DOI: https://doi.org/10.35699/2237-5864.2025.54895
SEÇÃO: ARTIGOS
LabJuX:
uma experiência de ensino, pesquisa e extensão universitária no
contexto das juventudes
LabJuX:
una experiencia de docencia, investigación y extensión
universitaria en el contexto de la juventud
LabJuX: an experience of teaching, research and university extension in the context of youth
Cláudia Pereira,1 Marcella Azevedo,2
Amanda Antunes3
RESUMO
O objetivo deste artigo é discutir o papel dos jovens como atores sociais na produção de conteúdos midiáticos relacionados às suas culturas e cotidianos, a partir da experiência do Laboratório de Culturas Midiáticas das Juventudes (LabJuX) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Trata-se de resultado de pesquisa voltado para os estudos das juventudes e suas culturas, especialmente no que diz respeito às midiáticas, e de observações no campo a partir da produção de conteúdos desde o ano de 2022 até a presente data. Paulo Freire, Rossana Reguillo, José Machado Pais e Jesús Martín-Barbero, entre outros, sustentam o texto teoricamente. A metodologia contempla três abordagens: a primeira é a abordagem autoetnográfica das autoras, que são também coordenadoras do LabJuX; a segunda é a analítica, quando são tomados os processos de elaboração e negociação das produções discentes; e a terceira é a etnográfica, com a observação dos espaços de interação, criação e visibilidade midiática que estimulam as produções discentes no contexto do projeto, bem como a colaboração de ativistas externos ao ambiente universitário. Foram observados cinco alunos de graduação e três projetos sociais ligados à cultura do skate: CDD Skate Arte, Instituto Ademafia e Coletivo Skate Petrópolis. Conclui-se que o ambiente do ensino e da pesquisa conforma o olhar dos jovens a parâmetros normativos, mas é na combinação da extensão universitária com a visibilidade midiática que seus cotidianos se impõem como código imanente praticado em pluralidade.
Palavras-chave: juventudes; laboratório; extensão universitária, culturas midiáticas, experiência docente.
RESUMEN
El objetivo de este artículo es discutir el papel de los jóvenes como actores sociales en la producción de contenidos mediáticos relacionados con sus culturas y su vida cotidiana, a partir de la experiencia del Laboratorio de Culturas Mediáticas Juveniles (LabJuX) de la Pontificia Universidad Católica de Rio de Janeiro. Este es el resultado de investigaciones enfocadas en el estudio de la juventud y sus culturas, especialmente en lo que respecta a los medios, y observaciones en campo basadas en la producción de contenidos desde 2022 hasta la actualidad. Paulo Freire, Rossana Reguillo, José Machado Pais y Jesús Martín-Barbero, entre otros, sustentan teóricamente el texto. La metodología incluye tres enfoques: el primero es el enfoque autoetnográfico de los autores, quienes también son coordinadores de LabJuX; el segundo es analítico, cuando se toman en cuenta los procesos de elaboración y negociación de las producciones estudiantiles; y el tercero es etnográfico, con la observación de espacios de interacción, creación y visibilidad mediática que estimulan las producciones estudiantiles en el contexto del proyecto, así como la colaboración de activistas fuera del ámbito universitario. Se observaron cinco estudiantes de graduación y tres proyectos sociales vinculados a la cultura del skate: CDD Skate Arte, Instituto Ademafia y Coletivo Skate Petrópolis. Se concluye que el ambiente de enseñanza e investigación ajusta las miradas de los jóvenes a parámetros normativos, pero es en la combinación de extensión universitaria con la visibilidad mediática que su cotidianidad impone como un código inmanente practicado en pluralidad.
Palabras clave: juventud; laboratorio; extensión universitaria; culturas mediáticas; experiencia docente.
ABSTRACT
The aim of this article is to discuss the role of young people as social actors in the production of media content related to their cultures and daily lives, based on the experience of the Laboratory of Youth Media Cultures (LabJuX) at Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro. This is a result of research focused on the study of youth and their cultures, especially with regard to media, and observations in the field based on the production of content from 2022 to the present date. Paulo Freire, Rossana Reguillo, José Machado Pais and Jesús Martín-Barbero, among others, support the text theoretically. The methodology includes three approaches: the first is the autoethnographic approach of the authors, who are also coordinators of LabJuX; the second is analytical, when the processes of elaboration and negotiation of student productions are taken into account; and the third is ethnographic, with the observation of spaces of interaction, creation and media visibility that stimulate student productions in the context of the project, as well as the collaboration of activists outside the university environment. Five undergraduate students and three social projects linked to skateboarding culture were observed: CDD Skate Arte, Instituto Ademafia and Coletivo Skate Petrópolis. It is concluded that the teaching and research environment conforms young people's views to normative parameters, but it is in the combination of university extension with the media visibility that their daily lives impose themselves as an immanent code practiced in plurality.
Keywords: youths; laboratory; university extension; media culture ; teaching experience.
INTRODUÇÃO
O Laboratório de Culturas Midiáticas das Juventudes (LabJuX) é resultado de uma iniciativa que reuniu cinco pesquisadoras e pesquisadores em torno da Chamada Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Edital de Apoio Básico à Pesquisa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), em 2021.4 O objetivo inicial era criar um projeto de pesquisa que viabilizasse, por meio da concessão de financiamento das duas agências de fomento, a criação de um espaço de experimentações que integrasse a graduação e a pós-graduação dentro do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), estendendo a pesquisa para outras instituições parceiras, entre elas, a Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Ambos os projetos foram aprovados em 2022 e tiveram seus trabalhos iniciados no mesmo ano.
Como parte da proposta submetida, constava a busca por um espaço de discussão sobre as disputas entre as representações sociais dominantes em torno dos jovens e as ações sociais, muitas vezes periféricas, que se pautam naquilo que tais juventudes revelam em seus cotidianos. Trata-se de culturas autolegitimadoras, mediadoras, produtoras de sentido e de caminhos inovadores que levam a soluções criativas e inteligentes na direção, principalmente, de inclusão social. Visava-se identificar iniciativas de jovens que promovem ações alternativas para minimizar as consequências de desigualdades, sejam elas quais forem, de forma independente, por meio da cultura urbana. Pretendia-se, também, compreender se é possível ser um agente de transformação social fora do “mundo adulto”, e conhecer as estratégias comunicacionais adotadas pelos jovens. Acreditava-se que as pesquisas voltadas para as juventudes, principalmente as que exploram suas configurações coletivas, poderiam lançar uma luz sobre rumos alternativos e transformadores em direção aos usos do espaço urbano e sobre soluções originais para minimizar as desigualdades sociais. Pela força ideológica da concepção de juventude, homogeneizante e universal, cremos que ficam eclipsadas determinadas ações legítimas que podem ser espelhadas em políticas públicas na cidade.
As juventudes vêm construindo um espaço de cidadania e de ação social por meio de suas culturas de lazer. Entre os meses de julho e agosto de 2020, a Confederação Brasileira de Skate (CBSk) e a Organização Não Governamental (ONG) Social Skate realizaram um levantamento5 a fim de mapear projetos sociais que fazem uso da prática do skate como ferramenta de inclusão social. Neste primeiro censo, foram identificados 36 projetos espalhados pelo Brasil e 2.755 crianças e adolescentes beneficiados por iniciativas de ONGs; 24 desses projetos, a maioria, parte de grupos de skatistas que, de modo independente, buscam formas de conciliar seu estilo de vida com ações sociais que visam atender às demandas sociais dos entornos deles. No Rio de Janeiro, entre os diversos projetos sociais identificados, dois se destacaram para o LabJuX: CDD Skate Arte (localizado na favela Cidade de Deus) e Instituto Ademafia de Cultura e Esporte (localizado no Morro de Santo Amaro, Catete). Em Petrópolis, temos o Coletivo Skate Petrópolis, o único grupo atuante na cidade que promove ações pelas causas dos praticantes e simpatizantes das práticas de skate.
Circunstancialmente, no momento em que se desenvolvem as atividades do Laboratório, a prática do skate ganha novas dimensões, significados e importância na sociedade brasileira, desde que passou a integrar as Olimpíadas de Tóquio 2020, realizadas em 2021, conquistando três medalhas de prata e catapultando Kevin Hoefler, Rayssa Leal, essa com apenas 13 anos de idade, e Pedro Barros à categoria de “heróis nacionais”. O que se viu nas pautas jornalísticas e na publicidade foi uma mudança nas representações midiáticas da prática e de seus praticantes.
Considerando o cenário de desigualdade social do país, entendemos a urgência de dar visibilidade a adolescentes e jovens habitantes de comunidades periféricas. O objetivo central do LabJuX é incentivar a troca entre o ambiente universitário e jovens ativistas moradores de favelas e comunidades marginalizadas dentro das cidades. Para tanto, buscamos promover atividades acadêmicas voltadas para a discussão sobre a construção social das juventudes a partir das representações midiáticas de suas culturas urbanas. Visamos, assim, compreender o que se toma como valor positivo e o que se silencia no processo de elaboração de tais formas representacionais.
Ao desenvolver um estudo comparativo entre, de um lado, as representações midiáticas presentes, especialmente, na publicidade e, de outro, as formas sociais que se configuram em “culturas de lazer” entre jovens cariocas, estabelecemos relações entre ambas e exploramos continuidades e rupturas. Mas, principalmente, identificamos mediações nas subjetividades e nas coletividades presentes nas culturas juvenis observadas no campo.
Diante da experiência até aqui acumulada com o LabJuX, este artigo pretende analisar, do ponto de vista de três pesquisadoras que conduzem o projeto, de que modo se dá a construção de conteúdos midiáticos produzidos pelos jovens estudantes, considerando, de um lado, os parâmetros formais de ensino e pesquisa inerentes à universidade e, de outro, vivências e trocas com outros jovens skatistas e ativistas. E, também, como isso se reflete nos códigos partilhados, nas criações e nas publicações tanto do Portal como das plataformas digitais do Laboratório. Em síntese, buscamos responder à seguinte pergunta: um espaço de incentivo e de promoção de conteúdos midiáticos das juventudes, instalado dentro de uma universidade, consegue superar os desafios inerentes a esse ambiente, a saber, as hierarquias, os formalismos e as técnicas tradicionais de comunicação?
Metodologia
Para os fins deste artigo, a metodologia contempla três abordagens: a primeira é a autoetnográfica das autoras, que são também coordenadoras do LabJuX; a segunda é a analítica, quando são tomados os processos de elaboração e negociação das produções discentes; e a terceira é a etnográfica, com a observação dos espaços de interação, de criação e de visibilidade midiática que estimulam as produções discentes no contexto do projeto, bem como a colaboração de ativistas externos ao ambiente universitário.
Os relatos autoetnográficos das autoras, que atuam como orientadoras das alunas e dos alunos participantes do Laboratório, compreendem um período de 12 meses (maio de 2022 a maio de 2023).
A análise do processo de criação e de produção dos conteúdos publicados pelos estudantes até o momento aconteceu no percurso de elaboração de 17 matérias para a seção de notícias do Portal, de 42 publicações no feed do perfil do laboratório no Instagram, de 6 episódios do Memória Carioca do Skate disponíveis no Spotify, de 2 vídeos no canal do Youtube e de 6 episódios de videocast publicados no TikTok.6
Foram tomados não só como colaboradores, mas também como objeto de pesquisa, os três líderes dos projetos sociais observados: Denis Rezende, do CDD Skate Arte; Ademar Lucas, do Instituto Ademafia; e Bernardo Freitas, representante do Coletivo Skate Petrópolis.
No contexto do Laboratório, o campo de observação se dá a partir do estímulo à produção do que denominamos “culturas midiáticas das juventudes” (Pereira, 2022), decorrentes das trocas que se estabelecem entre os estudantes da PUC-Rio e da UCP e todos os outros jovens tangenciados pela pesquisa, como os skatistas e os ativistas. Ao serem criados e publicados, o site e as redes sociais do LabJuX passaram a atuar como espaços de visibilidade para tais “culturas midiáticas das juventudes”, com todas as negociações e tensões que se dão, no nosso caso, não somente com as indústrias culturais, como aponta Reguillo (2013), mas também com nós mesmas, professoras, pesquisadoras e orientadoras do projeto, as quais, de algum modo, estão inseridas no “mundo adulto” e em tais indústrias que colaboram para a construção do pensamento e das representações.
Na prática, o LabJuX ganhou um endereço eletrônico, o Portal LabJuX,7 no qual são reunidas todas as produções midiáticas das alunas e dos alunos de graduação da PUC-Rio vinculados ao projeto, decorrentes de suas imersões no universo dos skatistas e dos projetos sociais destes. São ensaios fotográficos, textos jornalísticos, crônicas, conteúdo audiovisual, podcasts e videocasts, entrevistas, espaços de divulgação científica, entre outras formas e formatos comunicacionais, que se desdobram para as redes sociais Instagram, YouTube, TikTok e Spotify. Paralelamente, as trocas com os dois projetos sociais e com o Coletivo Skate Petrópolis levaram a outras atividades de extensão universitária ligadas, também, à produção de conteúdo midiático. Já foram realizadas oficinas de fotografia para skate, de Instagram, de design e estética da cultura do skate, e foram doados ensaios fotográficos para serem usados nas plataformas de redes sociais de tais projetos e do coletivo. Além disso, foram planejadas campanhas de divulgação de evento e de arrecadação de doações, e até mesmo um aplicativo que facilita a integração entre os projetos sociais voltados para o skate foi desenvolvido no âmbito do Laboratório.
Algumas teorias que nos conduzem
Um dos resultados da pesquisa do LabJuX foi a elaboração da categoria “culturas midiáticas das juventudes” (Pereira, 2022), a qual, para além de dar nome ao projeto, procura organizar e sintetizar os pressupostos teóricos que orientam o trabalho que vem sendo desenvolvido dentro desse espaço de ensino, pesquisa e extensão universitária.
Por “culturas midiáticas das juventudes”, entende-se:
[...] um espaço comunicacional de negociação-tensão que os jovens estabelecem com significados sociais institucionalizados, combinando a produção de conteúdo pautada no cotidiano vivido com o consumo criativo de produtos e estilos de vida das indústrias culturais, articulando a linguagem compartilhada e legitimada pelos pares – híbrida, hipertextual e bricolage – com ações sociais propositivas e localizadas. A ação social é, portanto, inerente às “culturas midiáticas das juventudes” e colabora para a formação, a consolidação, a permanência e as transformações das culturas juvenis contemporâneas (Pereira, 2022, p. 15-16).
A adoção do plural em “culturas”, “midiáticas” e “juventudes” denota a diversidade que deve ser considerada nesses três aspectos, recusando qualquer tipo de generalização e reificação de conceitos.
As “culturas” são múltiplas, graças aos seus atravessamentos sociais pautados por cotidianos também plurais, considerando a diversidade da sociedade brasileira contemporânea nas suas variadas manifestações.
As produções “midiáticas” se espraiam para além do rigor de suportes, plataformas, formas e formatos, assumindo-se mais como espaços de visibilidade de um jovem “ator socialmente situado”, como define Rossana Reguillo (2013). Ou seja, aquele que é afetado pelo consumo de produtos culturais globalizados, mas que estabelece, com as indústrias culturais, uma relação de “negociação-tensão” (Reguillo, 2013, p. 13), apropriando-se, sem culpa, de suas referências, para então modificá-las, muitas vezes, para fazer política – não a política partidária, institucionalizada, mas uma outra, arraigada na experiência cotidiana pelas ruas e vielas das cidades, das ladeiras, das favelas, de onde quer que esteja ou por onde quer que passe.
As “juventudes” se contrapõem à representação da “juventude”, no singular, incensada, principalmente, pela publicidade. As “juventudes” nem sempre se reconhecem na “juventude”, esta sempre alegre, festiva, dentro dos padrões de corpo e beleza estabelecidos. A “juventude” é “conceito estratégico para a publicidade” (Pereira, 2010), as “juventudes” são “palimpsestas” (Martin-Barbero, 2017) e “hipertextuais” (Reguillo, 2013), estão nas ruas diferenciando-se a partir de suas diferentes “culturas de lazer” (Pais, 1990) e não podem se reduzir às forças manipuladoras dominantes que fazem delas “apenas uma palavra” (Bourdieu, 2003), em constante disputa por um lugar como ator social, produtoras legítimas de cultura e de política (Reguillo, 2013).
A categoria “culturas midiáticas das juventudes”, portanto, toma como centrais as formas como as juventudes estabelecem um diálogo com a sociedade a partir daquilo que produzem cultural e midiaticamente. Entendemos que é por essa via, a da visibilidade midiática, e por consequência visibilidade social (Maia, 2020), que os jovens se constituem como parte integrante e atuante no mundo, e não apenas como “consumidores”, “problema social”, “informantes”, “objeto de pesquisa”, “representação” e “conceito publicitário”.
A próxima seção apresenta os registros de nossas autoetnografias, lançando uma luz sobre o processo de “negociação-tensão” (Reguillo, 2013), aspecto central para as discussões deste artigo – e nos coloca em situação de reflexividade quanto aos nossos papéis dentro do LabJuX.
As experiências vividas e divididas – as autoetnografias
A autoetnografia é uma prática longe de ser consenso entre pesquisadoras e pesquisadores e há textos que já se dedicaram a criticá-la duramente (Delamont, 2007). Cientes de todas as suas limitações, como aliás todos os métodos e técnicas estão sujeitos, optamos por ela e não pela observação participante, porque seu uso, para os fins deste artigo, não foi planejado. A observação participante requer uma preparação e sistematização de práticas etnográficas diferentes daquelas que caracterizam a autoetnografia. A apresentada aqui revela-se profícua para os resultados que buscamos, os quais envolvem, também, um processo de reflexividade dos papéis que exercemos dentro do Laboratório. Carolyn Ellis se destaca entre teóricos e teóricas defensores da autoetnografia. Para a autora (Ellis, 1999, p. 673, tradução nossa)8:
Autoetnografia é um gênero autobiográfico de escrita e pesquisa que revela várias camadas de consciência. [...] Comumente escritos na primeira pessoa, os textos autoetnográficos aparecem em uma variedade de formas – contos, poesia, ficção, romances, ensaios fotográficos, ensaios pessoais, diários, escrita fragmentada e em camadas, e prosa de ciências sociais. Nestes textos, ações concretas, diálogo, emoção, corporalidade, espiritualidade e autoconsciência são apresentados, aparecendo como histórias relacionais e institucionais impactadas pela história e estrutura social, que são reveladas dialeticamente através de ações, sentimentos, pensamentos e linguagem.
Inseridas no LabJuX, representantes de uma categoria profissional, a de professoras e pesquisadoras, mas também atravessadas por premissas e construções subjetivas de mundo, entendemos que a autoetnografia nos pode ajudar a analisá-las. De um lado, há as relações que vêm se estabelecendo com os jovens envolvidos no projeto, no período de maio de 2022 a maio de 2023 e, de outro, as dinâmicas que dão vida às “culturas midiáticas das juventudes” que vêm ganhando visibilidade nos espaços criados para este fim.
O LabJuX está sediado na PUC-Rio e se desdobra na UCP, por meio de atividades dentro de disciplinas ministradas por uma das autoras. No momento em que se escrevem essas linhas, a equipe é composta por: quatro coordenadoras, três com título de doutorado e uma doutoranda; três bolsistas de Iniciação Científica, uma aluna e um aluno cursando Jornalismo, e uma outra, Publicidade; um voluntário, matriculado no curso Estudos de Mídia, e um estudante de outra universidade, também voluntário. Esses cinco universitários,9 portanto, e ainda os jovens ativistas ligados a projetos sociais voltados para o skate no Rio de Janeiro e em Petrópolis, formam o grupo que tomamos para observação, e com o qual temos interagido, dentro de nossa autoetnografia. A fim de organizar os registros, optamos por dividi-los em três momentos: (a) a construção do ambiente comunicacional do LabJuX; (b) as “tensões”; e (c) as “negociações”.
(a) A construção do ambiente comunicacional do LabJuX
Os dois editais conquistados junto à Faperj e ao CNPq, cada um em sua natureza, viabilizaram o Laboratório. Ocupamos uma sala na PUC-Rio, compramos câmeras e outros equipamentos para produção audiovisual, computadores, notebooks, softwares de edição de imagem, e criamos uma página na internet. O site, que gostamos de chamar de Portal LabJuX, é a plataforma midiática na qual se concentra a maior parte das produções dos alunos, e também dos pesquisadores. Trata-se de um espaço híbrido de divulgação científica, de experimentações midiáticas e de extensão universitária, já que dialoga com projetos sociais voltados para o skate. Paralelamente, começamos a selecionar graduandos inscritos nos cursos de Jornalismo, Publicidade, Cinema e Estudos de Mídia da PUC-Rio que tivessem interesse na temática de nosso projeto, qual seja, juventudes, suas representações e a cultura do skate. Passamos a realizar três reuniões semanais, duas presenciais e uma remota, já que uma das autoras reside em Petrópolis. Às terças-feiras à tarde e às sextas-feiras de manhã, os encontros são presenciais. Às sextas à tarde, eles acontecem por plataformas de reuniões remotas.
No momento inicial da implantação do Laboratório, chama atenção a motivação dos bolsistas e voluntários pela participação em um projeto coletivo, o que passou a lhes atribuir um dado pertencimento dentro do ambiente da universidade. A sala do LabJuX, mais do que um “lugar”, tornou-se um “espaço”, no sentido dado por Michel de Certeau (1994), para quem o lugar é um espaço praticado, uma ordem, uma fixação demarcada, e o espaço, o lugar em sua dinâmica e com agentes que coexistem e elaboram relações e conflitos. Ou seja, onde as interações e as trocas e as disputas ganham um significado importante para esses alunos. Hoje, fazer parte do LabJuX como bolsistas e voluntários parece ser uma condição que lhes confere uma identidade da qual se orgulham, o que lhes serve para convocar colegas para terem a mesma experiência.
Além da sala, a aquisição dos equipamentos também proporcionou a esses jovens um novo lugar de prestígio, já que não há, dentro do LabJuX, mediações, digamos, “adultas” no acesso e uso das câmeras, microfones, refletores, tripés, notebooks, PCs, enfim, objetos de toda a materialidade que compõe o laboratório. Os bolsistas têm autorização para experimentar e manipular os equipamentos, desde que para usos dentro dos projetos do LabJuX. Quando se sentiram à vontade, passaram a fazer suas próprias demandas, orientando outras novas aquisições que foram feitas, e cada caixa que chegava na sala era prazerosamente aberta por eles. A sala e os equipamentos no contexto do Laboratório, como “cultura material”, no que diz respeito a Daniel Miller (2007), “objetificam” a legitimação desses jovens estudantes como atores sociais, ou seja, como parte de uma cadeia de produção de conteúdos midiáticos nem sempre acessíveis, especialmente dentro de ambientes acadêmicos ou do mercado de trabalho.
A particularidade da área em que se inserem os seus cursos, a Comunicação, lhes provoca a adotar uma postura e um olhar mais “profissionais” para a qualidade da produção audiovisual à qual o projeto se propõe. Sendo assim, ao manipularem os equipamentos, ao trocarem informações sobre técnicas de edição, ao serem convidados a escolher alguns itens a serem adquiridos, exercitam uma dada autonomia e autoconfiança, assumindo o papel de especialistas naquilo que estão realizando. Mesmo os que não se inserem nas atividades de produção audiovisual, os jornalistas, têm a oportunidade de escolher o tipo de matérias que vão produzir e de compor, o que para eles é muito importante, o primeiro portfólio.
Quanto aos jovens ativistas dos dois projetos sociais, Denis Rezende e Ademar Lucas, ambos foram convidados a serem “parceiros” do LabJuX e prontamente aceitaram. Os dois estão na faixa etária dos 30 anos e têm o skate como algo central em suas vidas. Um deles é morador da favela onde realiza as ações sociais, o outro mora no bairro vizinho de outra favela carioca, onde promove, também, atividades voltadas para crianças e adolescentes. Entenderam que a aproximação com o nosso projeto, inserido na PUC-Rio, traria visibilidade não somente para as suas ações, mas também para a prática do skate de rua (street), atribuindo, desta forma, valores positivos para a cultura do esporte.
Como coordenadoras do LabJuX, nos deparamos com uma experiência totalmente nova, que é a criação de um laboratório. Ocupamos, desde então, o lugar de “professoras”, “pesquisadoras”, “coordenadoras”, o que, de imediato, já impõe uma hierarquia dentro das dinâmicas do grupo, remetendo ao que Bourdieu e Passeron (2008) nos ensinam sobre a reprodução dos modelos, hierarquias e normas sociais dentro das instituições de ensino. Atuamos em todas as produções da equipe e nada é publicado sem a nossa aprovação.
Por outro lado, durante o primeiro ano do Laboratório, incentivamos o protagonismo dos alunos, que, durante alguns meses, demonstraram insegurança em propor novas ideias, em pensar por si próprios, em colocar abertamente as suas opiniões. Somos, afinal, três “Doutoras” e uma “Mestre”, títulos acadêmicos que são o “capital” mais distintivo dentro do campo universitário, colocando-nos no lugar de “dominantes” e os alunos, de “dominados”, segundo Pierre Bourdieu (1989) – o que percebemos valer, de igual modo, para os ativistas, que não fazem parte deste campo. Encontramos, inicialmente, alguma dificuldade em fazer com que os estudantes dessem o primeiro passo para a autonomia criativa, o que se deu, como será discutido mais adiante, quase um ano depois da criação do LabJuX.
Interessante observar que os jovens que participam do LabJuX estão em uma fase inicial da formação de suas identidades profissionais. Já escolheram a área da Comunicação, ao decidirem por uma graduação, mas são plurais considerando que alguns estão no curso de Cinema, outros no de Jornalismo e alguns ainda no de Publicidade. Dentro dessas áreas de concentração, também, há um mundo de possibilidades a ser experimentado, e de fato, eles estão vivenciando essa descoberta. Podemos aqui estabelecer um paralelo com as ideias de “projeto” e de “campo de possibilidades” discutidas por Gilberto Velho (2003).
(b) As “tensões”
Juntando-se ao fato de sermos “adultas”, nossas titulações, cargos e funções dentro do LabJuX, como afirmamos acima, criaram uma hierarquia que, de algum modo, interferiu na concepção mesma do que buscávamos, que era a criação de um espaço de visibilidade para as “culturas midiáticas das juventudes”. Ou seja, um ambiente para as produções dos alunos feitas a partir de seus próprios pontos de vista, de seus cotidianos, de suas vivências e de seus códigos partilhados. Se houve alguma autonomia desejada nas experimentações que, como coordenadoras, buscávamos, era na manipulação dos equipamentos e na construção de identidades profissionais que vimos emergir, como sublinhamos na seção anterior.
Tal hierarquia, num certo sentido, atrapalha o projeto, mas ela é, em certa medida, necessária, pois precisamos “prestar contas” do que nos propomos a fazer, quando solicitamos os recursos junto às agências de fomento. Entendemos que os próprios universitários precisariam reivindicar e conquistar sua autonomia, também, como criadores.
O Portal LabJuX tem um formato, digamos, tradicional de um site: é organizado em seções, obedece a determinadas classificações, tem uma identidade visual bastante marcada. Da mesma forma, o Instagram, 10 rede social escolhida para divulgar o Portal, obedece a uma forma bastante organizada e padronizada. Criamos templates específicos para a divulgação dos conteúdos, produzidos pelos alunos, e que devem obedecer a algumas regras. Tudo deve ser aprovado pelas três coordenadoras. E há um calendário de programação de publicações, que acontecem todas as terças e sextas. Ou seja, tudo é “enquadrado”. E isso acaba, por consequência, “enquadrando” os alunos, o que inviabiliza improvisos e registros mais cotidianos de seus experimentos. Como vimos, as “culturas midiáticas das juventudes” pressupõem que os jovens são os “atores sociais” e seus conteúdos são decorrentes de suas vidas no dia a dia, fazendo revelar aquilo que consomem das indústrias culturais, mas também as apropriações que delas fazem para produzir seus próprios materiais midiáticos. As responsabilidades “adultas” de um lado e as liberdades “juvenis” do outro, no contexto do LabJuX, fazem emergir uma contradição, quando retomamos o que nos norteia: o que entendemos por “culturas midiáticas das juventudes”. Este tensionamento, porém, pode ser visto como uma experimentação para os alunos, a de desviar dessas barreiras – as quais, vale ressaltar, são erguidas sobre mananciais de muito afeto, pois não há uma disputa conflagrada, apenas uma constatação diante do exercício de reflexão que nos propomos neste artigo.
Por ora, o que observamos nas matérias e conteúdos audiovisuais produzidos pelos estudantes é a influência do que está “consagrado” nas mídias tradicionais. Até o momento, não houve grandes demonstrações de iniciativas mais alternativas em suas formas, formatos e linguagens.
Outro aspecto que vale destacar também é o nosso deliberado autocontrole ao escrever algum texto para as redes sociais ou para o Portal. A tentação de usar gírias presentes no universo do skate, por exemplo, ou as adotadas pelos próprios jovens com quem convivemos, em geral é tolhida entre nós – ou seja, não nos sentimos autorizadas e legitimadas a reproduzir tais códigos.
Além do Instagram, os estudantes nos convenceram a criar, também, uma conta na rede social TikTok. De início, estranhamos, achamos desnecessário, totalmente tomadas pelo preconceito, já que se trata de um ambiente com o qual não estamos familiarizadas – no máximo, baixamos o aplicativo em nossos celulares para entender as práticas dessa “nova” plataforma e os usos que, principalmente, os jovens, nossos alunos, fazem dela, ou para acompanharmos publicações, não sem algum julgamento e preocupação, de nossos filhos. Talvez por esse motivo, nada foi produzido para o TikTok durante a primeira fase de implantação do LabJuX, apenas recentemente nos encaminhamos para esta rede social, como será visto mais à frente.
Diante dos jovens ativistas, encontramos muitas dificuldades em aplicar o que nos propomos: a criação de conteúdo para as redes sociais dos dois projetos. Encontramos inúmeras barreiras, muitas delas decorrentes da falta de estrutura e de comando dos líderes, quando o assunto é a comunicação de suas ações. Conseguimos elaborar uma pesquisa de opinião e duas oficinas que envolveram voluntários e crianças de um dos projetos sociais, além de alguns ensaios fotográficos e um aplicativo que facilita a troca entre os ativistas do skate no Rio de Janeiro, mas as produções midiáticas não avançaram. Entendemos, então, que é preciso estar dentro das favelas, é preciso participar ativamente do cotidiano de tais espaços para ganhar a credibilidade e a confiança que acreditamos não termos ainda conquistado. Esta inserção e participação, aliás, são características da cultura do skate, que não aceita hierarquias ou autoritarismos, porque a ideia é a construção coletiva. O diálogo com os líderes dos dois projetos é sempre muito aberto e acessível, mas, ao buscar aproximação com outras pessoas envolvidas, as barreiras se impõem.
(c) As “negociações”
Quando Reguillo (2013) afirma que é na relação de “negociação-tensão” com as indústrias culturais que os “atores socialmente situados” realizam suas ações, que ganham forma nas culturas de lazer, nas culturas urbanas, mas também, e principalmente, nos ambientes midiáticos digitais, a autora chama atenção para o fato de que não há um movimento de resistência, necessariamente, ao que tais indústrias oferecem. Ao contrário, há a incorporação de suas marcas, por exemplo, que ganham novos significados a partir dos usos que as juventudes contemporâneas analisadas pela antropóloga, em especial as latino-americanas, fazem desses caracteres. Da mesma forma, encontramos, no contexto do LabJuX, a dinâmica de “negociação-tensão” que se dá entre os membros e nós, coordenadoras do projeto, a qual é profícua, já que dela partem as primeiras iniciativas de autonomia que passaram a acontecer no final dos 12 meses de existência do Laboratório.
O primeiro movimento está na ativação da conta do TikTok. Quando provocados a elaborar um planejamento estratégico para o lançamento de um videocast produzido por eles, a partir de uma idealização inicial de uma de nós, os alunos apresentaram o TikTok como o espaço do LabJuX onde eles “mostrariam as suas caras”. Fugindo do padrão estabelecido no Instagram, com templates e formatações, a proposta que nos apresentaram é que eles se registrariam em vídeos e falariam do que está sendo feito no Laboratório. Sem mediações “adultas” ou “acadêmicas”, eles decidiriam como e quando publicar tais conteúdos, obedecendo a uma dinâmica própria desta rede social. Para tanto, descobrimos que nem todos estavam familiarizados e, para dar andamento à ideia, precisaram “estudar” formas de aproveitar a estrutura algorítmica do TikTok em benefício de “engajamento” nas publicações do LabJuX. Encontramos talvez, enfim, o lugar onde as “culturas midiáticas das juventudes” do Laboratório vão se impor como desejamos que sejam: de forma autônoma e sem amarras, pautadas nos códigos e cotidianos partilhados entre eles, praticamente sem mediações.11
Da mesma forma, os bolsistas e voluntários propuseram a participação do LabJuX como entidade apoiadora do Festival da Primavera da PUC-Rio (maio de 2023), oferecendo parte da cobertura audiovisual do evento – como contrapartida, o logotipo do LabJuX foi adesivado na mini-rampa de skate instalada no lugar onde se concentram os centros acadêmicos da PUC-Rio. Pela primeira vez, o LabJuX sairia do ambiente científico-acadêmico para afirmar-se “nas margens”, ou seja, na geografia que cabe às práticas nem sempre normativas dos estudantes dentro da universidade.
O caráter extensionista do LabJuX
O conceito de “extensão universitária” tem sido objeto de debate há tempos no Brasil e no mundo, como demonstra João Antônio de Paula (2013).
Paulo Freire, ao discutir o termo “extensão”, opondo-o ao de “comunicação”, aponta para um caminho que converge com a visão que o LabJuX alimenta, baseando-se na noção de “culturas midiáticas das juventudes”. O autor defende que
[...] no processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquêle que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isso mesmo, reinventá-lo; aquêle que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas. Pelo contrário, aquêle que é “enchido” por outros de conteúdos cuja inteligência não percebe, de conteúdos que contradizem a própria forma de estar em seu mundo, sem que seja desafiado, não aprende (Freire, 1983, p. 16).
Freire é inspirador ao se aproximar, grosso modo, da perspectiva de Rossana Reguillo da “negociação-tensão”, quando se olha pelo prisma das juventudes que aqui nos interessam. É preciso respeitar a experiência cotidiana dos jovens como elemento constitutivo do aprendizado, no contexto do LabJuX. Se, de um lado, domina o ambiente universitário e o princípio da relação hierárquica que se impõe entre professores e estudantes – a “tensão” –, de outro é preciso, de nossa parte, dar abertura para que estes criem conteúdos midiáticos a partir de seus próprios termos – a “negociação”. Para o autor, a extensão não pode ser uma “invasão cultural”, nem um ato que implica uma “superioridade”, e muito menos a substituição de um conhecimento técnico por um empírico. Muito ao contrário, é preciso respeitar os valores, os códigos, as práticas, as crenças de quem está “recebendo” e colocando em prática o aprendizado, pelas vias da efetiva troca dialógica, e não impositiva. E este não deixa de ser um enorme desafio de reflexividade das autoras deste artigo – como detentoras de uma dada dominação decorrente do papel não só de coordenadoras do Laboratório de Culturas Midiáticas das Juventudes, como também de pessoas adultas – como procuramos demonstrar ao descrever o percurso e o desenvolvimento do trabalho com os alunos.
O LabJuX, como espaço de experimentação que articula graduação com pós-graduação, ensino e pesquisa, nasce, portanto, dentro de uma vocação extensionista que busca a interação com projetos sociais, ativistas, coletivos e skatistas, consistindo em práticas de conhecimento aplicado. Como resultado, os graduandos envolvidos produzem suas primeiras matérias jornalísticas, crônicas, fotografias e conteúdo de áudio e vídeos, os quais pouco a pouco se acumulam e se fazem registrar na página do Portal e nas plataformas de redes sociais. Essa experiência proporciona-lhes o tão desejado “portfólio”, ou seja, uma coleção de trabalhos realizados no contexto da universidade, os quais comprovam suas habilidades profissionais, o que pode ajudar na busca por uma vaga de estágio ou de emprego no futuro.
Nossas observações até aqui apresentadas nos levam a concluir que as “culturas midiáticas das juventudes”, tal qual as definimos anteriormente, residem principalmente no caráter extensionista do LabJuX, no melhor sentido freiriano, o comunicacional, o da troca dialógica, ou seja, o de interação com o mundo para além dos muros da universidade, porém respeitando os aspectos culturais que essa incursão envolve. Afinal, a crítica de Freire se sustenta na ideia de que
[...] a ação extensionista envolve, qualquer que seja o setor em que se realize, a necessidade que sentem aquêles que a fazem, de ir até a “outra parte do mundo”, considerada inferior, para, à sua maneira, “normalizá-la”. Para fazê-la mais ou menos semelhante a seu mundo (Freire, 1983, p. 13).
É na emergência dos cotidianos e dos códigos partilhados entre as pessoas envolvidas no Laboratório, e entre elas e os skatistas, que devem se configurar os conteúdos gerados por meio da dinâmica de “negociação-tensão” que se estabelece não somente entre esses jovens e os professores-pesquisadores, mas também dentro dos próprios domínios juvenis. É na visita à favela de Santo Amaro, é na gravação externa na Praça XV ou em Petrópolis, é nas imersões em ambientes do skate, é nas entrevistas com os ativistas, enfim, que os estudantes se sentem provocados a dialogar com um cotidiano que não é o da universidade, cheio de normas e protocolos, mas sim o das juventudes pelas quais são mais ou menos atravessados. E, desse diálogo, criam produtos midiáticos que, de um lado, são orientados por preceitos do ensino e pesquisa, mas, de outro, libertam-se de formalismos e se expandem mais livremente – por exemplo, no limite, para o TikTok. Pelos temas trabalhados no Laboratório, os portfólios dos universitários também materializam política, essa que se faz no dia a dia, e reivindicam o lugar deles como “atores socialmente situados” (Reguillo, 2013).
O ambiente do ensino e da pesquisa reproduz valores e hierarquias sociais e conforma o olhar dos jovens a parâmetros técnicos e conceituais normativos, úteis para a instrumentalização das teorias e dos métodos trabalhados. Porém, é sobretudo na combinação de uma experiência da extensão universitária com estratégias de visibilidade midiática que os seus cotidianos se impõem como um código imanente praticado em toda a sua pluralidade, emergindo e sedimentando os espaços das juventudes contemporâneas como atores sociais e produtoras legítimas de cultura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência do LabJuX revela a potência e os limites da extensão universitária como prática dialógica e transformadora. Ao criar um espaço de experimentação midiática, o Laboratório se configurou como território de tensão e negociação constantes entre os valores institucionais da academia e os códigos culturais juvenis. A categoria “culturas midiáticas das juventudes”, formulada no âmbito do projeto, mostrou-se frutífera para compreender os modos de produção de sentido e de ação social protagonizados por jovens que desafiam representações midiáticas hegemônicas e constroem, a partir de suas experiências, novos repertórios comunicacionais.
Contudo, os desafios enfrentados não foram poucos. Entre eles, destacam-se: as hierarquias intrínsecas à estrutura universitária, que dificultam a autonomia criativa dos discentes; a padronização exigida pelos formatos acadêmicos e pelas plataformas institucionais, que tensiona a fluidez e espontaneidade das expressões juvenis; e o desafio de consolidar parcerias duradouras com coletivos periféricos, por serem elas muitas vezes atravessadas por desigualdades estruturais, desconfianças institucionais e barreiras comunicacionais. O equilíbrio entre orientação e liberdade, rigor técnico e invenção cotidiana, institucionalidade e informalidade se configura como o principal campo de disputa simbólica e metodológica do LabJuX.
Os desafios para a extensão universitária passam por repensar suas práticas para além da lógica da “transferência de conhecimento”, assumindo o risco e a potência da coautoria com as juventudes. Trata-se de incorporar de forma mais profunda os princípios freirianos de diálogo, escuta ativa e reconhecimento da experiência como fontes legítimas de saber. A universidade que deseja se abrir para o mundo precisa, antes, abrir-se para si mesma, questionando suas normas, suas linguagens e seus modos de produção do conhecimento.
Como desdobramentos para futuras pesquisas, propõe-se: (1) o aprofundamento da análise sobre as dinâmicas de poder que atravessam a mediação entre juventudes e instituições acadêmicas; (2) a investigação de outros espaços e linguagens nos quais se manifestam as culturas midiáticas juvenis; (3) o estudo longitudinal dos impactos da participação em projetos de extensão sobre os trajetos formativos e profissionais dos graduandos envolvidos; e (4) o mapeamento de iniciativas similares em universidades brasileiras, com vistas à constituição de uma rede de práticas e reflexões sobre juventudes, mídia e extensão.
O LabJuX, ao buscar tensionar os muros simbólicos e concretos da universidade, afirma-se como um laboratório não apenas de comunicação, mas também de cidadania, protagonismo juvenil e reinvenção epistemológica. A continuidade e a expansão desse tipo de projeto exigem um compromisso institucional com a pluralidade, a escuta e a transformação social.
REFERÊNCIAS
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VELHO, Gilberto. Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
Cláudia da Silva Pereira
Doutora e Mestre em Antropologia Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/IFCS-UFRJ). Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Bolsista Cientista do Nosso Estado da Faperj.
Marcella Silva Azevedo
Pesquisadora de pós-doutorado na PUC-Rio com bolsa concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Bolsa PDJ, Proc. 174486/2023-5). Pesquisadora do Laboratório de Culturas Midiáticas das Juventudes (LabJuX), no Departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Professora Adjunta do curso de Comunicação Social da Universidade Católica de Petrópolis (UCP). Doutora e Mestre em Comunicação pela PUC-Rio.
Amanda Almeida Antunes
Doutora e Mestre em Comunicação pela PUC-Rio. Professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e do Centro Universitário La Salle (UniLaSalle-RJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Juventudes cariocas, suas culturas e representações midiáticas (Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ – 2015). Atualmente, também presta serviços de criação publicitária, design gráfico, design de interfaces digitais e fotografia.
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Como citar este documento – ABNT PEREIRA, Cláudia da Silva; AZEVEDO, Marcella Silva; ANTUNES, Amanda Almeida. LabJuX: uma experiência de ensino, pesquisa e extensão universitária no contexto das juventudes. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 15, e054895, p. 1-19, 2025. DOI: https://doi.org/10.35699/2237-5864.2025.54895 . |
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1 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-5382-130X . E-mail: claudiapereira@puc-rio.br
2 Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Petrópolis, RJ, Brasil.
ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-7860-3704 . E-mail: marcella.azeve@gmail.com
3 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-5792-8753 . E-mail: amandaantunesrj@gmail.com
Recebido em: 16/10/2024 Aprovado em: 16/05/2025 Publicado em: 01/08/2025
4 Projeto financiado pela Chamada Universal do CNPq – Processo nº 402728/2023-8 e pelo Edital Auxílio Básico à Pesquisa (APQ1) nº E/26-211.732/2021. A autora Cláudia Pereira é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Processo nº 304941/2023-9. A autora Marcella Azevedo é Bolsista de Pós-Doutorado Júnior do CNPq – Processo nº 174486/2023-5.
5 Disponível em: http://cbsk.com.br/noticias/noticias/cbsk-e-ong-social-skate-mapeiam-projetos-sociais-com-skate-no-brasil/1901
6 Os episódios do videocast foram produzidos e finalizados no período de observação indicado, até final de maio de 2023, mas foram lançados depois, no dia 21 de junho de 2023, no Dia Mundial do Skate.
7 Disponível em: http://www.labjux.com.puc-rio.br
8 No original: “ Autoethnography is an autobiographical genre of writing and research that displays multiple layers of consciousness. […] Usually written in first-person voice, autoethnographic texts appear in a variety of forms—short stories, poetry, fiction, novels, photographic essays, personal essays, journals, fragmented and layered writing, and social science prose. In these texts, concrete action, dialogue, emotion, embodiment, spirituality, and selfconsciousness are featured, appearing as relational and institutional stories impacted by history and social structure, which themselves are dialectically revealed through actions, feelings, thoughts, and language ” (Ellis, 1999, p. 673).
9 Os cinco universitários são Ana Beatriz Pinheiro (Bolsista IC CNPq), Carlos Eduardo Gomes (Bolsista IC CNPq – PUC-Rio), Maria Eduarda Chagas (Bolsista IC CNPq – PUC-Rio), Vinícius Verta (Voluntário IC – PUC-Rio) e Gabriel Amaral (Voluntário UCP/PUC-Minas). As autoras agradecem a colaboração de todos no LabJuX, em especial à Aline Pimenta, no momento em que se escreve este artigo, aluna do curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PPGCOM/PUC-Rio) e uma das coordenadoras do LabJuX, juntamente com as três autoras.
10 No Instagram, o perfil é o @labjux.
11 Como forma de atualização, o que observamos depois do período indicado da autoetnografia, é que o TikTok não foi utilizado. Por outro lado, as expressões mais livres e espontâneas dos alunos se deram, em 2024, por meio de produções audiovisuais que aconteceram em campeonatos de skate e outras imersões no campo, algumas delas por iniciativa dos estudantes.
Rev.
Docência Ens. Sup., Belo Horizonte, v. 15, e054895, 2025