
Trabalho & Educação | v.28 | n.2 | p.15-50 | maio-ago | 2019
Ele também exerce forte influência na formação de adultos, e de certo modo, estrutura
todo pensamento da transmissão cultural em educação. Numerosas pesquisas
propuseram modelizações e análises empíricas acerca da transposição didática,
levantando questões relacionadas à natureza do que se ensina aos alunos e aos meios
para que seja aprendido. Estendidas à disciplinas não fundamentadas em um corpo de
saberes abstratos e formalizados, tais como a matemática, resultou a noção
complementar de prática de referência enquanto fonte do processo de transposição
didática (Martinand, 1986), e um debate relacionado a referências a saberes
especializados, com cientificidade menos certa do que as disciplinas científicas, porém
que satisfazem critérios de eficiência e de compartilhamento entre atores competentes
(Joshua, 1996).
Tal reflexão não visa transmitir no presente texto esta literatura. Dela destacamos apenas
um aspecto: a ambiguidade de sua orientação pragmática. Deste modo, enquanto trata-
se de ensino escolar, separado – repetimos – das práticas cotidianas, Chevallard (1997)
propõe uma visão designada de antropológica e praxeológica. Com uma argumentação
rigorosa, o autor enuncia que a transposição didática, longe de ser limitada à escola, seria
inerente a todo projeto de ensino, e a didática envolvida em toda situação de estudo que
coloca ipso facto o que o autor chama de problema curricular. Para ele, uma ação, seja
qual for, é a expressão de uma praxeologia ou organização praxeológica que responde
à pergunta: « como fazer para...? ». Esta organização praxeológica é voltada para a
ação; ela é constituída por um modo de fazer mais amplo que esta ação, isto é, de uma
técnica. Esta técnica não seria mais que um saber ou uma receita se ela não decorresse
de uma tecnologia, ou seja, de um discurso racionalizado que a torna inteligível e a
justifica, ao qual é associada uma teoria que esclarece bem como justifica o discurso
tecnológico.
Segundo tal perspectiva, toda ação humana procede de um saber; ela é uma praxis que
expressa uma praxeologia relativamente complexa. Esta concepção geral e geradora
abre-se potencialmente para o que Chevallard nomeia de « pequenos saberes », de
« saberes populares » ou de « saberes do cotidiano »
. A transposição didática é a
difusão de organizações praxeológicas locais, que pode se dar pela prática e pela
aprendizagem em serviço, bem como pelo estudo em instituições educativas. Ela não se
reduz assim à forma escolar, já que está presente em situações didáticas ditas « fracas ».
As situações cotidianas e notadamente de trabalho são tecidas por interações didáticas
evanescentes, que se inserem no decorrer da atividade corriqueira; são espisódios
Se toda ação procede de um saber, então caminhar na rua, subir uma escada, carregar um bebê, despedir-se de um profissional com o
qual finalizamos um trabalho são igualmente tarefas reenviando à saberes específicos. Os saberes estariam assim por todo lado, dando
forma aos gestos os mais ordinários, organizando práticas cotidianas e não somente práticas particulares exprimindo saberes abstratos,
complexos, e dificilmente apropriáveis. São estes saberes que são denominados « pequenos saberes », « saberes populares » ou
« saberes do cotidiano ». A gente não pode então definir à priori isto que é saber e isto que não o será. Se não é possível caracterizar os
saberes de uma maneira intrínseca, Chevallard enumera, mesmo assim, alguns dos traços que podemos atribuir aos saberes. Para ele, o
bloco tecnológico-teórico deve notadamente aparecer, não como uma criação oportunista visando justificar especificamente tal bloco pratico-
técnico particular, mas como possuindo ao contrário uma forte generatividade, e permitindo engendrar técnicas, justificações, explicações,
« conhecimentos » relativamente à um conjunto vasto de diversas tarefas. Em certas abordagens teóricas, são estes « saberes do
cotidiano » que constituem « modelos do saber humano ». Estas abordagens recusam o fato que possa haver aí saberes não engajados
nas práticas sociais e « não cotidianas ».