n. 36 (2017): Early Music

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Fausto Borém

Fundador e Editor Chefe

                       

Iara Fricke Matte, Maria Cecília de Miranda N. Coelho e Silvana Scarinci     

Editoras Associadas de Música Antiga

Nesta primeira leva de artigos de Per Musi 2017, privilegiamos práticas e reflexões da música antiga historicamente informada. Os artigos foram selecionados entre submissões livres ou inspirados pela IV Semana de Música Antiga da UFMG - Bizzarie Alegórica, ocorrida em Belo Horizonte entre os dias 20 e 29 de setembro de 2013, onde  artistas e pesquisadores de 15 países (Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Japão, Noruega, Portugal e Suíça) e 6 estados brasileiros (MG, PR, RS, RJ, SC e SP) evocaram em suas performances e reflexões, expressões artísticas e considerações inusitadas e instigadoras sobre música antiga, demonstrando a atemporalidade de suas temáticas.

 

Estes artigos exploram o ethos e a gênese da música antiga sob uma perspectiva interdisciplinar e dialética, contemplando aspectos teóricos, culturais, filosóficos, musicais, críticos e educacionais, que modulam a “harmonia intelectual, vida moral e elegância artística” (veja Explanação de Fábio Vergara Cerqueira em seu artigo nesta publicação), e discutem a própria função da arte na sociedade. Abordam a estreita e intrínseca relação entre poesia e música e a transformação da linguagem musical e poética. No universo da música vocal profana, observa-se o percurso de distanciamento da monodia, a aproximação da polifonia e o retorno à monodia. Já na poesia, há o movimento gerado primeiramente pelo enaltecimento às formas fixas, depois pela busca de formas mais livres e lacônicas, do poema sério ao epigramático. A relação texto-som é analisada sob diversos ângulos, resultando em olhares que evocam a interdependência entre poesia e música, visões que questionam a supremacia de uma sobre a outra, observações que apontam para a “dissipação semântica” provocada, entre outras coisas, pela “dissociação afetiva da fonética e da língua” (veja mais sobre estes dois termos no artigo de Gary Tomlinson), e considerações acerca da força do stylus phantasticus que liberta a música instrumental, considera seus aspectos idiomáticos e a emancipa do texto poético.

 

Em Consider the Madrigal, Gary Tomlinson parte de instigantes questões. Porque os madrigais existiram? Porque existem tantas publicações de madrigais e quem era o público a que ele era dirigido? Quem cantava estas obras, já que muitas delas alcançaram um grau de sofisticação muito alto para amadores? O autor acaba demostrando que a relação texto-música no madrigal ultrapassa, e muito, o que entendemos por “madrigalismo”, e que a linguagem musical possibilita muitas nuances expressivas que estão para além do texto literário, criando um espaço reflexivo entre música e texto que extrapola, inclusive, as referências semântica e fonética.

 

Giambattista Marino tem sido um poeta mal compreendido pelos críticos e Barbara Cipollone alinha-se aos poucos musicólogos que recentemente buscam sua reabilitação. Em seu estudo, a autora aborda exemplos do vasto repertório musical seiscentista que se utilizou dos poemas do autor da meraviglia. Aliando a análise literária aos princípios da prática de performance histórica, Cipollone incita intérpretes a mergulharem de forma mais culta em seu repertório, propondo uma reconciliação, a nosso ver, urgente e necessária, entre a musicologia e a interpretação artística.

 

Edoardo Sbaffi discute a autoria do Concerto per Violoncello Obligato con Violini e Basso Dell Sigre, atribuído ao tenor, compositor e copista lisboeta António Pollicarppi. A partir de duas caligrafias contidas manuscrito, Sbafii apresenta e propõe uma interpretação historicamente informada desta rara obra do violoncelo solista português.

 

No artigo Abordando os Modulierende Präludia de W. A. Mozart, Edmundo Hora exemplifica e discorre sobre a prática da experimentação sonora e improvisação tecladista que marca os séculos XVII e XVIII, aponta para a retomada da gênesis desta prática no final do século XVI, e discorre sobre sua perpetuação após a inusitada proposta Mozartiana.

 

Fábio Vergara Cerqueira nos convida a compreendermos aspectos fascinantes do universo musical grego, sua importância na educação ou na vida cotidiana e a forte carga simbólica ligada com sua prática. Ele retoma mito e filosofia ao traçar um panorama sobre a música grega antiga, e enfoca a sua relevância cultural em seu contexto original e, sobretudo, na singularidade dos aspectos fantásticos a ela ligados, revelando, ao mesmo tempo, suas dimensões simbólicas no imaginário grego.

 

Fátima Costa de Lima discute a censura da representação artística. Para tanto, retoma as pesquisas de Walter Benjamin sobre o teatro barroco e a modernidade e analisa duas alegorias proibidas de desfilar no Carnaval brasileiro: o Cristo Mendigo de Joãosinho Trinta (escola de samba Beija-Flor, 1989) e o Carro do Holocausto de Paulo Barros (escola de samba Viradouro, 2008).

 

Thiago Saltarelli visita a poesia e a música seiscentistas, à luz da alegoria teológica da retórica latina medieval e a concessão ao inverossímil da retórica helenística bizantina, visando clarificar a relação entre as categorias de agudeza e stravaganza através do conceito de mímesis.

 

Silvana Scarinci propõe que para as primeiras obras dramático-musicais, e em especial para L’Orfeo de Monteverdi, as Metamorfoses de Ovídio forneceram modelos e ferramentas para os compositores criarem seus personagens. Orfeu foi escolhido pelo potencial alegórico do poeta-cantor, utilizado para legitimar o novo gênero artístico. Esta escolha, no entanto, entrava em conflito direto com os conceitos de tragédia e mímeses aristotélicos, em que os personagens deveriam ser dotados de subjetividade própria. A autora explica como o compositor supera a tensão entre alegoria e mímeses, servindo-se de uma vasta e expressiva gama de procedimentos técnicos para o sucesso de sua criação.

 

Abordando a melancolia na Inglaterra barroca, Juliana Vasques e Mônica Isabel Lucas analisam a retórica deste afeto na música de John Dowland, especialmente a estranheza causada pelo cromatismo sistemático na quinta das Sete Lágrimas, a pavana Lachrimae Coactae para alaúde e cordas (gambas ou família do violino), peça que sintetiza o estágio mais profundo deste sentimento na alma.

 

Na sua revisão de literatura sobre a estética vocal do final da renascença e início do barroco, Iara Fricke Matte discorre sobre aspectos que ajudam a definir a sonoridade vocal, entre eles, a estética musical do período, a língua materna e o uso de ornamentação, apontando para um novo entendimento da produção para a voz cantada nestes períodos, onde toda extensão vocal é utilizada, resguardando as cores particulares de cada registro.

Publicado: 2017-05-09