i he d bleba
Ma he Me i a Pa ali1
matheuspasquali89@gmail.com
Leona do Pie ma i i1
1U i e idade d E ad de Sa a Ca a i a, CEART, Fl ia li , Sa a Ca a i a, B a i
ARTIGO CIENT FICO
Editor de Se o: Fe a d Chaib
Editor de Layout: Fe a d Chaib
Licen a: "CC b 4.0"
Data de submissão: 10 set 2024
Data final de aprovação: 27 out 2024
Data de publicação: 02 jan 2025
DOI: https:/ / doi.org/ 10.35699/ 2317- 6377.2025.54497
RESUMO: E e a ig e ma a li e da li ha de bai g e da mil ga e em i m imila e ,
ca ac e ic da egi l d B a il, a lica d - a c abai . C ide a- e a e a a ec ic
a a a b e de ma idade a iada, ma amb m a ec c cei al de e g e , e
dial gam c m c cei de cla e e mica adi i a. F i fei a ma a li e b e a cla e ada e e g e ,
e e a ame e a me ma e c ada em e il , ge i d ma el igem af ica a c m m.
E e m abalh i f mad ela ica, de m d a e a ici c m m ic c idad em
e f ma ce c m g Q a e C a de P , g e eciali ad e e i li , ediad em Lage -
SC. F i eali ada ma e e i a c m m ic J Gab iel R a, e amb m c m a ilh a e ce e e
ica . Ne e a ig e i cl da a c i e e a li e de ech de b a de e e e i a a c b a
a c cl e le a ada .
PALAVRAS-CHAVE: Ri m li ; R mica adi i a; M ica; C abai .
ABSTRACT: Thi a icle e a a al i f ba li e i he mil ga ge e a d imila h hm , cha ac e i ic
f he he egi f B a il, a l i g hem he c aba . N l he ac ical a ec f b ai i g a
a ia e d i c ide ed, b al he c ce al a ec behi d he e ge e , hich dial g e i h he
c ce f cla e a d addi i e h hm. A h hmic a al i a made f he claff f h e ge e , hich a e e ac l
he ame a h e f d i he le , gge i g a ible c mm Af ica igi . Thi i a k i f med b
ac ice, he e e f he a h a ici a ed a a g e m icia i e f ma ce i h he g Q a e
C a de P , a g eciali ed i he e e i e, ba ed i Lage -SC. A i e ie a ca ied i h
m icia J Gab iel R a, h al ha ed hi e ce i . Thi a icle i cl de a c i i a d a al e f
e ce f m k f m hi e e i e c b a e he c cl i ai ed.
KEYWORDS: S he h hm ; Addi i e h hmic; M ic; D bleba .
Per Musi | Belo Horizonte | v.26 | Gene al To ic |e252602 | 2025
Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal:
um arranjo idiomático de “22 de junho” para contrabaixo acústico
A tribute to the birth, life, and death of Hermeto Pascoal:
an idiomatic arrangement of “22 de junho” [“June 22”] for double bass
Fausto Borém 1 https://orcid.org/0000-0002-4769-106X
faustoborem@gmail.com
Pablo Souza 2 https://orcid.org/0009-0008-2274-9684
pablosouza1@gmail.com
1 UFMG, Escola de Música, Belo Horizonte, MG, Brasil
2 UFMG, Escola de Música, Belo Horizonte, MG, Brasil
SCIENTIFC ARTICLE
Section Editor: Fausto Borém e Fabiano Araújo Costa
Layout Editor: Fausto Borém e Fabiano Araújo Costa
License: "CC by 4.0"
Submitted date:
Submitted date: 19 out 2026
Final approval date: 22 out 2026
Publication date: 22 out 2026
DOI: http://doi.org/10.35699/2317-6377.2026.69247
RESUMO: Neste Este artigo apresenta o processo de arranjar “22 de junho” para contrabaixo acústico (nas versões solo e
dueto), que é uma das 366 músicas que Hermeto Pascoal escreveu no seu livro de partituras “Calendário do som”. A análise do
manuscrito (Pascoal, 2000) revela que o mais reconhecido compositor, arranjador e multi-instrumentista da música popular
brasileira crossover construiu a música de seu aniversário com base em apenas três motivos: M1 (um intervalo de salto
ascendente), M2 (uma longa descida escalar em semínimas) e M3 (uma bordadura). A partir de gestos ocasionais no manuscrito
original, três outros motivos foram criados para os arranjos: M4 (uma apojatura de semicolcheia), M5 (o ritmo de tercinas) e
M6 (um breve cromatismo descendente). O arranjo para este que é o mais grave dos instrumentos das cordas orquestrais
considera a natureza crossover de suas práticas de performance em arco e em pizzicato. A escrita idiomática, que cobre os
registros subgrave, grave, médio, agudo e super-agudo do contrabaixo, também explora diversos efeitos instrumentais
(glissando, pull off, hammer on, rasgueado, harmônicos, mutada de mão esquerda, acordes arpejados, cordas duplas, e cordas
duplas de harmônicos) e busca imprimir o caráter de seresta. As partituras completas dos arranjos com as linhas de solo (em
arco e pizzicato) e de acompanhamento (em pizzicato) são discutidas e apresentadas.
PALAVRAS-CHAVE: “Calendário do som” de Hermeto Pascoal; análise de “22 de junho”; escrita idiomática do contrabaixo
acústico; arranjo para contrabaixo; contrabaixo solista; análise de música brasileira.
ABSTRACT: This article presents the process of arranging “22 de junho” [June 22] for double bass (in both solo and duet
versions), one of the 366 pieces Hermeto Pascoal wrote for his instrumental songbook “Calendário do Som” [Calendar of sound].
An analysis of the manuscript (Pascoal, 2000) reveals that this most renowned composer, arranger, and multi-instrumentalist
of Brazilian crossover music wrote the piece for his own birthday using just three motifs: M1 (an ascending leap), M2 (a long
scalar descent in quarter notes), and M3 (a neighbor tone). Based on occasional gestures found in the original, three additional
motifs were derived for the arrangements: M4 (a sixteenth-note appoggiatura), M5 (a triplet rhythm), and M6 (a short
descending chromatic line). This arrangement for the lowest-pitched orchestral string instrument considers the crossover
nature of its arco and pizzicato performance practices. The idiomatic writing spans the instrument's sub-bass, low, middle, high,
and super-high registers; it also explores various instrumental effects (glissando, pull off, hammer on, harmonics, left-hand
mute, arpeggiated chords, strummed chords, double stops, and double stops of harmonics) and seeks to evoke the character
of the seresta (the Brazilian serenade). The arrangements’ full music scores with solo lines (in arco and pizzicato) and
accompanying lines (in pizzicato) are discussed and presented.
KEYWORDS: Hermeto Pascoal’s “Calendário do Som”; analysis of “22 de junho”; idiomatic double bass writing; double bass
arrangement; solo double bass; analysis of Brazilian music.
Per Musi | Belo Horizonte | v.27 | Seção temática: Hermeto Pascoal – 90 anos de Sons |
| 2026
Per Musi | Belo Horizonte | v.27 | Seção temática: Hermeto Pascoal – 90 anos de Sons | e262724 | 2026
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
1. Análise do manuscrito de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal
Hermeto Pascoal se destacou no cenário brasileiro e mundial como o mais eclético e reconhecido
compositor, arranjador e multi-instrumentista no estilo crossover, ou seja, aquela que combina elementos
da música de concerto e da música popular. Autodidata, ele absorveu influências das principais tendências
estilísticas do século XX e XXI: músicas tonal, modal e atonal, música concreta, música cênica, música
eletroacústica, música psicografada, jazz e os muitos e diversos estilos e gêneros da música brasileira (Borém
e Araújo 2010; Borém e Freire 2010). O reconhecimento da qualidade de sua enorme produção artística,
inclusiva nas artes plásticas relacionadas com a música (como seus milhares de manuscritos musicais)
1
tanto
no Brasil quando em todo o mundo, se reflete no recebimento de muitos prêmios
2
e distinções, que incluem
quatro doutorados honoris causa, pelas universidades New England Conservatory (2017, EUA), Universidade
Federal da Paraíba (UFPB, 2022), The Juilliard School (2023, EUA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL
2024, in memorian).
A motivação de realizar um recital-palestra nos 90 anos de nascimento de Hermeto Pascoal (1936-2025) veio
como ideia de homenagear não só o nascimento da criança “Menino Sinhô” que surpreendia a família com
sua precoce genialidade, mas a trajetória do “Campeão” que encantava a legião de amigos músicos, e o
“Bruxo das Alagoas” que desafiava os rótulos e surpreendia a mídia em cada música que compunha ou
arranjava, em cada disco ou show que lançava. O arranjo de “22 de junho” é também inspirado pelo trabalho
de longa duração do contrabaixista, compositor e arranjador Itiberê Swarg ao lado de Hermeto Pascoal,
como discípulo da chamada Escola Jabour,
3
e continuador da estética e pensamento filosófico da música
universal do “Campeão”, especialmente na sua abordagem democrática com o grupo Itiberê Orquestra
Família, o qual criou e permite fazer música com músicos de todas as formações e todos os níveis musicais.
De natureza intuitiva, simples e humilde em relação aos seus talentos e ao lugar que ocupava no mundo,
Hermeto diz ter recebido, espiritualmente e em conexão com o universo, a missão de compor uma música
por dia seguidamente durante um ano inteiro. Assim o fez, religiosamente, no sentido original do latim
“religare” (re-ligar). Em folhas de papel com 12 pautas, escrevendo sem planejamento prévio e com uma
caligrafia quase sem correções (Rodrigues e Borém 2026), ele dedicou músicas para todos os aniversariantes
do mundo, 366 ao todo, para não excluir os nascidos em anos bissextos.
A análise da página de “22 de junho” mostra que Hermeto foi amoroso ao escrever a música do dia de seu
aniversário. Na epígrafe do manuscrito, podemos ler:
New York, 22 de junho de 1997 Hermeto Pascoal. Domingo. Viva a todos os músicos do
mundo. E beijos para todas as pessoas do mundo. Terminei às 8 e 50: tudo de bom sempre.
No dia dos meus 61 anos, quero mandar muitos beijos e abraços para minha família em
1
O músico Filipe José Abreu, a quem Fábio Pascoal, filho de Hermeto, deu acesso ao acervo de obras de Hermeto Pascoal,
acredita que estão catalogadas apenas cerca de 6.000 das estimadas cerca de 10.0000 partituras deixadas por ele.
2
Entre tantos, mencionamos o Prêmio WOMEX (2024), o Grammy de Melhor Disco de Jazz Latino (2019), o Prêmio “Rival-BR”
em Música Instrumental (2004), os Prêmios Sharp (1996, 1993 e 1992), e o Prêmio Ary Barroso (1996).
3
A denominação “Escola Jabour” se refere ao movimento desenvolvido por Hermeto Pascoal que tornou sua casa no bairro
Jabour um centro informal, intenso e democrático de estudos musicais, envolvendo muitas horas de prática individual e ensaios,
e que atraiu músicos já renomados, como os cantores-compositores Guinga, Joyce e Leila Pinheiro, entre outros.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
geral, e para o meu lindo e maravilhoso grupo musical, e para todos que também
aniversariam neste dia, um lindo som para todos. (Pascoal 2000, música no 365).
Marcamos em negrito as palavras que podem ser tomadas como índices semânticos do seu pensamento ao
compor. “New York” revela que estava nos Estados Unidos, país no qual Hermeto se aproximou mais do jazz
e refinou seus conhecimentos sobre os diversos estilos e tendências da música norte-americana,
surpreendendo músicos com Cannonbal Aderley, Miles Davis e muitos outros. Já as palavras “Domingo” e
“minha família em geral” refletem, para Hermeto, um dia de confraternização, no qual sua esposa Ilza era
uma figura amorosa central, sempre abrindo a casa para os visitantes, que relatam a generosidade do casal
e a fama de sua feijoada. Em seguida, ele estende seu conceito amoroso de família e fraternidade ao grupo
de músicos que tocavam com ele (o “maravilhoso grupo musical”) e a “todos” os aniversariantes que
nasceram no mesmo dia que ele.
A análise do conteúdo musical de “22 de junho” (Ex.1) revela que Hermeto foi econômico ao compor.
Intuitivamente, escolheu apenas 3 gestos, os motivos M1, M2 e M3, para com eles construir as frases e
seções dos 20 compassos da música dentro da forma rapsódica A + Coda, que é anotada em 5 sistemas com
2 pautas cada. Estas pautas contêm 3 estratos: (1) a clave de Sol, que contém a melodia em 3/4, sem
indicações de instrumentação, andamento, dinâmicas, articulações ou ligaduras de fraseado; (2) a clave de
Fá, na qual estão anotadas as cifras da harmonia; e (3) entre as duas pautas, a sugestão de realização rítmica
da harmonia, padrão composicional que é mantido em todos os 366 manuscritos do “Calendário do som”
(Pascoal 2000).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.1 - Análise do manuscrito de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal,
com a recorrência dos 3 motivos (M1, M2 e M3) geradores da forma rapsódica A + Coda.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
A análise formal de “22 de junho”, com seções, frases, notas focais e centros tonais (Ex.2), também mostra
que as cifras e as sequências harmônicas anotadas por Hermeto sugerem que ele deixou de lado os
“hermetismos pascoais” mencionados por Caetano Veloso na canção “Podres Poderes” (1984), e escolheu a
simplicidade para comemorar musicalmente o seu próprio aniversário. Assim, não se observa em momento
algum as harmonias mais complexas da “cifragem das mãos” (Abreu, Diz, Alefe e Freire, 2024) que podem
conter, por exemplo, duas cifras superpostas com diversas extensões harmônicas
4
cada uma. Mas, se a
música girou ao redor de Lá menor quase todo o tempo, Hermeto caprichosamente dá uma guinada ao final,
e a termina em Ré bemol maior.
Ex.2 - Análise da forma, frases, notas focais e focos tonais de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal,
uma música em Lá menor que termina em Réb maior.
Além disto, não se observa utilização de métrica complexa ou mudança de métrica, mudança de gênero
musical, ou mudança de andamento (algo comum em seu estilo composicional por justaposição que lembra
mosaicos), mas sim o passo harmônico com 1, 2 ou 3 acordes por compasso, que geram 3 padrões rítmicos
apenas: 2 mínimas pontuadas (c.1-2, 5, 8, 9, 12, 17 e 20), mínima pontuada + semínima (c.4, 6-7, 14, 17-19;
sendo que, na notação, falta uma semínima no terceiro tempo do c.17), e 3 semínimas (c.3, 10-11, 13, 16;
sendo que falta uma semínima no segundo tempo do c.13).
Ao anotar apenas a melodia e as cifras da harmonia no manuscrito, Hermeto deixa em aberto para o
performer escolher parâmetros como articulações, dinâmicas e timbres. Assim, na elaboração do arranjo, o
primeiro coautor partiu dos três motivos, que são os materiais temáticos recorrentes no manuscrito: M1,
que é o intervalo de salto ascendente; M2, que é uma longa descida escalar em semínimas; e M3, que é uma
bordadura. O processo composicional de Hermeto sempre foi mais intuitivo do que planejado; uma intuição
que não é espontânea (no sentido de algo criado do nada), mas uma intuição que se alimentava e se revestia
de toda a sua cultura e história de vida acumuladas em quase 90 anos. Assim, relacionamos estes motivos
4
Os termos em português “tensões” ou “extensões” se equivalem e tem o significado do termo em inglês “extensions”, que são
as alterações e acréscimos harmônicas em acordes de tríades simples.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
com o nascimento (M1), a trajetória de vida (M2) e a morte (M3) de Hermeto Pascoal (13 de setembro de
2025). Ao salto ascendente e súbito de M1, associamos o movimento primordial de nascimento do “Menino
Sinhô” e os renascimentos que realizou em “saltos quânticos” sobre obstáculos ao longo de sua vida, seja
pelos enfretamentos por ser um nordestino buscando a profissionalização no Sudeste, seja como objeto de
preconceitos como racismo (por ser albino) tamanhismo (por ser baixinho), gordofobia (por ser obeso),
intolerância religiosa (por ter uma visão ecumênica entre os ritos do catolicismo, espiritismo, ritos indígenas
e afro-brasileiros) e, talvez, etarismo (por ter se casado aos 66 anos, em 2002, com a cantora Aline Morena,
de 22 anos; Bianchi e Morena 2025). À longa escala descendente de semínimas por graus conjuntos de M2,
associamos o contínuo e longo processo de aprendizagem, envelhecimento e sapiência no qual se tornou o
“Campeão” entre os colegas músicos. À bordadura que caracteriza M3, associamos a finalização de
processos, cadências que marcam o fim de frases e seções musicais de sua própria vida, bem vivida em 9
décadas.
Além destes materiais recorrentes no original, utilizamos também três elementos pontuais como motivos
recorrentes para trazer variedade rítmica à maciça recorrência de semínimas contínuas e notas diatônicas
em toda a música (Ex.3): (1) uma apojatura superior de fusa, que acontece apenas duas vezes no original e
(2) uma tercina de colcheias, que acontece apenas uma vez no original e (3) um cromatismo descendente,
elementos que se tornaram os motivos M4 e M5 e M6, respectivamente.
Ex.3 - Apojatura de fusa (motivo M4), tercina (motivo M5) e cromatismo descendente (motivo M6)
no manuscrito original, utilizados como materiais temáticos recorrentes no
arranjo para contrabaixo solo de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal.
O Ex.4 mostra dois trechos do manuscrito com frases em que aparecem os seis motivos: M1, M2,
M3, M4, M5 e M6.
Ex.4 - Recorrência dos contornos melódicos dos motivos M1, M2 e M3,
e das ocorrências pontuais dos motivos M4, M5 e M6.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
2. A Escrita idiomática do arranjo para o contrabaixo solista em arco
Calendário do som”
Discutimos agora o processo de arranjar idiomaticamente “22 de junho” para o contrabaixo solista na
tradição da música de concerto, ou seja, utilizando articulações com em arco dentro de um grau elevado de
virtuosismo.
No início do arranjo (Ex.5) pode-se observar que houve a inclusão de M4, como uma apojatura anacrústica
de semicolcheia para as primeiras notas dos c.1, 2 e 4. Os saltos ascendentes e dramáticos de M1 são
mantidos (os intervalos de 8a no c.1, e 9a maior no c.4). Também foi mantida a sequência de semínimas
descendentes de Mi4 a Mi3 do contorno melódico de M2 mas, dentro desta descida, foram criadas cadências
rítmicas com os ornamentos de M4, dividindo esta descida em três frases, as quais ganham expressividade
individualmente com a dinâmica f combinada com decrescendo e/ou decrescendo. Ainda derivados de M4,
há a agilidade de outros ornamentos, como o passagio Dó5-Si4-Lá4-Sol4 no final do c.2, facilitado pela posição
tradicional de tetracorde maior no início da região do capo tasto do contrabaixo; também a bordadura
inferior Mi4-Ré4-Mi4 no c.3, seguida de glissando com diminuendo, emulando uma sonoridade típica dos
sopros ou guitarra do jazz.
Ex.5 - Trecho do arranjo (c.1-4) de “22 de junho”: utilização do motivo M4,
divisão da frase inicial em 3 frases descendentes com M2, saltos virtuosísticos de M1,
e utilização de moduladores de dinâmica (Pascoal e Borém, 2026a).
O vibrato e o glissando são duas das mais comuns e eficientes ferramentas expressivas das cordas
orquestrais. A utilização ou ausência do vibrato, no arranjo são deixadas a cargo do intérprete, que pode se
guiar por parâmetros como contorno melódico nos inícios, meios ou fins de fraseado, dinâmicas e rítmicas
mais ou menos movimentadas. O glissando (em vermelho) tem sua utilização bastante detalhada na
partitura do arranjo. O Ex.6 mostra sua ampla utilização em ocorrências do motivo M4. Primeiro, na
combinação descendente-ascendente no início do c.5 (Si4-Lá4-Si4). Depois, no início do c.6, para enfatizar as
notas Lá5-Sib5 no clímax que ocorre no registro super-agudo. Depois deste clímax, há uma passagem
virtuosística com um grupo de 4 semicolcheias (em verde), que se torna idiomática, pelo fato de a nota mais
grave ser um harmônico natural (o Sol4 na corda II), de fácil emissão. Finalmente, a unidade expressiva do
trecho é mantida com um terceiro glissando descendente no início do c.7, que é respondido no início do c.8
por um glissando ascendente.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.6 - Trecho do arranjo (c.5-8) de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal: utilização de glissandos
(em vermelho), arpejo (em verde) nos registros agudo e super-agudo do contrabaixo
(Pascoal e Borém, 2026a).
O Ex.7 mostra uma imbricação de M2 com M4, na qual a escala descendente de semínimas de Hermeto se
torna uma escala descendente de colcheias, cujos pares dois-a-dois são interpolados por apojaturas de
semicolcheias (c.10), cuja acentuação é favorecida pelas arcadas sempre para baixo. Ainda neste trecho, a
realização rítmica em estilo rubato é sugerida com a inclusão de um ritardando seguido de um accellerando
(em verde). A apojatura de M4 é utilizada também no c.12 sobre a nota Ré#, desta vez para marcar uma
guinada da tonalidade de Lá menor para Mi menor.
Ex.7 - Trecho do arranjo (c.9-12) de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal: utilização de sequência de apojaturas (em vermelho) em colcheias
descendentes (em amarelo) e mudança de foco tonal (Pascoal e Borém, 2026a).
O Ex.8 traz um trecho virtuosístico com grande demanda técnica e musical no arranjo de “22 de junho”. O
grupo de tercinas (as 3 colcheias de M5 no c.7) se transforma em grupos de 4 semicolcheias ou 5
semicolcheias. Primeiro, no c.13, aparece o arpejo em quintinas (que também envolve uma citação de M2,
na qual as semínimas descendentes se tornam semicolcheias). Depois, este arpejo (em amarelo) reaparece
em dois grupos de 4 semicolcheias (em verde; descendente no c.15 e ascendente no c.16). Outro exemplo
neste trecho virtuosístico que demanda expressividade e grande precisão técnica é o contraste de dinâmicas
(em vermelho): o crescendo para um ff no c.13, seguido de um decrescendo para um pp no c.14. Ao mesmo
tempo, há a realização de um salto de 6ª maior ascendente, Si4-Sol#5 (M1), seguido de cromatismo
descendente (M6). Este trecho se torna mais difícil por ser no registro super-agudo, registro no qual a grande
tensão nas cordas torna difícil esta realização em baixas dinâmicas, no caso, em pp.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.8 - Trecho (c.13-16) do arranjo para contrabaixo de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal:
grande contraste de dinâmicas (em vermeho), salto para o registro super-agudo (em azul), cromatismo (em roxo) e intensificação da
rítmica em quintinas (em amarelo) e grupos de semicolcheias (em verde) (Pascoal e Borém 2026a).
O Ex.9 mostra as opções de dois finais diferentes no arranjo, que podem ser escolhidos pelo intérprete. O
Final 1 (Ex.9a), no c.18, tem as notas originais da partitura (o salto Lá4-Mi5 seguido pelos graus conjuntos
descendente Dó5-Si4-Lá4-Láb4), trecho em que os motivos M1 e M2 são combinados e que, melodicamente,
reflete uma guinada harmônica inesperada, de Ré maior para Ré b maior. Este final demonstra o grande
senso de unidade composicional de Hermeto, pois ele fecha a música com os mesmos motivos usados no
início da música. No arranjo, este fechamento é auxiliado pelo glissando descendente com diminuendo sobre
a nota Láb em direção ao grave do contrabaixo, um gesto de dissipação do som, que permite terminar a
performance em uma atmosfera intimista, que sugere o final da vida de Hermeto. Se a performance incluir
uma improvisação por parte dos intérpretes, o Final 1 pode ser seguido de uma repetição da forma completa
da música, ou seja, a realização de um chorus a mais.
No Final 2, que é um final alternativo (Ex.9b), o arranjo ganha 3 compassos a mais, nos quais se destaca uma
das características da música de Hermeto que não está no manuscrito original: a mudança de métrica, que
vai de 3/4 para 2/4. A unidade composicional é mantida, não só pela direção descendente de M2, mas
também dos intervalos semitom-tom-semitom das últimas 4 notas Dó5-Si4-Lá4-Láb4. Assim, no c.18 estas
notas se tornam Fá#5-Fá5-Mib5-Ré5 (c.19-20), e os intervalos tom-tom-semitom na cadência melódica final
Dó6-Sib5-Láb5-Sol5 (c.20-21). Embora tenha um contorno melódico descendente, a recorrência destas 3 notas
neste final alternativo sobe em direção ao super-agudo do contrabaixo por meio de 3 fragmentos e atingem
a nota mais aguda do arranjo: um Dó6 (que soa Dó5, pois o contrabaixo é um instrumento transpositor, que
soa uma 8ª abaixo do que está escrito). Imageticamente, a direção individual descendente de 3 fragmentos
com o motivo M2 que, em grupo são inseridos no contorno ascendente de M1 (em azul), faz uma última
referência ao final do processo de nascimento, vida e morte do “Menino Sinhô”.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.9 - O Final 1 e o Final 2 (alternativo) do arranjo de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal: (Ex.9a) glissando longo com diminuendo e
cadência final com torção harmônica de Ré maior para Réb maior;
(Ex.9b) 3 ocorrências de M2 e 2 ocorrências de M1 em direção ao registro super-agudo do contrabaixo (Pascoal e Borém 2026a).
Após o término do arranjo para contrabaixo com arco, sentiu-se a necessidade de uma Introdução ad libitum
(Ex.10) antes do tema, cujo timbre, em pizzicato, foi escolhido para imprimir um início mais próximo do
universo da música popular e do tema original em semínimas de Hermeto. Esta introdução recorre a dois
motivos, cujos materiais temáticos percorrem um contorno melódico sinuoso. Na primeira frase, depois do
cromatismo ascendente Ré#4-Mi4, que é uma apojatura derivada do cromatismo de M6, há o caminho
descendente escalar de M2 em semínimas que termina em uma fermata. Na segunda frase da Introdução,
o contorno melódico de M2 é invertido, e também termina em uma fermata, que dá mais tempo para a
mudança de timbre, ou seja, troca de pizzicato para arco.
Ex.10 - Introdução para contrabaixo em pizzicato, que antecede o arranjo para contrabaixo em arco de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal
utilizando o cromatismo de M6 e os graus conjuntos de M2 (Pascoal e Borém 2026a).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
O Ex.11 mostra a partitura completa do arranjo de “22 de junho” para contrabaixo com arco, que pode ser
tocada com ou sem acompanhamento. Embora Hermeto não tenha deixado na partitura ou em sua epígrafe
pistas sobre o andamento ou possíveis gêneros musicais que ele tinha em mente quando lhe veio a
inspiração para seu dia de aniversário,
5
as poucas gravações de “22 de junho” mostram que há uma
preferência por andamentos mais lentos.
No solo de clarineta em [1:04] do arranjo de Itiberê Zwarg (2007) para orquestra e no solo de violão de Rafael
Pansica (2016), a semínima = 62. No solo de violão de Fábio do Carmo (2011) e no arranjo vocal de Paulo
Maia, Beatriz Sartore, Ana Luisa Eberle, Eder Anderson e Guilherme Sementili (2015), a semínima = 72. No
arranjo para violão e flauta de Taylor Eigsti e Rebecca Kleinmann (2022), a semínima = 86. Finalmente, no
arranjo de Sandro Haick e Thiago Espírito Santo (2021), a semínima = 92.
Não apenas as referências destas gravações anteriores, mas também a escrita virtuosística nos diversos
registros do contrabaixo, com ritmos rápidos e muitos saltos, motivaram a sugestão de se utilizar um
andamento lento, que permita a subdivisão dos tempos em colcheias. Uma performance deste arranjo com
o primeiro coautor deste artigo (Pascoal e Borém 2026a) encontra-se disponível no Youtube em
https://youtu.be/5U9DrSPklso.
5
Hermeto Pascoal deixou pistas de gêneros musicais em diversas epígrafes de músicas do “Calendário do som”, como em “2 de
Janeiro” (Pascoal, 2000, p.216), “28 de Fevereiro” (Pascoal 2000, p.273) e “7 de Março” (Pascoal 2000, p.280).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.11 - Partitura completa do arranjo para contrabaixo em arco de “22 de junho”
(Pascoal e Borém 2026a). Gravação em vídeo disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
3. A Escrita idiomática do arranjo para o contrabaixo solista em pizzicato
Na escrita idiomática do arranjo do tema de “22 de junho” para o contrabaixo solista em pizzicato, se
destacam alguns efeitos instrumentais, como (1) rulo de 3 ou 4 dedos (que é derivado do motivo rápido da
apojatura M4); (2) notas mortas; (3) cordas duplas e cordas triplas arpejadas ou em plaqué (ou seja, sem
arpejamento; também uma derivação de M4), (4) pull off (também uma derivação de M4), (5) harmônicos
naturais, (6) drop (também uma derivação de M4), (7) glissando (que valoriza o motivo do salto M1), e (8)
rasgueado (também uma derivação de M4).
O rulo no contrabaixo é uma técnica que imita o rulo de percussão com baqueta na caixa clara, cuja
performance é realizada com três ou quatro notas rápidas (com apoio na última), realizadas com a mão
direita num só golpe que envolve flexão dos dedos e punho (Ex.12).
Ex.12 - Técnica de rulo no contrabaixo acústico utilizada no arranjo de “22 de junho”:
movimento rápido com duas notas na IV corda (dedos 3 e 2) e uma nota na corda II (dedo 1).
Neste rulo de 3 dedos (Ex.13a), que ocorre no compasso introdutório que antecede o c.1, os dedos 3 e 2
tocam as nota mais grave no contrabaixo de 4 cordas (o Mi2 da IV corda solta) com o timbre das mortas
(dead notes)
6
. Imediatamente depois, o dedo 1 toca, uma oitava acima, o Mi3 na II corda (corda Ré). O
ângulo correto da mão direita impede que a corda III (corda Lá) seja tocada inadvertidamente neste gesto.
Já o rulo de 4 dedos no c.9 (Ex.13b), que dialoga ritmicamente com as 3 fusas do c.8, é mais fácil de ser
realizado, já que os dedos 4, 3, 2 e 1 tocam a mesma nota, um Ré4 sempre na mesma corda I (corda Sol).
Ex.13 - Rulo de 3 dedos (Ex.13a; dedos 3, 2 e 1) e rulo de 4 dedos (Ex.13b; dedos 4, 3, 2 e 1)
com notas mortas (dead notes) no contrabaixo acústico utilizados no arranjo de “22 de junho”
(Pascoal e Borém 2026b).
6
Notas mortas ou dead notes são notas percussivas quase sem reverberação, em que a corda é abafada com a mão direita ou
mão esquerda.
dedo 3
na corda IV
dedo 2
na corda IV
dedo 1
na corda II
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Cordas duplas ou cordas triplas são utilizadas para realizar acordes arpejados ou plaqué (sem arpejamento).
Logo no segundo tempo do compasso introdutório, aparecem cordas triplas arpejadas com o polegar
(Ex.14a), sugerindo um acorde de sétima maior (Mi3-Lá3-Ré#4). No c.3, após uma apojatura para o harmônico
de oitava Sol na corda I em capo tasto, foram utilizadas cordas duplas realizadas com os harmônicos Lá3 (na
corda III) e Ré4 (na corda II), que devem ser tocados em plaqué (Ex.14b), com a articulação marcato para
reverberarem mais e terem um timbre mais metálico.
Ex.14 - Cordas triplas arpejadas sugerindo o acorde de E7+ (Mi3-Lá3-Ré#4; Ex.14a) e cordas duplas plaqué em
harmônicos naturais (Mi4 e Lá4; Ex.14b) no contrabaixo acústico utilizados no
arranjo de “22 de junho” (Pascoal e Borém, 2026b).
O pull off no contrabaixo em pizzicato é realizado ligando duas notas descendentes (geralmente fazendo
intervalo de 1 semitom ou 1 tom), sendo que a primeira nota é tocada pela mão direita, e a segunda nota é
articulada pelo levantamento rápido do dedo da mão esquerda, que toca uma nota mais grave (geralmente
as fôrmas 4-3, 4-2, 3-2, 3-1, e 2-1 ou, com o capo tasto, também as fôrmas 4-0, 3-0, 2-0, ou 1-0). Para deixar
o pull off mais sonoro, este dedo da mão esquerda pode ainda puxar a corda “para fora” do espelho. No
arranjo, há muitas ocorrências deste efeito instrumental (Ex.15). Para citar apenas dois excertos com pull
off, há três ocorrências nos c.1-3 (Ex.15a): duas no registro agudo, sendo Mi5-Ré5 (c.1) e Dó5-Si4 no c.2, e
outra com uma nota presa progredindo para um harmônico natural, ou seja, Lá4-Sol4 no c.3. Nos c.4-5
(Ex.15b), foi utilizada uma sequência com quatro pull offs, lembrando a natureza escalar descendente do
motivo M2 de Hermeto Pascoal.
Ex.15 - Pull offs no registro agudo com notas presas e harmônico natural (Ex.15a) e
sequência de quatro pull offs (Ex.15b) no arranjo de “22 de junho” (Pascoal e Borém 2026b).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
A utilização de harmônicos no arranjo se destaca em dois lugares: (1) no Ex.16a, temos a figura ornamental
ágil do drop (notas rápidas descendentes atravessando registros do agudo para o grave) Sol4-Ré4-Lá3-Sol2
nas cordas I-II-III-IV que ocorre na anacruse do c.7; e (2) no (Ex.16b), temos a sequência de harmônicos
naturais ascendentes Re4-Mi4-Lá4-Re5 nas cordas II-III-II-I.
Ex.16 - Utilização de harmônicos naturais no arranjo de “22 de junho” descendentes no drop Sol4-Ré4-Lá3-Sol2 nas cordas I-II-III-IV (Ex.16a); e
ascendentes Ré4-Mi4-Lá4-Ré5 nas cordas II-III-II-I (Ex.16b) (Pascoal e Borém 2026b).
O drop, mencionado acima, é um gesto único e rápido do dedo 1 da mão direita, que faz soar os harmônicos
de oitava das cordas soltas I, II e III (Sol4, Ré4 e Lá3, respectivamente), arpejados com um toque da lateral
externa do dedo 4 da mão esquerda suavemente sobre as 3 cordas, do agudo para o grave (Ex.17).
Ex.17 - Técnica de drop no contrabaixo acústico: um gesto rápido do dedo 1 da mão direita
nas cordas I, II e III, fazendo soar os harmônios naturais de oitava Sol4, Ré4 e Lá3 com
a lateral do dedo 4 da mão esquerda.
O glissando foi utilizado amplamente e de várias maneiras no arranjo, três das quais são mostradas no Ex.18.
No início do arranjo, o glissando enfatiza a nota Mi, que é a dominante do tom de Lá menor e também a
nota focal da linha melódica, aparece em 4 oitavas. Temos (1) glissandos duplos (um ascendente e outro
descendente) sobre a mesma nota, um Mi4; (2) glissandos consecutivos descendentes para se chegar à nota
mais grave do contrabaixo (indo do Mi4 ao Mi3 à corda solta Mi2); e (3) um glissando ascendente para o Mi5
(c.1) para auxiliar na articulação e reverberação do pizzicato no registro super-agudo.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.18 - Glissandos duplos, consecutivos nos vários registros do contrabaixo, valorizando a
nota focal Mi em 4 oitavas no início do arranjo de “22 de junho” (Pascoal e Borém 2026b).
No c.10, foi utilizada uma sequência de glissandos curtos sincopados disparados pelo motivo da apojatura
rápida M4 (Ex.19), que também trazem a natureza escalar descendente do motivo M2. A prescrição de que
cada um seja tocado pelo mesmo dedo (dedo 2 ou dedo 3) permite que a corda não se afaste do espelho e,
assim, ressoe mais.
Ex.19 - Sequência de glissandos sincopados no arranjo de “22 de junho” tocados com o mesmo dedo (Pascoal e Borém 2026b).
No final do arranjo (c.17-19, Ex.20), também temos vários glissandos. Nos c.17-18, há um glissando
ascendente da nota presa Mi3 para o harmônico natural Lá3 na Corda III. No final do c.18, temos um glissando
de apojatura, com o dedo 3 no registro agudo fazendo Dó5-Si4. Já no início do c.19, temos o glissando Lá4-
Láb4 realizado com o dedo 1. Finalmente, no final do c.19, temos um glissando simultâneo com um
rasgueado. Este rasgueado arpeja dois bicordes de terças menores nas cordas I e II (Mi4-Sol4 progredindo
para Fá4-Láb4), explicitando a modulação súbita que Hermeto faz de Ré maior para Réb maior.
Ex.20 - Glissandos e rasgueado no contrabaixo em pizzicato no final do
arranjo de “22 de junho” (Pascoal e Borém 2026b).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
O rasgueado, uma técnica ornamental de notas rápidas típica do violão flamenco e exemplificada no
contrabaixo no Ex.20 acima, é realizada com os dedos 4, 3, 2 e 1, nesta ordem (Ex.21). É semelhante ao rulo
no contrabaixo, exceto pelo fato de ser articulada não com flexão dos dedos e punho, mas com extensão
dos dedos e, em menor grau, do punho.
Ex.21 - A técnica de rasgueado no contrabaixo acústico em pizzicato: o polegar segura os dedos 1, 2, 3 e 4 da mão direita que, tensionados,
são liberados um a um em movimento enérgico e rápido.
O Ex.22 mostra a partitura completa do arranjo de “22 de junho” para contrabaixo sozinho em pizzicato, que
pode ser tocada com ou sem acompanhamento. Uma performance deste arranjo com o primeiro coautor
deste artigo (Pascoal e Borém 2026b) encontra-se disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso.
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“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.22 - Partitura completa do arranjo para contrabaixo em pizzicato de “22 de junho”
(Pascoal e Borém 2026b). Disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
4. A parte de acompanhamento do contrabaixo em pizzicato
Para a versão do arranjo de “22 de junho” para dois contrabaixos,
7
o Contrabaixo 2 pode desempenhar duas
funções: (1) improvisar a linha do baixo harmônico a partir das cifras do manuscrito, acompanhando o solo
em arco do Contrabaixo 1; (2) improvisar um solo em pizzicato durante um chorus inteiro e, neste caso, ser
acompanhando pelo Contrabaixo 1 também em pizzicato, que pode também improvisar a linha do baixo
harmônico a partir das cifras ou, no caso dos contrabaixistas não-improvisadores (um perfil muito comum
entre músicos de orquestra, como é o caso do primeiro coautor), tocar uma linha previamente realizada e
anotada. A seguir, provemos 7 opções de Chorus de Aconpanhamento com a realização da linha harmônica
do baixo de acompanhamento em pizzicato (veja as partituras: um chorus nos Ex.23, Ex.24, Ex.25, Ex.27 e
Ex.28, e dois choruses no Ex.29), precedidos de uma breve análise.
A realização das cifras no Ex.23 (Chorus de Acompanhamento 1, Pascoal e Borém, 2026c) segue o ritmo
harmônico das cifras que aparecem dentro a métrica ternária ¾ no manuscrito de “22 de junho”, cujos
padrões predominantes são de 1 mínima pontuada (como nos c.1, 2, 5 e 21), 3 semínimas (como nos c.3, 6,
12 e 16), mínima + semínima (nos c.4, 7, 8, 9, e 17) e sequências de 4 ou mais colcheias (como nos c.11, 14,
15 e 19). Esta realização utiliza a tessitura de apenas duas oitavas e um tom: do Mi3 (a corda solta IV, nos
c.5-6) ao Fá#4 (no c.14, uma sétima maior na corda I), sem ultrapassar o registro do contrabaixo orquestral
mais comum. Um final alternativo nesta versão do Contrabaixo 2 é o compasso extra (c.21) que finaliza a
música após o Contrabaixo 2, reforçando a guinada tonal de Ré maior para Ré bemol maior no c.20. Esta
versão utiliza elementos expressivos como iniciar a música com um hammer on
8
na corda solta Sol (Sol-Lá)
com vibrato funk
9
, seguido de um pull off também na Corda Sol (Lá-Sol).
7
Uma gravação digna de nota de música do “Calendário do som” foi realizada pelo contrabaixista norte-americano Colin Corner
(Pascoal e Corner, 2025), na qual ele toca o tema de “14 de abril” seguido de uma improvisação no contrabaixo acústico com
arco, sendo acompanhado por ele próprio tocando o contrabaixo elétrico e por uma bateria pré-gravada que ele também
realizou.
8
No pizzicato, o efeito hammer on em duas notas ligadas no contrabaixo é obtido tocando-se forte a primeira nota (em corda
solta ou corda presa) que é seguida de uma nota mais aguda (em geral um semitom ou um tom) com a articulação forte e
martelada (daí o nome hammer on) com um dedo da mão esquerda sem utilizar a mão direita.
9
O vibrato funk é um vibrato em que o dedo da mão esquerda que vibra, ao invés de fazer o movimento de vai-e-vem,
pivotando ao redor de uma nota, esfrega a corda rapidamente no seu sentido longitudinal, resultando em uma alteração mais
profunda da frequência da nota.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.23 - Chorus de Acompanhamento 1 com realização das cifras de acompanhamento de “22 de junho”,
seguindo padrões do ritmo harmônico do original no manuscrito (Pascoal e Borém 2026c).
Disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso
A realização das cifras no Ex.24 (Chorus de Acompanhamento 2, Pascoal e Borém 2026d) é mais virtuosística
no sentido de ter uma atividade rítmica maior, utilizar figuras mais ágeis (as apojaturas nos c.8-11), e um
número maior de notas cromáticas (como nos c.1-3 e c.10), arpejos (como no c.12-13), glissandos simples
(como no c.1 ou c.7), longo (como no c.17 para marcar a repetição do chorus) ou em sequência (como no
c.4, descendente e ascendente) e saltos de perfil melódico mais entrecortados, como a sequência de 5as
justas no c.5 (Lá3-Mi3, Sol3-Ré3 e Fá3-Dó2) ou a sequência de grande intervalos descendentes, como no c.19:
sétima menor (Mib4-Fá3), nona maior (Ré4-Dó3) e sétima menor (Dó4-Ré3).
Ex.24 - Chorus de Acompanhamento 2 com realização das cifras de acompanhamento de “22 de junho”: maior virtuosismo
com tessitura mais ampla, cromatismo (em vermelho), saltos (em azul), apojaturas (em amarelo), e arpejos (em verde)
(Pascoal e Borém 2026d). Disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
A realização das cifras no Ex.25 (Chorus de Acompanhamento 3, Pascoal e Borém, 2026e) é a mais
virtuosística. Dentro da métrica ¾ há a inclusão vários padrões rítmicos de acentuação binária (trechos em
verde, nos c.1-2, c.5-6, c.-78, e c.12-13) o que torna o contraponto entre o Contrabaixo 1 e o Contrabaixo 2
mais desafiador para o ouvinte. Do ponto de vista melódico, foi utilizado um intenso cromatismo de notas
não-harmônicas com sequências de 3 ou mais notas descendentes (notas em vermelho, nos c.1-2, c.3, c.5,
c.8, e c.18-19) ou ascendentes (notas em rosa, nos c.2-3, c.6-7, e c.9-10). Depois, aparece o padrão
recorrente de apojaturas com 2 notas cromáticas ascendentes ou descendentes (notas em roxo, nos c.10,
c.10-11, c.12, c.13, c.14-15, c.15-16, e c.20).
Ex.25 - Chorus de Acompanhamento 3 com realização das cifras de acompanhamento de “22 de junho”: sugestão da
métrica binária (2/4 em verde) dentro da métrica ternária (3/4), cromatismos simples (em roxo), sequências de cromatismos descendentes
(em vermelho), e sequências de cromatismos ascendentes (em rosa) (Pascoal e Borém 2026e). Disponível no Youtube em
https://youtu.be/5U9DrSPklso
Para a realização das linhas de acompanhamento de forma improvisada ou criadas no momento, o
contrabaixista utiliza as cifras dos acordes como guia e, através de uma escuta atenta durante a
performance, faz escolhas quanto às notas (as tônicas dos acordes são priorizadas), registros, articulações e
dinâmicas. Tais escolhas são realizadas de acordo com as interações musicais entre os músicos no momento
da performance, e com base em fundamentos musicais, como o estilo e o gênero do tema. No caso do tema
de “22 de Junho”, a análise do manuscrito em forma de partitura e de gravações, especialmente a versão ao
vivo do grupo Itiberê Orquestra Família (2007), revelaram duas abordagens de acompanhamento. A primeira
possui um caráter de balada em compasso ternário, lenta, dramática e intimista, com menos movimento
rítmico. A segunda abordagem apresenta um acompanhamento no gênero marcha-rancho ternário.
A marcha-rancho é um gênero musical brasileiro tipicamente carnavalesco, que foi criado no final do século
XIX. De acordo com João Marcondes (2026), trata-se de um gênero de compasso binário ou quaternário, de
andamento mais lento e geralmente em tonalidade menor. Pode-se dizer que é uma vertente mais
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
nostálgica e sentimental da música carnavalesca do Brasil. O gênero recebeu esse nome devido a sua relação
direta com a marcha militar européia e, a palavra rancho designa um bloco de foliões reunidos para brincar
o carnaval.
O Ex.26 mostra uma comparação entre as subdivisões de células rítmicas da marcha-rancho em compasso
quaternário e, o que nos interessa aqui, uma variação em compasso ternário. Cada excerto contem duas
vozes: 1) Na linha de cima, temos a subdivisão rítmica em semicolcheias, que geralmente é tocada pela
percussão ou bateria; 2) Na parte grave, temos a linha de acompanhamento do contrabaixo em semínimas.
No compasso quaternário, original da marcha-rancho, percebe-se que há ênfase na primeira e quarta
semicolcheias do tempo 1, na terceira semicolcheia dos tempos 2 e 3 e, por fim, na primeira semicolcheia
do tempo 4. Isto gera a imparidade rítmica 3+3+4+2+4. O acompanhamento do contrabaixo é realizado por
semínimas em cada tempo dos compassos, com uma leve ênfase no tempo 4.
No caso da marcha-rancho em compasso ternário (também no Ex.16), que pode ser chamada de valsa-
rancho, há ênfase na primeira e quarta semicolcheias do tempo 1, na terceira semicolcheia do tempo 2 e,
por fim, na primeira semicolcheia do tempo 3. Isto gera a imparidade rítmica 3+3+2+4. No compasso
ternário, o contrabaixo mantém as semínimas, mas dessa vez a ênfase encontra-se no tempo 3. Dessa forma,
percebe-se que a ênfase no ultimo tempo dos compassos faz parte da característica estilística de
acompanhamento da marcha-rancho. Em princípio, o contrabaixista não realiza as subdivisões em
semicolcheias. Entretanto, ele precisa sentí-la internamente para que o suingue do acompanhamento soe
de acordo com a linguagem estilística deste gênero.
Ex.26 - Padrões de acompanhamento do contrabaixo (semínimas na parte inferior das pautas) no estilo da marcha-rancho
(com a imparidade rítmica 3 + 3 + 4 + 2 + 4) e na valsa-rancho (com a imparidade rítmica 3 + 3 + 2 + 4), observadas em realizações de lead
sheets de Hermeto Pascoal em performances de Itiberê Zwarg e Itiberê Orquestra Família (2007).
No Ex.27 (Chorus de Acompanhamento 4) observa-se uma realização do acompanhamento no estilo de
valsa-balada. Nessa abordagem, o contrabaixo possui a função de apoiar os acordes das cifras com notas
longas, diminuindo a movimentação rítmica e valorizando os espaços para que melodia e harmonia se
sobressaiam. O contrabaixista fica livre para fazer escolhas de articulação, dinâmica e registro. A realização
dessa linha uma oitava acima, por exemplo, pode gerar um resultado mais dramático e expressivo ao
acompanhamento. Entretanto, mesmo com figuras rítmicas mais longas, as semínimas no tempo 3 dos
compassos são mantidas tanto para enfatizar os acordes, e sugerir o caráter de marcha-rancho do tema.
Note-se também que, devido a ocorrência de três acordes nos c.3, 10, 11, 13, 15 e 16, há a necessidade da
realização de três semínimas por compasso.
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“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Ex.27 - Chorus de Acompanhamento 4 com realização das cifras de acompanhamento de “22 de junho”
no estilo da valsa-rancho (Pascoal e Souza 2026a). Disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso
O Ex.28 (Chorus de Acompanhamento 5), mostra a realização de um chorus de acompanhamento com a
abordagem no estilo valsa-rancho (ou marcha-rancho ternária). Nesse caso, o contrabaixista acompanhador
toca semínimas em todos os tempos dos compassos e há uma leve ênfase nas notas do tempo 3, de acordo
com a característica estilística da marcha-rancho observada acima. Nessa abordagem, o acompanhador pode
fazer escolhas como notas, registros e dinâmicas. Entretanto, as escolhas de articulação se tornam mais
limitadas, já que as semínimas soam melhor se tocadas em tenuto, ou seja, precisam durar seu valor
completo.
Ex.28 - Chorus de Acompanhamento 5 com realização das cifras de acompanhamento de “22 de junho”
no estilo da valsa-rancho, somente com semínimas e leve ênfase no terceiro tempo de cada
compasso (em vermelho) (Pascoal e Souza 2026b). Disponível no Youtube em https://youtu.be/5U9DrSPklso
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
Finalmente o Ex.29 mostra o Chorus de Acompanhamento 6, o Chorus de Acompanhamento 7 e a Coda ne
realização do acompanhamento do Contrabaixo 1, utilizados na performance do arranjo para dois
contrabaixos durante o Congresso da ABRAPEM Performus’26, realizado em Belo Horizonte no dia 24 de
setembro, 2026.
Ex.22 - Chorus de Acompanhamento 6, Chorus de Acompanhamento 7 e Coda na realização das cifras para o arranjo de “22 de junho”
(Pascoal e Borém 2026f), utilizado na performance durante o congresso Performus’26 da ABRAPEM. Disponível no Youtube em
https://youtu.be/5U9DrSPklso
Ex.30 - Forma do arranjo (Intro - Chorus 1- Chorus 2 - Chorus 3 - Coda) para dois contrabaixos de “22 de junho”, de Hermeto Pascoal,
baseado nos motivos M1, M2, M3, M4, M5, M6, com realização das cifras de acompanhamento, tema e melodias improvisadas.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
5. Conclusão
Neste estudo, apresentamos as estratégias de escrita e performance de um arranjo da música “22 de junho”,
de Hermeto Pascoal, para contrabaixo acústico em duas versões: sem acompanhamento (em arco ou
pizzicato), ou como um duo de contrabaixos. A concepção composicional do arranjo partiu da utilização dos
três motivos recorrentes de Hermeto no manuscrito original (M1, M2 e M3) e de três células, cujas presenças
são apenas pontuais no manuscrito, mas que foram transformadas em motivos recorrentes (M4, M5 e M6).
O arranjo para contrabaixo com arco explora o lado virtuosístico do instrumento dentro da música de
concerto, cuja escrita idiomática inclui a performance nos 5 registros do instrumento (sub-grave, grave,
médio, agudo e super-agudo), utilização planejada das ferramentas expressivas vibrato e glissando, e efeitos
instrumentais como uso de harmônicos naturais e cordas soltas, além da adição de dinâmicas e diversos
tipos de articulação.
Já o arranjo de “22 de junho” para duo de contrabaixos, combina a música de concerto com práticas no
contrabaixo na música popular, mistura que busca explicitar os contrastes destas duas tradições: a
obediência à partitura versus a liberdade de criação composicional na performance; arco versus pizzicato,
virtuosismo versus improvisação. Com estes arranjos no estilo crossover, esperamos ampliar o repertório do
contrabaixo na música brasileira e facilitar o acesso dos contrabaixistas à música genial de Hermeto Pascoal,
cuja trajetória do nascimento ao falecimento, passando pela longa carreira. vai do “Menino Sinhô”, ao
“Campeão”, ao “Bruxo das Alagoas”.
6. Referências de Texto
ABREU, Felipe José; DIZ, Victor; ALEFE, Wandrian; FREIRE, Sérgio. 2024. Uma abordagem para o uso de
acordes na música de Hermeto Pascoal: ferramentas tecnológicas aplicadas ao tema #143 do
Calendário do Som. Anais do 34o Congresso da ANPPOM. Salvador: UFBA.
In: https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2024/papers/2509/public/2509-10477-1-
PB.pdf
BIANCHI, Leonor; MORENA, Aline. 2025. Hermeto Pascoal e a poiesis em harmonia.
In: https://revistadochoro.com/entrevistas/
BORÉM, Fausto. 2023. Extraction, analysis, and application of quantitative data in the mAAVm (Method for
the Analysis of Audios and Videos of Music). Belo Horizonte, Brazil: UFMG. p.1-8. (Research Project
developed at Schulich School of Music, McGill University).
BORÉM, Fausto. 2018. mAAVm: um Método de Análise de Áudios e Vídeos de Música e suas Ferramentas.
Belo Horizonte: UFMG (Research project approved by CNPq), p.1-28.
BORÉM, Fausto. 2015. Reflexos editoriais das práticas de performance: as lições e modinhas de Lino José
Nunes (1789-1847). Debates - Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Música, v.14, p.52-74. Rio
de Janeiro: Unirio. In: https://seer.unirio.br/revistadebates/article/view/5148.
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
BORÉM, Fausto; ARAÚJO COSTA, Fabiano. 2010. Hermeto Pascoal: experiência de vida e a formação de sua
linguagem acadêmica. Per Musi, n.22, p.22-43. Belo Horizonte: UFMG.
In: https://doi.org/10.1590/S1517-75992010000200003
BORÉM, Fausto; FREIRE, Maurício. 2010. Cannon de Hermeto Pascoal: aspectos musicais e religiosos em uma
obra-prima para flauta. Per Musi, n.22 (julho). Belo Horizonte: UFMG, p.1-17.
In: https://doi.org/10.1590/S1517-75992010000200005
MARCONDES, João. 2026. O Que É Marcha-Rancho? Postado por Blog, Notícias, Novidades Souza Lima na
série Estudo, Gênero Musical by João Marcondes, em 8 de setembro, 2026.Disponível
In: https://souzalima.com.br/blog/o-que-e-marcha-rancho/.
RODRIGUES, Mauro; BORÉM, Fausto. 2026. De-“cifrando” uma música inédita de Hermeto Pascoal: insight
e formatividade em tempo real na composição de “Esta é uma Eterna Noite”. Per Musi, v.27. Sesso
temtica: Hermeto Pascoal – 90 anos de Sons. Belo Horizonte: UFMG.
7. Referências de partituras
PASCOAL, Hermeto. (2000). Calendário do som. Nota de Luiz Francisco de Assis Salgado, apresentação de
Sérgio Cabral e prefácio de Hermeto Pascoal. São Paulo: Instituto Cultural Itaú. (livro com 366
partituras manuscritas)
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026a). 22 de junho: arranjo para o nascimento, vida e morte de
Hermeto Pascoal, para contrabaixo acústico com arco. Hermeto Pascoal (compositor), Fausto Borém
(arranjador). Belo Horizonte: Edição do arranjador (partitura manuscrita com duas páginas).
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026b). 22 de junho: arranjo para contrabaixo em pizzicato. Hermeto
Pascoal (compositor), Fausto Borém (arranjador). Belo Horizonte: Edição do arranjador (partitura
manuscrita com 2 páginas).
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026c). 22 de junho (Chorus de Acompanhamento 1, para contrabaixo
em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Fausto Borém (arranjador). Belo Horizonte: Edição do
arranjador (partitura manuscrita com 1 página).
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026d). 22 de junho (Chorus de Acompanhamento 2, para contrabaixo
em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Fausto Borém (arranjador). Belo Horizonte: Edição do
arranjador (partitura manuscrita com 1 página).
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026e). 22 de junho (Chorus de Acompanhamento 3, para contrabaixo
em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Fausto Borém (arranjador). Belo Horizonte: Edição do
arranjador (partitura manuscrita com 1 página).
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. (2026f). 22 de junho (Chorus de Acompanhamento 6, Chorus de
Acompanhamento 7 e Coda, para contrabaixo em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Fausto
Borém (arranjador). Belo Horizonte: Edição do arranjador (partitura manuscrita com 1 página).
PASCOAL, Hermeto; SOUZA, Pablo. (2026a). 22 de junho, Valsa-Balada (Chorus de Acompanhamento 4, para
contrabaixo em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Pablo Souza (arranjador). Belo Horizonte:
Edição do arranjador (partitura manuscrita com 1 página).
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
PASCOAL, Hermeto; SOUZA, Pablo. (2026b). 22 de junho, Marcha-Rancho, Ternário (Chorus de
Acompanhamento 5, para contrabaixo em pizzicato). Hermeto Pascoal (compositor), Pablo Souza
(arranjador). Belo Horizonte: Edição do arranjador (partitura manuscrita com 1 página1).
8- Referências de Áudio
PASCOAL, Hermeto; BORÉM, Fausto. 2026. Fausto Borém toca seu arranjo para contrabaixo solo de "22 de
junho", de Hermeto Pascoal. Hermeto Pascoal (composição); Fausto Borém (contrabaixo acústico e
arranjo). Vídeo de 4 minutos e 49 segundos postado por Fausto Borem em 16 de julho de 2026.
In: https://youtu.be/5U9DrSPklso
PASCOAL, Hermeto; CARMO, Fábio do. (2011) 22 de junho. Hermeto Pascoal (composição); Fábio do Carmo
(violão). Áudio de 1 minuto e 51 segundos postado por Fábio do Carmo em 27 de junho de 2011.
In: https://youtu.be/GHt_WtLB6F0?si=w1fmkIYcaYalcmMA
PASCOAL, Hermeto; CORNER, Colin. (2025) #296 (April 14th) from Calendario do Som by Hermeto Pascoal.
Hermeto Pascoal (composição); Colin Corner (contrabaixo acústico, contrabaixo elétrico, bateria pré-
gravada e arranjo). Vídeo de 3 minutos e segundos postado por Colin Corner em 14 de abril de 2025.
In: https://youtu.be/wgp5wNMuNt8?si=geStDNaTF-u9ltsC
PASCOAL, Hermeto; HAICK, Sandro; ESPÍRITO SANTO, Thiago (2021) 22 De Junho. Hermeto Pascoal
(composição), Sandro Haick (guitarra), Thiago Espírito Santo (contrabaixo elétrico e arranjos) e
convidados. Faixa do disco “Tudo de bom sempre: Celebrating the music of Hermeto Pascoal, Lost
tapes 2000”. Áudio de 2 minutos e 52 segundos postado por Sandro Haick-Tema. Em 29 de janeiro de
2021. In: https://youtu.be/5FiY5JcfJ9g?si=B1TINPE0kbmh0E0N
PASCOAL, Hermeto; KLEINMANN, Rebecca; EIGSTI, Taylor. (2022) 22 de Junho ~ Hermeto Pascoal. Hermeto
Pascoal (composição), Rebecca Kleinmann (fauta), Taylor Eigsti (piano). Vídeo de 2 minutos e 52
segundos postado por Rebecca Kleinmann em 22 de junho de 2022, gravado em Durham, North
Carolina. In: https://youtu.be/rJ73KTLEmO0?si=UiGrGNg8ypU4iGau
PASCOAL, Hermeto; MAIA, Paulo; SARTORE, Beatriz; EBERLE, Ana Luisa;
ANDERSON, Eder; SEMENTILI, Guilherme. (2015) Paulo Maia - 22 de Junho - Calendrio do Som -
Hermeto Pascoal - Piano e Coral. Hermeto Pascoal (composição), Paulo Maia (piano, arranjo e
regência), Beatriz Sartore (voz soprano), Ana Luisa Eberle (voz contralto), Eder Anderson (voz tenor),
Guilherme Sementili (voz baixo). Vídeo com fotos, imagens de partitura, e Hermeto Pascoal
escrevendo dedicatória com duração de 2 minutos e 52 segundos postado por Paulino Maia em 12 de
junho de 2015. In: https://youtu.be/aZP7hIpIZD4?si=IHSHaX4xyCCHtP7e
PASCOAL, Hermeto; PANSICA, Rafael. (2016) "22 de Junho" (Hermeto Pascoal) | Rafael Pansica. Hermeto
Pascoal (composição); Rafael Pansica (violão de 7 cordas). Gravado durante o XVI Prêmio BDMG
Instrumental no show Tributo à Hermeto Pascoal, no Teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, em
Belo Horizonte. Vídeo de 2 minutos e 27 segundos postado por Rafael Pansica em 13 de dezembro de
2016. In: https://youtu.be/rZu3UNBcJO0?si=ZDbu4fc9EOmcJD55
PASCOAL, Hermeto; ZWARG, Itiberê; ORQUESTRA FAMÍLIA (2007)
22 de Junho. Hermeto Pascoal (composição); Itiberê Zwarg (arranjo e regência); Itiberê Orquestra
Família (performance). Vídeo de 3 minutos e 56 segundos postado por itiberêorquestra em 22 de
Per Musi | Belo Horizonte | v.27 | Seção temática: Hermeto Pascoal – 90 anos de Sons | e262724 | 2026
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Borém, Fausto; Souza, Pablo. Homenagem ao nascimento, vida e morte de Hermeto Pascoal: um arranjo idiomático de
“22 de junho” para contrabaixo acústico.
fev. de 2007. Gravado na Sala Baden Powell RJ em 2006 durante concerto comemorativo dos 70 anos
de Hermeto Pascoal. In: https://youtu.be/vsLc5yonWHg?si=I3fjMQNgHFrv-CNE
VELOSO, Caetano. 1984. Podres poderes. Faixa 1 do disco “Velô”. Com Caetano Veloso (composições, voz e
violão), Ricardo Cristaldi (Teclados), Toni Costa (Guitarra), Tavinho Fialho (Baixo), Marcelo Costa
(Bateria), Marçal (percussão), Zé Luís (saxofone e flauta): Elza Soares (vocais na faixa "Língua"), Ritchie
(vocais na faixa “Shy Moon”). Rio de Janeiro: Estúdios Barra-RJ (Polygram).