Cruzamentos Entre Lazer e Trabalho
A Experiência das Trabalhadoras Sexuais no Complexo de Diversões Guaicurus
DOI:
https://doi.org/10.35699/2447-6218.2026.66854Palavras-chave:
Lazer, Trabalho sexual, Guaicurus, Subjetividade, InterseccionalidadeResumo
A tese investiga os cruzamentos entre lazer e trabalho na vida cotidiana de mulheres trabalhadoras sexuais do Complexo de Diversões Guaicurus, em Belo Horizonte, com o objetivo de compreender como constroem sentidos, estratégias de resistência e bem viver em um território marcado por estigmas sociais e dinâmicas urbanas específicas. O estudo adota a interseccionalidade, conforme proposta por Patricia Hill Collins, como teoria social crítica, articulada à ética da responsabilidade e à teoria do sujeito desenvolvidas por Judith Butler, como referencial metodológico. Parte-se da compreensão de que a entrevista não se configura apenas como técnica de coleta de dados, mas como uma cena de interpelação, na qual o relato de si é produzido na relação com o outro, sob normas sociais que regulam o que pode ser dito e reconhecido. Nessa perspectiva, as narrativas das participantes não são tratadas como dados transparentes, mas como esforços situados de dar conta de si diante de um interlocutor, atravessados por limites narrativos, silêncios e opacidades constitutivas. A pesquisa mobilizou observação participante e entrevistas não estruturadas realizadas com 15 mulheres cisgênero trabalhadoras sexuais nos hotéis da região, além de interlocuções com colaboradoras da Associação das Prostitutas de Minas Gerais. A análise dos materiais empíricos, baseada em codificação aberta, agrupamento semântico e elaboração de eixos e núcleos interpretativos, revelou que o lazer se configura como respiro e espaço de resistência simbólica ao desgaste do trabalho, manifestando-se tanto no ambiente laboral quanto fora dele. As participantes vivenciam o trabalho sexual como prática estratégica para sustentar projetos de vida, evidenciando dimensões de autonomia econômica atravessadas por condições estruturais de precarização. As relações entre colegas expressam simultaneamente solidariedade e tensão, enquanto o corpo assume centralidade como território de risco, prazer, cuidado e performance. O estigma aparece como tecnologia de regulação social, enfrentado por meio de estratégias de ocultação e autoafirmação. A rotina exaustiva compromete o descanso e afeta a saúde mental, ao passo que projetos de futuro, como aquisição de bens, continuidade dos estudos ou inserção digital, operam como horizontes de sentido. O Complexo de Diversões Guaicurus se apresenta como território de lazer sexual para homens e de trabalho para as mulheres, configurando-se como um espaço plural, atravessado por hierarquias e discriminações, mas também por sociabilidades e práticas de recomposição cotidiana. Na conclusão, evidenciou-se que as trabalhadoras sexuais ressignificam a inseparabilidade entre lazer e trabalho como dimensão estruturante de suas existências, convertendo o lazer em espaço de dignidade, autonomia e resistência. O estudo contribui para os Estudos do Lazer ao evidenciar essa prática como componente fundamental da saúde mental e como direito a ser afirmado, ampliando o campo de investigação ao reconhecer sua relevância em contextos de precarização do trabalho e de desigualdades interseccionais, além de indicar a necessidade de políticas públicas que assegurem o lazer como direito social para grupos historicamente marginalizados.
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