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DOI: https://doi.org/10.35699/2238-037X.2022.38580
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
SOFRIMENTO NO TRABALHO E ESTRATÉGIAS DOS PROFESSORES
CONTRA O ADOECIMENTO PSÍQUICO
1
Suffering at work and teachers strategies against psychic illness
CAMPOS, Marlon Freitas de
2
.
VIEGAS, Moacir Fernando
3
RESUMO
Tendo como base estudo realizado com docentes da rede blica estadual que trabalham em uma
cidade de porte dio da região Sul do estado do Rio Grande do Sul, o artigo discute o prazer e o
sofrimento no trabalho, destacando, em especial, as estragias de defesa e as estratégias de
enfrentamento desenvolvidas pelas professoras para atenuar o sofrimento. O artigo se justifica pela
necessidade de ampliação e aprofundamento de pesquisas que busquem compreender os
mecanismos mobilizados pelos trabalhadores para suportar e enfrentar os efeitos degradantes do
trabalho em sua saúde mental. Apoiado na teoria da Psicodimica do Trabalho e na perspectiva
histórico-crítica da educação, o estudo centrou-se nos mecanismos mentais ou comportamentais,
conscientes ou inconscientes, que, frente às caractesticas do trabalho produtoras de sofrimento,
denotam a participação ativa dos sujeitos na defesa da preservação de sua sde mental e sua luta
contra a descompensão pquica. A pesquisa teve cater qualitativo e contou com a participação de
seis professoras e um professor que foram entrevistados de forma individual. A discussão dos dados
tomou como base o método da análise de contdo. Os resultados da pesquisa revelam estragias
elaboradas para preservar a saúde mental, tais como a negão, a autorepressão e a rotinização,
caracterizadas como estratégias de defesa, e os pequenos afastamentos e estragias de geso do
tempo, como estragias de enfrentamento.
Palavras-chave: Trabalho e educação. Trabalho docente. Psicodimica do trabalho.
ABSTRACT
This research is Based on the study carried out with teachers from the State public schools’ located in a
medium-size city in the south region of Rio Grande do Sul’s State. This article focuses on discussing
delight and suffering at work, emphasizing the defense and coping strategies developed by teachers to
relieve suffering in the work place. The article shows it importance by the need to expand and deepen
the research that seeks to understand the defense mechanisms utilized by the workers to withstand and
face the degrading effects of work on their mental health. Supported by the ‘Work’s Psychodynamic’
theory and by the historical-critical perspective of education, this study focuses on conscious or
unconscious mental and behavioral mechanisms that when faced to suffering characteristics at work,
imply active participation of the subjects in the defense of their mental health in their struggle against
psychic decompensation. This research had qualitative and quantitative character and counted on the
participation of six female teachers and one male teacher that were interviewed individually. The data
discussion is based in the content analysis method. The research results revealed denial, self-repression
and routinization as mental health defense strategies designed to promote self-preservation while
withdrawals and time management strategies were identified as coping strategies.
Keywords: Work and education. Teaching work. Psychodynamic of Work.
1
Este artigo, totalmente inédito, é resultante de estudo, tendo recebido apoio, para sua realização, do Programa de Suporte
à Pós-Graduação de Instituões de Ensino Particulares (PROSUP/CAPES).
2
Mestre em Educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul; Doutorando no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
3
Mestre e Doutor em Educação, com Pós-Doutorado em Psicologia do Trabalho pela Universitat Atónoma de Barcelona.
Professor Adjunto na Universidade de Santa Cruz do Sul. Coordenador do grupo de pesquisa Trabalho Docente, Cuidado
e Classe Social.
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INTRODUÇÃO
Estudos sobre a saúde docente têm evidenciado o aumento do sofrimento e do
adoecimento dos professores, realidade que carrega consigo a ampliação do número de
casos de transtornos mentais e comportamentais, tidos como os principais motivos de
afastamento por Licença Saúde neste grupo profissional (CARLOTTO et al., 2019;
NEVES; BRITO; ATHAYDE, 2014; VIEIRA et al., 2010). Dados sobre a rede de ensino
estadual de o Paulo revelam que o número de afastamentos por transtornos mentais
ou comportamentais no ano de 2016 foi o dobro do verificado no ano anterior, chegando
a 50.046 (ARCOVERDE et al., 2015). Já na rede de ensino municipal da capital paulista
foram concedidos, em 2018, 62 afastamentos diários por problemas ligados à saúde
mental, especialmente relacionados a estresse, depressão, ansiedade e síndrome do
pânico (CARDOSO, 2019).
Embora seja difícil determinar as causas que levam ao desencadeamento dos
transtornos mentais, uma vez que possuem uma etiologia multicausal em que conjuntos
de diversos fatores interagem de modo complexo (CARLOTTO et al., 2019, p. 27), o
fato é que, no caso do trabalho docente, as condições e a organização do trabalho
apresentam estressores que contribuem para o adoecimento psíquico. Problemas como
intensificação, sobrecarga, desvalorização, ausência de reconhecimento e alta demanda
cognitiva caracterizam o trabalho docente (CARLOTTO et al., 2019; SOUZA;
FERNANDES; FILGUEIRA, 2015; HARGREAVES, 1996), colocando em risco a saúde
dos professores.
No entanto, em acordo com a teoria da Psicodinâmica do Trabalho (PdT), consideramos
que estes aspectos não determinam por si só o adoecimento mental (DEJOURS;
ABDOUCHELI, 1994). Entre as razões que explicam a não descompensão psíquica
4
,
uma das mais relevantes do ponto de vista da PdT é o desenvolvimento, pelos
trabalhadores, de estratégias conscientes e inconscientes que têm como objetivo
minimizar ou combater aspectos do trabalho que são geradores de sofrimento e assim
evitar o adoecimento.
A partir dessa discussão, o objetivo do presente artigo é descrever e analisar o que
identificamos como estratégias de defesa e de enfrentamento utilizadas por professores
da educação básica em sua luta contra o adoecimento psíquico. Apoiamo-nos
principalmente na Psicodinâmica do Trabalho (DEJOURS, 1992, 1999, 2013), teoria que
refuta a neutralidade do trabalho, afirmando que ele invariavelmente traz efeitos
negativos ou positivos para a saúde dos trabalhadores.
O artigo se justifica pela necessidade de mais pesquisas que busquem compreender os
mecanismos mobilizados pelos trabalhadores para suportar e enfrentar os efeitos
degradantes do trabalho em sua saúde mental. Objetivamos, assim, contribuir para a
compreensão da participação ativa dos trabalhadores no manejo do sofrimento contra a
descompensação psíquica.
Em termos metodológicos, o estudo que deu origem ao artigo é de tipo qualitativo, tendo
utilizado como instrumento de produção das informações entrevistas individuais
semiestruturadas. Para posterior transcrição e análise, as entrevistas foram gravadas
4
Nas palavras de Dejours (1999, p. 35), descompensação psíquica significa uma ruptura do equilíbrio psíquico que se
manifesta pela eclosão de uma doença mental”.
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com a autorização dos participantes, o que foi registrado por meio de Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
Participaram da pesquisa seis professoras
5
e um professor da rede pública estadual do
Rio Grande do Sul (RS) atuantes em uma cidade de porte médio da região Sul do estado.
Ao longo deste trabalho elas serão apresentadas por nomes fictícios. Todas as
participantes foram contatadas a partir do método não-probabilístico Bola de Neve
(VINUTO, 2014), de maneira que uma professora-chave indicou outras colegas, as
quais, por sua vez, por solicitação do pesquisador, também indicaram outras
professoras. A análise e discussão das informões tomou como base o método da
análise de conteúdo. Consideramos esta metodologia coerente com os objetivos do
estudo, uma vez que, conforme Triviños (1987), ela se adequa ao estudo de motivações,
atitudes, valores, crenças e tendências, aspectos centrais do nosso estudo.
1 PRAZER E SOFRIMENTO NO TRABALHO
Os professores, hoje, estão aqui porque gostam dos alunos, entendesse? E nós estamos
doentes. Todos estamos doentes (BIANCA).
A categoria sofrimento” ganha grande importância nas pesquisas sobre o trabalho a
partir dos estudos de Cristophe Dejours (1992, 1999, 2013) e seus parceiros (DEJOURS;
ABDOUCHELI, 1994). No desenvolvimento de suas pesquisas, o autor, que em princípio
buscava identificar o surgimento de doenças mentais específicas do trabalho entre
profissionais semiqualificados na França, concluiu que as situações de trabalho não
desencadeiam transtornos mentais clássicos, observando, no entanto, a recorrência de
comportamentos estranhos e doenças somáticas. A partir disso, Dejours foi avançando
de um modelo causal para uma interpretação dinâmica da relação entre trabalho e
sofrimento, segundo a qual os trabalhadores experimentam uma vivência subjetiva
intermediária entre a doença mental descompensada e o conforto (ou bem-estar)
psíquico” (DEJOURS; ABDOUCHELI, 1994, p. 127).
Este estado intermediário é definido pela teoria da PdT como sofrimento. Embora o termo
assuma muitas vezes uma conotação negativa, a teoria aponta a possibilidade de um
desfecho criativo na dinâmica de sua relação com o trabalho. Para a PdT, o sofrimento
é parte constitutiva do trabalho. Trabalhar significa deparar-se com situações difíceis,
com imprevistos e necessidades de adaptações pessoais que convocam a participação
inteligente e afetiva dos sujeitos, experiência na qual eles acabam vivenciando o
sofrimento (MORAES, 2013a). Desse modo, a convocação da subjetividade de quem
trabalha, indispensável mesmo nas atividades profissionais mais mecânicas, significa,
também, a experiência do sofrimento.
O desfecho desta experiência de sofrimento, no entanto, não é pré-determinado, e sim
depende das relações dos trabalhadores com a organizão e as condições de
trabalho
6
, onde desempenha especial importância a existência ou não de espos para
a participação ativa dos trabalhadores. Em condições favoráveis, os sujeitos podem
empregar sua inteligência e engenhosidade para solucionar os impasses corriqueiros, o
5
Como quase todos os participantes da pesquisa são mulheres, optamos por referir-nos aos mesmos no gênero
feminino.
6
Dejours & Abdoucheli (1994) apresentam como propriedades da organizão do trabalho a repartição do trabalho, a
cadência das atividades, a divisão hierárquica e o grau de controle sobre as atividades, entre outros aspectos. Já as
condições de trabalho estão associadas aos fatores físicos, químicos e biogicos presentes no ambiente de trabalho.
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que contribui para a realização pessoal (MORAES, 2013a). No entanto, uma
organizão do trabalho que sufoque a inteligência criativa dos trabalhadores contribui
para que a experiência do sofrimento tenha um desfecho oposto, ou seja, um desfecho
patogênico. São estes os dois cursos possíveis para o sofrimento e por isso a
organizão e as condições de trabalho são tão importantes para a saúde mental.
Outro importante elemento do trabalho que interfere na sde mental é o
reconhecimento. Na medida que o trabalho requisita o envolvimento da subjetividade, o
trabalhador espera como recompensa o reconhecimento por sua contribuição. A
garantia ou não desta retribuição será determinante no desfecho do sofrimento, podendo
proporcionar a reversão do mesmo em prazer ou conduzi-lo a um desfecho patogênico.
Diversas pesquisas têm dado atenção ao desgaste e ao adoecimento sofridos pelos
professores em decorrência de suas atividades de trabalho (NEVES; BRITO; MUNIZ,
2019; GASPARINI; BARRETO; ASSUNÇÃO, 2005; SELIGMANN-SILVA, 2011).
Somando-nos a estes esforços, iniciamos a discussão abordando características da
organizão do trabalho que influenciam negativamente na saúde mental das
trabalhadoras docentes participantes do estudo. Em seguida, trataremos do prazer no
trabalho para, finalmente, abordar as estratégias desenvolvidas pelas docentes para
enfrentar, evitar ou atenuar o sofrimento.
1.1 DESVALORIZAÇÃO E AUSÊNCIA DE RECONHECIMENTO
As pesquisas em saúde do trabalhador passam a dar grande importância à questão do
reconhecimento no trabalho sobretudo a partir dos anos 1990, quando a PdT identifica
que é graças ele que uma parte essencial do sofrimento é transformada em prazer
(DEJOURS, 2013, p. 19). O reconhecimento atua no plano da constrão da identidade,
dando sentido ao sofrimento:
Eis o que confere à relação para com o trabalho sua dimeno propriamente dramática. Não
podendo gozar dos benefícios do reconhecimento de seu trabalho, nem alcançar assim o
sentido de sua relação para com o trabalho, o sujeito se vê reconduzido ao seu sofrimento
e somente a ele (DEJOURS, 1999, p. 34).
Os conceitos de reconhecimento e de valorização apresentam grande similaridade nos
estudos sobre o trabalho docente (PEREIRA; VIEIRA, 2011; NEVES; SELIGMANN-
SILVA, 2006), sendo mencionados, na maioria dos casos, pela sua negação, ou seja,
pela ausência de reconhecimento e pela desvalorização. Dejours (1999) defende que a
maioria dos trabalhadores se esforçam no desempenho de suas atividades, nas quais
despendem energia e grande investimento pessoal. Nesse sentido, é justo que por este
empenho esperem receber tamm uma retribuição simlica, expressa no
reconhecimento.
O envolvimento da subjetividade dos professores no seu trabalho, tal como ocorre no
esforço realizado nas interações com os alunos, colegas e gestores, implica,
necessariamente, determinado nível de sofrimento. O reconhecimento, por sua vez, faz
com que este sofrimento tenha razão de ser: quando a qualidade de meu trabalho é
reconhecida, também meus esforços, minhas angústias, minhas dúvidas, minhas
decepções, meus desânimos adquirem sentido (DEJOURS, 1999, p. 34).
Contrariamente a essa perspectiva, no entanto, a categoria dos professores vem
passando por um acentuado processo de desvalorização social, que inclui a perda de
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reconhecimento da importância de seu trabalho, expresso na desvalorização salarial e
no desinteresse dos familiares dos alunos, além do sentimento de não reconhecimento
pelos próprios pares e pelo conjunto da sociedade (BRITO et al., 2014; GATTI, 2012;
MORAES, 2005). Entre as professoras entrevistadas em nossa pesquisa, embora o
sentimento de reconhecimento esteja presente, o que é mais recorrente em seus relatos
são as queixas de desvalorização, sobretudo da parte dos governos e do conjunto da
sociedade. Em contrapartida, algumas professoras apontam a valorização do seu
trabalho pelos alunos.
Lima (2013) destaca a importância também do reconhecimento de linha horizontal, ou
seja, aquele que é proferido pelos pares, uma vez que ele propicia a sensação de
pertencimento a um grupo profissional ao mesmo tempo em que, pelo julgamento da
originalidade do trabalho realizado, possibilita o fortalecimento de sua identidade singular.
Constatamos a carência dessa forma de reconhecimento entre as professoras do nosso
estudo e, além disso, na fala de uma das professoras é possível perceber que esse
problema se reflete na apreciação que as próprias docentes fazem de seu trabalho.
Acho que nós somos muito desvalorizados num todo. Começa desde o governo até s
mesmos. Nós não conseguimos valorizar o trabalho que nós fazemos. A gente acho que
não consegue se enxergar como alguém que está dentro da escola pública, que trabalha
com alunos carentes, as vezes com alunos que têm muita carência de tudo, tanto de
material, de recurso humano, tudo, falta tudo. E a gente faz trabalho bom, mas a gente não
percebe o trabalho que a gente faz (BIANCA).
Mas é na ausência do reconhecimento social que se concentra a maioria das queixas
das professoras. Diversas docentes apontam a falta de reconhecimento pelo conjunto
da sociedade, expresso na perda de presgio, e a ausência de reconhecimento pelos
governos, especialmente no que diz respeito à desvalorização salarial. Para a professora
Carla,
hoje em dia o professor perdeu o status, e cada vez mais perde esse status que se tinha há
algum tempo. Não se tem mais, né!? Não se tem mais. [...] Isso é muito complicado. Isso faz
um estrago grande, assim, na autoestima da gente, no teu profissional (CARLA).
A fala de outra professora vai na mesma direção: [Desvalorização] financeira então nem
se fala. Não é uma profissão que tu tenhas a possibilidade de ganhar qualidade de vida
pela remuneração. Tu não tens essa possibilidade (FABIANA).
Para Souto e Paiva (2013), essa perda de prestígio social contribui para uma percepção
da docência como profissão menor, atingindo também os futuros professores. Outros
estudos, como o de Barbosa (2011, p. 47), apontam que o declínio de prestígio da
profiso docente e a falta de reconhecimento estão associados a questão salarial,
considerada pela autora um dos principais causadores da desvalorizão social sofrida
pelos professores. Conforme Dejours (1992, 2013), a questão salarial envolve
dimensões concretas e simbólicas, já que é a forma como os trabalhadores sustentam a
si e suas famílias, ao mesmo tempo que representa a possibilidade de projetar e realizar
sonhos.
No momento de realização do estudo, os docentes da rede pública estadual do RS
vinham sofrendo com o congelamento e o parcelamento de seus salários havia três
anos, situação que é mencionada por todas as entrevistadas e que se mostrou grande
fonte de sofrimento, fazendo com que as professoras convivam com a incerteza sobre
como poderão cuidar da manuteão de suas vidas. Acerca disso a professora Bianca
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comenta: E aí assim, tu vês o quadro: s estamos há três anos no magistério estadual
sem receber um centavo de aumento. E tu trabalha como, né!?”. Outra professora
comenta:
Eu tento me manter e faço um esforço danado, porque realmente eu nunca esperei ficar rica
trabalhando. Nunca esperei isso, porque eu sabia que o magistério, no nosso país, ele não
é valorizado. Mas hoje em dia nós estamos sem receber salário! Olha que coisa absurda
isso! Entendeu? Como que um profissional vai para a sala de aula, como que vai ter
motivação vivendo essas condições impostas por quem é o mantenedor? Porque deveria
manter o respeito, de quem deveria ter o respaldo (CARLA).
Assim, embora a retribuição material não seja a maior fonte de mobilização dos
trabalhadores (DEJOURS, 2013), a situação das educadoras gchas evidencia uma
grande fonte de sofrimento, em sua dimensão objetiva e também simbólica.
O que podemos concluir é que, na experiência das professoras participantes da
pesquisa, têm predominado uma sensação de pouco reconhecimento de seu trabalho.
Isso implica uma redução das possibilidades de reversão de parte do sofrimento em
experiências de prazer, situação que pode resultar na degradação da sde mental.
1.2 MEDO, ANGÚSTIA E CORROSÃO DOS LAÇOS COLETIVOS
Como dissemos, o trabalho não pode prescindir da participão subjetiva de quem o
realiza. Isso porque, embora seja constituído por normas, regras e orientações, a mera
execução dessas tornaria o trabalho irrealizável. Nas palavras de Dejours (1999, p. 30),
caso nos atenhamos a uma execução rigorosa, nos veremos na conhecida situação da
operação padrão ou operação tartaruga, o que traria prejuízos à produção. Logo, o
envolvimento inteligente no trabalho beneficia o somente o trabalhador, uma vez que,
com o uso de sua inventividade, o sujeito busca não apenas poupar-se de maior
desgaste físico e mental, mas, também, realizar o trabalho com eficiência.
Esta participão subjetiva depende, porém, das condições e da organização do
trabalho, as quais, no caso do trabalho docente, sabemos que são bastante adversas. E
é nessas condições que os professores são considerados geralmente como os
principais responsáveis pelo desempenho dos alunos, da escola e do sistema
(OLIVEIRA, 2004, p. 1131). Neves e Seligmann-Silva (2006, p. 72) afirmam que há entre
as docentes o sentimento de angústia de executarem mal a atividade, de serem
responsabilizadas pelo fracasso escolar dos alunos. Nessa direção, pudemos identificar
que parte dessa angústia tem origem na sensação de não conseguir realizar as
atividades de forma satisfatória, na perceão de que a educação anda no caminho
contrário do que acreditam e de que seus esforços não são capazes de alterar as coisas:
A escola, ela está estranha, cara. Talvez e</