Chamada para artigos - Março de 2021

2020-08-05

Chamada para Mulheres Pesquisadoras

A pandemia de COVID-19 a que estamos todos submetidos, tem provocado tanto um caos social, quanto uma desordem nas diferentes dimensões da vida dos sujeitos. Considerando que vivemos em uma sociedade ainda machista e patriarcal, é necessário refletirmos sobre como os efeitos dessa situação se apresentam para distintos sujeitos.

Tais efeitos têm sido desiguais sobre a produtividade de homens e mulheres pesquisadoras. Levantamento realizado pelo movimento brasileiro Parent in Science (2020), demonstra que as mulheres negras com filhos, seguidas pelas mulheres brancas com filhos constituem os grupos cuja produtividade acadêmica mais foi afetada, a submissão de artigos, especialmente, sofreu grande queda. Quando comparou apenas mulheres e homens, independentemente de raça e parentalidade, o levantamento demonstrou que enquanto 68,7% dos homens submeteu artigos durante o segundo e o terceiro meses de isolamento social, apenas 49,8% das mulheres o fizeram. 

O coletivo britânico #femedtech (2020) evidenciou algumas das causas dessa situação: “em casa, as mulheres são mais propensas a assumir a maior parte da responsabilidade no cuidado das crianças, dos membros idosos da família e dos mais vulneráveis, especialmente durante a quarentena, além de serem mais propensas a assumirem papéis de apoio à comunidades que estão sofrendo o impacto do vírus.” Além disso, as mulheres representam a maior parte da frente de trabalho nas redes hospitalares, nas funções de enfermaria, psicologia, assistente social, terapia ocupacional e também nas tarefas de limpeza, que tem tido alta demanda no atual contexto.

As mudanças ocasionadas pela pandemia, agravaram e lançaram luz sobre a disparidade de sexo e gênero presente em nossa sociedade. Um módulo especial da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD contínua) do IBGE, publicado em abril deste ano, demonstra que a jornada semanal de trabalho da mulher dura, em média, 3,1 horas a mais do que a dos homens, considerando o tempo dedicado ao emprego e ao cuidado da casa e de seus moradores. Esses e outros estudos apontam, portanto, a existência de uma sobrecarga invisível da mulher, mesmo em tempos de não-pandemia.

Ainda que a proporção de pesquisadoras tenha aumentado no Brasil, segundo os dados do relatório “Gender in the Global Research Landscape” (2017) da editora Elsevier, se constituindo em quase a metade (49%) da população de pesquisadores, a produção dessas mulheres é menor do que a dos homens mesmo em tempos de “normalidade”. Relatório da Nature Index (2020) aponta queda na submissão de artigos por mulheres, em todas as posições de autoria, durante a pandemia, quando comparada a 2019. Diversos periódicos têm apresentado dados que vão na mesma direção.

Ao compreender que existem sistemas de dominação em diferentes frentes, nos quais oprimidos e opressores compartilham de sofrimentos, as mulheres, nesse contexto padecem então, pela dupla jornada de trabalho das atividades cotidianas, por preconceitos profissionais, pela exclusão e redução de experiências de lazer, por abuso sexual, feminicídio, estigmas de papel e submissão, e ainda, pela violação de seus direitos, traumas e medos resultantes de violências e silenciamentos em torno de um lugar e posição que lhe foram atribuídos.

Nesse contexto, afim de contribuir para a diminuição da disparidade de sexo e gênero na ciência, a Revista Licere convida as mulheres a publicarem seus trabalhos em um número especial, a ser lançado na primeira edição do próximo ano. Tendo em vista a imprevisibilidade do término das medidas de isolamento social e suas consequências, e a já comprovada efetividade da ampliação de prazos para o aumento da produção de mulheres nesse período, o prazo de submissão será largo, até 31 de dezembro de 2020. A temática dos estudos é livre, dentro do escopo da revista, e os trabalhos devem seguir as normas disponíveis no site da revista.

O número de março de 2021 será com artigos publicados só por mulheres. A(s) autor(as) devem informar, abaixo do título do artigo, o interesse em integrar a chamada para mulheres pesquisadoras e cada autora poderá enviar apenas um trabalho para ser avaliado.

A Licere anuncia ainda, que adotará mais uma medida nessa direção: os artigos enviados por mulheres, durante todo o período da pandemia, terão prioridade no processo de avaliação, seguindo a seguinte ordem de prioridade: artigos de uma única autora; artigos de várias autoras; artigos em que uma mulher é a primeira autora; artigos em que uma mulher é a última autora; artigos em que a mulher é autora intermediária. Reiteramos que o processo de avaliação seguirá os trâmites habituais, haverá apenas uma escala de prioridades na fila de avaliação e editoração.