Trabalho & Educação | v.31 | n.3 | p.7-10 | set-dez | 2022
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EDITORIAL: 2022: FIM DE UM ANO QUE MARCA A DERROTA ELEITORAL DA
EXTREMA DIREITA NO BRASIL
O presente número da REVISTA TRABALHO&EDUCAÇÃO v.31, n.3 (2022), vem a público
em um final de ano marcado pela derrota eleitoral da extrema direita no Brasil. É mais
um ano de publicação de TRABALHO&EDUCAÇÃO que vem resistindo desde 1996 para
manter contribuindo com uma perspectiva crítica e propositiva no campo da
Educação em nosso País.
Um final de ano em que o mundo ainda convive com a Guerra. No Brasil, convivemos
com a fome e o desrespeito generalizado para com a vida humana. Legados do
sistema capitalista sem os quais não tem como deixar de conviver. Deixar de conviver
com esses legados somente com a supra-sunção das bases materiais desse
sistema.
O artigo que abre este número é uma contribuição dos pesquisadores da Faculdade
de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (Portugal)
FRIAS, Mafalda; ALCOFORADO, Luís; CORDEIRO, António: “Transições escola-
trabalho em tempos de crise pandémica: contributos para a compreensão a
partir das experiências de jovens NEET”. Nesse artigo, os autores nos informam
que nas últimas décadas, a transição para a vida adulta tem vindo a tornar-se mais
complexa e prolongada, não raras vezes intermitente e reversível. Este fenómeno
tem dado visibilidade a uma série de constrangimentos que afetam o
desenvolvimento das trajetórias dos jovens, dos quais se destaca a precariedade
laboral e o desemprego, culminando em conjunturas NEET (not in employment,
education or training). Para quem já enfrentava uma posição de maior vulnerabilidade
a flutuações estruturais, os constrangimentos desencadeados pela pandemia de
Covid-19 vieram ampliar e adensar as dificuldades dos jovens no processo de
transição para a vida adulta.
Na sequência, o artigo de OLIVEIRA, Walas Leonardo de & RIBEIRO, Luiz Antônio
realiza “Reflexões sobre a precarização do trabalho docente na américa Latina”.
Conforme apontado pelos autores: o objetivo deste artigo é proporcionar uma visão
panorâmica sobre o trabalho docente, mais especificamente sobre o processo de
precarização ao qual estão submetidos os professores e professoras da América
Latina e do Brasil.
No artigo “Do ventre feminino a aurora da nação perfeita: a mulher contemplada
no ideário da eugenia”, BOARINI, Maria Lucia & SOUZA, Simone Carlos de;
apresentam uma importante contribuição sobre o papel social das mulheres
propagado pelo ideário da eugenia no Brasil. O objetivo das autoras é aflorar
discussão sobre como, por meio da história à luz do materialismo histórico, as ideias
não se distanciam da realidade concreta em que são produzidas. No caminho
percorrido, destacamos nuances que indicam um ideário em prol da resolução de
problemáticas no contexto histórico e social do qual é parte, sem deixar de ser um
recurso ideológico de reprodução social do capital.
O artigo de MACENO, Talvanes Eugênio & DA SILVA, Yuri Rangel Nunes, “A
educação nas comunidades primitivas em Eleanor Leacock: uma aproximação
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a partir de mitos da dominação masculina”; nos brinda com uma importante
discussão sobre “a educação nas comunidades primitivas, entendendo que a
compreensão de como ela se organizava na primitividade é basilar para orientarmos
nossas ações pedagógicas hoje em dia. Entendemos que desde o livro de Aníbal
Ponce, Educação e lutas de classes, de 1937, nada mais de significativo sobre o
nosso objeto foi produzido na perspectiva teórica que adotamos acerca da educação
nas comunidades primitivas, isto é, a perspectiva marxista. Este artigo busca
atualizar, no sentido de negar, confirmar e aprofundar, as teses sobre a educação
nas comunidades primitivas apontadas por Ponce em sua obra. Para tal, baseamo-
nos na leitura imanente de Mitos da Dominação Masculina, clássico da antropologia
marxista, de Eleanor Burke Leacock.”
COSTA, Luciano Rodrigues em seu artigo sobre “As relações de classe nos
canteiros de obras brasileiros: exploração, controle e confiança”, investiga o
funcionamento do mercado de trabalho no setor da construção de uma pequena
cidade de Minas Gerais. Com base numa etnografia das práticas de trabalho e da
gestão da mão de obra num canteiro de tamanho médio, o autor busca mostrar como
os imperativos técnicos e organizacionais combinam-se com lógicas de relações de
classe para organizar as práticas de contratação, de remuneração e de demissão.
Quatro pesquisadores do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário
(IMO) do Ceará: NOVAES, Marcos Adriano Barbosa de; SILVA, Sara Mayra
Nogueira da; LIMA, Felipe Augusto Alves Correia e GONÇALVES, Ruth Maria de
Paula, em seu artigo: “Neoliberalismo no Brasil e os ataques aos direitos
trabalhistas de 1990 a 2021” nos alerta para que “diante do atual cenário assolador
dos direitos trabalhistas historicamente conquistados no Brasil, as ofensivas
neoliberais, no mundo do trabalho, se tornaram cada mais incisivas, o que influenciou
mudanças em leis já consolidadas e marcou um período de retrocessos para a classe
trabalhadora. No que tange aos direitos trabalhistas, desde a adesão do modelo
neoliberal na década de 1990, consumado nos governos seguintes, a formação
sócio-histórica do Brasil perpassou por diversas mudanças e processos considerados
perversos para os trabalhadores.”
O artigo “A recontextualização curricular na educação profissional,” de SOARES
JÚNIOR, Néri Emílio; “analisa os fatores que influenciam no trabalho dos professores
no processo de recontextualização curricular. Foi realizado um estudo de caso de
uma instituição de educação profissional do estado de Goiás com a realização de
análise documental e entrevista”.
SANTOS, Layslândia de Souza; SANTOS, Maria Escolástica de Moura e SANTOS,
Lailton de Souza; em “Educação como prática social: contradições do complexo
educativo na sociedade de classes”; “com base nos construtos teóricos e
metodológicos ancorados no Materialismo Histórico Dialético tecem considerações
acerca da educação imersa na sociedade capitalista, no intuito de refletir sobre o
papel histórico do complexo educativo dentro da sociedade de classes, bem como as
contradições que permeiam a educação”.
“Era imposição sem suporte”: organização e condições de trabalho na
educação básica durante a pandemia de covid-19”. Nesse artigo, as
pesquisadoras: PASSINI, Eduardo Souza; MAKEWITZ, Gabriela Gomes; DIAS,
Fernanda Gomes, coordenados pela doutora GIONGO, Carmem Regina do Núcleo
de Estudos e Pesquisa em Saúde e Trabalho - NEST/UFRGS descrevem e analisam
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as transformações provocadas pela pandemia de COVID-19 na organização e nas
condições de trabalho de docentes da educação básica no Rio Grande do Sul. “Os
dados coletados evidenciaram um contexto laboral marcado pela sobrecarga de
trabalho e pelo frágil suporte institucional. Concluiu-se que são necessárias políticas
públicas de atenção à saúde do trabalhador na educação básica, fortalecendo os
coletivos de trabalho e as ações de suporte aos docentes”.
“A criação da Política Nacional da Juventude (PNJ) consolidou a democratização do
acesso ao ensino fundamental, resgatando o debate acerca da formação de
educadores de jovens e adultos no Brasil. Em 2005, o governo federal instituiu o
programa de formação inicial e continuada para adaptar os docentes à proposta
pedagógica do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem Urbano). De
fato, existia uma lacuna a ser preenchida, dada a necessidade de modificar o perfil
alfabetizador perpetuado historicamente na EJA”. Essa afirmação é feita no artigo:
“Trabalho docente no programa nacional de inclusão de jovens (projovem
urbano): da práxis em construção à reificação dos educadores”; do professor
de Educação Básica na Prefeitura de Santos GASPAR, Leandro.
As pesquisadoras OLIVEIRA, Valessa Gizele Ramos & ALMEIDA, Rosiney Rocha
fecham os artigos dessa edição com “o estudo do processo de enfermagem no
curso técnico de enfermagem”. Este artigo busca discutir sobre aspectos
relacionados à ausência e à introdução do estudo do Processo de Enfermagem (PE)
no curso Técnico de Enfermagem. Para tanto, foram aplicadas entrevistas
semiestruturadas aos docentes enfermeiros do curso Técnico de Enfermagem do
Instituto Federal do Norte de Minas Gerais Campus Januária e os dados obtidos
foram organizados e categorizados segundo a análise de conteúdo, dando origem a
três categorias de análises, e discutidos à luz do referencial teórico levantado.
Por fim, mas igualmente relevantes, em nossa seção de RESUMOS convidamos as(os)
leitoras(es) a conhecerem algumas pesquisas de doutorado e mestrado, realizadas
no campo do trabalho e educação, publicadas na atualidade.
Abrindo esta seção, COTRIM-GUIMARÃES, Iza Manuella Aires em sua tese de
doutorado “Desigualdades sociais, evasão e permanência no Ensino Médio
integrado”, analisou a relação entre desigualdades sociais, desigualdades
escolares, evasão e permanência estudantil no Ensino Médio integrado de um
Instituto Federal vinculado à Rede Federal de Educação Profissional, Científica e
Tecnológica.”
Em seguida, “A indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão na
Educação a Distância: análise a partir dos processos de institucionalização da
modalidade em Universidades Federais”, de MACHADO, Marcela Rosa de Lima.
A tese analisou o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão na
Educação a Distância (EaD), a partir da perspectiva de institucionalização dessa
modalidade nas universidades federais brasileiras
Na sequência, a pesquisa de doutorado “A (não) educação da primeira infância
periférica para a cidadania: por saberes e fazeres decoloniais e
emancipatórios” de SILVA, Otavio Henrique Ferreira da; consistiu em “compreender
o que dizem e fazem professoras e famílias da comunidade escolar de uma instituição
de educação infantil da periferia quanto a educação das crianças de três anos para o
exercício da cidadania”.
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Finalmente, tem-se o resumo da dissertação de mestrado de BERNABÉ, Ester
Gomes, intitulada “Luta de mulheres! Relações sociais de sexo e divisão sexual
do trabalho de instrutoras de jiu-jitsu”. A partir da assertiva de Hirata (2002) de
que as pesquisas não podem ser gender-blinded (blindadas ao gênero), mulheres
instrutoras de jiu-jitsu foram escolhidas como sujeitos desta investigação. Objetivou-
se compreender como se dá a divisão sexual do trabalho entre os/as instrutores/as
de jiu-jitsu, um esporte marcadamente "masculino".
Após este breve aperitivo dos textos publicados neste número, desejamos a
todas(os) as(os) leitoras(es) uma boa leitura!
Hormindo Pereira de Souza Júnior
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Professor Titular de Política e Gestão da Educação – Faculdade de Educação da UFMG. Editor de T&E.
https://orcid.org/0000-0001-9411-6802.