VOLUME 16

2026

ISSN: 2237-5864


Atribuição CC BY 4.0 Internacional

Acesso Livre


DOI: https://doi.org/10.35699/2237-5864.2026.58885

SEÇÃO: artigoS

Percepções de discentes de enfermagem sobre o ensino e a inserção do empreendedorismo na formação profissional

Shape1

Percepciones de los estudiantes de enfermería sobre la docencia y la inclusión del emprendimiento en la formación profesional

Shape2

Nursing students’ perceptions of teaching and the inclusion of entrepreneurship in professional training

Ana Beatriz Moraes de Freitas1, Ana Beatriz de Pontes Queiroz2,

Natália Amorim Ramos Félix3, Janieiry Lima de Araújo4

RESUMO

Esta pesquisa de iniciação científica, descritiva e exploratória, com abordagem quantitativa e qualitativa, teve como objetivo geral identificar as concepções de discentes sobre o ensino de enfermagem e o empreendedorismo em uma universidade pública do interior do Rio Grande do Norte. Os participantes foram 70 discentes regularmente matriculados no curso de graduação em enfermagem, distribuídos entre os 4º, 5º, 7º e 9º períodos. A coleta de dados ocorreu entre os meses de outubro e dezembro de 2024. O instrumento utilizado foi um questionário elaborado pelas pesquisadoras, contendo questões fechadas e abertas. Os dados das questões fechadas foram analisados por meio de estatística descritiva, enquanto as respostas às questões abertas foram analisadas qualitativamente pela técnica de análise de conteúdo. Os resultados indicaram que, embora os estudantes reconheçam o empreendedorismo como forma de aumentar a valorização profissional e gerar inovação no cuidado, a formação ainda aborda pouco o tema. Portanto, os achados sugerem que são necessárias melhorias na formação de enfermeiros. Ao compreender as necessidades e o potencial empreendedor dos estudantes, as instituições de ensino podem criar um ambiente mais propício ao desenvolvimento de líderes e inovadores na enfermagem.

Palavras-chave: ensino superior; educação em enfermagem; autonomia profissional.

RESUMEN

Este proyecto de investigación descriptiva y exploratoria de pregrado, con un enfoque cuantitativo y cualitativo, tuvo como objetivo identificar las concepciones de los estudiantes sobre la formación en enfermería y el emprendimiento en una universidad pública del interior de Rio Grande do Norte. Participaron 70 estudiantes matriculados regularmente en el programa de pregrado en enfermería, distribuidos en los semestres 4.º, 5.º, 7.º y 9.º. La recolección de datos tuvo lugar entre octubre y diciembre de 2024. El instrumento utilizado fue un cuestionario, desarrollado por los investigadores, con preguntas cerradas y abiertas. Los datos de las preguntas cerradas se analizaron mediante estadística descriptiva, mientras que las respuestas a las preguntas abiertas se analizaron cualitativamente mediante técnicas de análisis de contenido. Los resultados indicaron que, si bien los estudiantes reconocen el emprendimiento como una forma de aumentar el valor profesional y generar innovación en la atención, la formación aún aborda el tema de forma insuficiente. Por lo tanto, los hallazgos sugieren que es necesario mejorar la formación en enfermería. Al comprender las necesidades y el potencial emprendedor de los estudiantes, las instituciones educativas pueden crear un entorno más propicio para el desarrollo de líderes e innovadores en enfermería.

Palabras clave: enseñanza superior; educación em enfermería; autonomía profesional.

ABSTRACT

This descriptive and exploratory undergraduate research project, with a quantitative and qualitative approach, aimed to identify students’ conceptions of nursing education and entrepreneurship at a public university in the interior of Rio Grande do Norte. Participants were 70 students regularly enrolled in the undergraduate nursing program, distributed across the 4th, 5th, 7th, and 9th semesters. Data collection took place between October and December 2024. The instrument used was a questionnaire, developed by the researchers, containing closed and open-ended questions. Data from the closed-ended questions were analyzed using descriptive statistics, while responses to the open-ended questions were analyzed qualitatively using content analysis techniques. The results indicated that, although students recognize entrepreneurship as a way to increase professional value and generate innovation in care, the training still addresses the topic insufficiently. Therefore, the findings suggest that improvements in nursing education are necessary. By understanding the needs and entrepreneurial potential of students, educational institutions can create an environment more conducive to the development of leaders and innovators in nursing.

Keywords: higher education; nursing education; professional autonomy.

INTRODUÇÃO

O empreendedorismo possui diferentes conceituações a depender do contexto em que é abordado. Uma das definições que o caracteriza é o de transformar ideias em ações práticas com o objetivo de melhorar a qualidade de vida na sociedade. Na enfermagem, isso se traduz no foco na saúde e no bem-estar das pessoas (Guerra; Jesus; Araújo, 2021).

A aplicação do empreendedorismo na enfermagem ocorre, principalmente, de três formas: o empreendedorismo empresarial, social e intraempreendedorismo. O empreendedorismo empresarial corresponde a criação de um negócio autônomo, em que o empreendedor busca atender às necessidades do mercado. No intraempreendedorismo, o empreendedor se encontra dentro de uma organização e, nesse caso, ele busca inovar produtos e serviços para o sucesso da empresa. E, por fim, o empreendedorismo social tem como objetivo melhorar as condições de vida da comunidade na qual o empreendedor está inserido (Copelli, Erdmann, Santos, 2019).

Destaca-se que a prática empreendedora na enfermagem tem como uma de suas precursoras Florence Nightingale, cuja atuação no século XIX rompeu com o modelo empírico de cuidado da época. O modelo nightingaleano estruturou o cuidado com base em fundamentos científicos, a valorização do ambiente como elemento terapêutico, a formação sistematizada de enfermeiros e a incorporação de princípios éticos e disciplinares para a consolidação da enfermagem como ciência (Turkowski; Turkowski, 2024).

Nesse sentido, Nightingale é reconhecida como uma empreendedora social ao idealizar e implementar projetos que geraram impacto coletivo e transformaram a organização dos serviços de saúde, aplicando conhecimento de gestão e evidência para qualificar a assistência. Ademais, o modelo nightingaleano de ensino influenciou a criação da Escola de Enfermagem Anna Nery, no ano de 1923, transformando a formação dos enfermeiros no Brasil (Backes et al., 2020).

Atualmente, o enfermeiro é reconhecido como profissional liberal, conforme entendimento da Confederação Nacional de Profissões Liberais, tendo seu exercício assegurado pela Constituição Federal e regulamentado pela Lei nº 7.498 (Brasil, 1986). Portanto, o enfermeiro possui autonomia para atuar e empreender em diferentes contextos, sendo esse direito respaldado tanto pela referida Lei quanto pelas resoluções do Conselho Federal de Enfermagem, a exemplo das Resoluções nº 358/2009, nº 568/2018 e nº 606/2019, que normatizam e ampliam as possibilidades de atuação profissional (Brasil, 1986; COFEN, 2009; 2018; 2019).

No contexto de formação em enfermagem, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) preconizam um perfil profissional generalista, humanista, crítico e reflexivo, capaz de atuar nos diferentes níveis de atenção. Embora a formação empreendedora não seja explicitamente mencionada nesse documento, as DCNs destacam competências como administração e gerenciamento, evidenciando que o enfermeiro deve estar apto a atuar como empreendedor, gestor, empregador e líder em serviços de saúde (Brasil, 2001).

Apesar de tais competências serem fundamentais para o desenvolvimento do enfermeiro empreendedor, o tema empreendedorismo ainda é pouco abordado de forma sistematizada na formação profissional. Estudos apontam que a inserção desse conteúdo nos currículos ocorre de maneira incipiente, e a literatura ainda carece de estudos acerca de como o empreendedorismo é efetivamente incorporado na graduação em enfermagem (Amaral et al., 2021; Colichi et al., 2022; Silva et al., 2023).

Diante desse cenário, evidencia-se a necessidade de incluir o empreendedorismo na grade curricular para ser abordado ao longo da graduação em enfermagem, uma vez que contribui para o fortalecimento da enfermagem ao possibilitar a transformação da forma como os serviços são prestados e como a profissão é socialmente percebida (Amaral et al., 2021).

Ademais, incentivar o empreendedorismo durante a formação apresenta-se como estratégia para a ampliação de novos ramos de atuação do enfermeiro, para a valorização social da categoria e para o estímulo ao crescimento econômico (Guerra; Jesus; Araújo, 2021).

Diante do exposto, torna-se relevante investigar como o tema do empreendedorismo tem sido abordado na formação acadêmica dos estudantes de enfermagem, considerando os significados atribuídos e os sujeitos envolvidos nesse processo. Nesse sentido, formula-se a seguinte questão de pesquisa: quais são as concepções dos discentes de enfermagem sobre o empreendedorismo e como esse conteúdo é abordado na graduação?

Assim, o presente estudo teve como objetivo identificar as concepções dos discentes acerca do ensino de enfermagem e da inserção do empreendedorismo no curso, buscando compreender como essa temática é percebida no contexto da formação profissional.

REFERENCIAL TEÓRICO

O mercado de trabalho em saúde tem passado por transformações ao longo dos anos, marcado por mudanças na gestão pública da saúde, incorporação de diferentes formas de contratação e pela necessidade de responder às novas demandas da população. Essas mudanças têm modificado a forma como o enfermeiro se insere e atua profissionalmente (Colichi et al., 2022).

Além disso, observa-se um mercado cada vez mais dinâmico e competitivo, no qual características empreendedoras passam a ser consideradas como um diferencial para a inserção e o desenvolvimento profissional do enfermeiro (Trotte et al., 2021). Nesse cenário, a incorporação de conteúdos relacionados ao empreendedorismo na formação em enfermagem é apontada como estratégia fundamental para preparar profissionais capazes de responder às novas configurações no mundo do trabalho (Colichi et al., 2022).

No entanto, um estudo desenvolvido por Silva et al. (2024) evidenciou que a presença de disciplinas específicas de empreendedorismo nos currículos de enfermagem de instituições públicas de ensino superior brasileiras ainda é incipiente. Os autores identificaram que apenas uma pequena parcela dos cursos analisados contempla o empreendedorismo em componentes curriculares.

Complementarmente, Silva et al. (2024) apontam que a forma como essas disciplinas são estruturadas nos currículos também constitui um obstáculo para o fortalecimento da formação empreendedora. Os autores apontam que a predominância de componentes curriculares teóricos e com baixa carga horária, especialmente quando comparados àqueles voltados a competências assistenciais, tendem a restringir as oportunidades de desenvolvimento de habilidades práticas e processuais do empreendedorismo, que são fundamentais para a consolidação de iniciativas empreendedoras na enfermagem.

Outrossim, uma formação que se limita apenas ao assistencial, formando um profissional subordinado, está desalinhada ao exercício da profissão, que requer um enfermeiro dinâmico, inovador e de raciocínio rápido, apto para atuar nas mais variadas situações diárias e cenários de saúde (Silva; Xavier; Almeida, 2020).

A inserção do empreendedorismo na formação em enfermagem deve ocorrer de forma estruturada e integrada, por meio de componentes curriculares que articulem conteúdos teóricos e práticos, com carga horária adequada, além de possibilitar a transversalização do tema em diferentes disciplinas. Ademais, destaca-se a importância de fomentar, entre docentes e discentes, uma cultura de empreendedorismo inovador capaz de estimular a criatividade, a autonomia e a proposição de soluções para os desafios do campo da saúde (Amaral et al., 2021; Annechini, 2022).

Nesse sentido, os Projetos Político-Pedagógicos (PPP), Projetos Pedagógicos de Curso (PPC) e ementas das instituições de ensino superior devem contemplar disciplinas que abordam dimensões éticas, políticas e sociais da prática profissional, favorecendo o desenvolvimento do pensamento crítico, de habilidades de liderança e de atitudes empreendedoras. Essa organização curricular contribui para uma formação alinhada às demandas atuais, fortalecendo o preparo do enfermeiro para atuar de forma inovadora e protagonista nos serviços de saúde (Rocha et al., 2025).

Ademais, é necessário que os planos de ensino estejam alinhados a metodologias pedagógicas coerentes com as aprendizagens esperadas. Atividades como oficinas, projetos interdisciplinares, estudos de caso, simulações, visitas técnicas e desenvolvimento de projetos em grupo, que abordem estratégias práticas, favorecem o desenvolvimento do comportamento empreendedor (Souza, 2019).

Destaca-se que a aplicação do empreendedorismo na saúde, em suas diferentes tipologias, contribui para o alcance do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 3, que tem como finalidade garantir uma vida saudável e promover o bem-estar para todas as pessoas, em todas as idades (ONU, 2015). Por meio da qualificação e ampliação da atuação da enfermagem, promovendo inovações no cuidado e expandindo o escopo das ações em saúde, essa perspectiva contribui para a superação da visão limitada de que empreender está associado apenas à abertura de negócios e/ou que pouco se relaciona com o Sistema Único de Saúde (SUS) (Menegaz; Trindade; Santos, 2021).

Nesse contexto, a formação empreendedora não se traduz apenas no incentivo de abertura de empresas, mas também no ensino de atitudes holísticas, com práticas capazes de impactar positivamente os serviços de saúde e, consequentemente, a assistência prestada (Copelli et al., 2022; Guerra; Jesus; Araújo, 2021).

Assim, mesmo os estudantes que não pretendem empreender empresarialmente podem ser beneficiados, uma vez que essa abordagem contribui para a construção de competências relacionadas ao pensamento criativo, à inovação, ao senso crítico e à responsabilidade, tornando-se relevante no contexto do ensino superior (Souza, 2019).

A ausência ou fragilidade da abordagem acerca do empreendedorismo na formação em enfermagem apresenta-se como um obstáculo para os enfermeiros empreenderem. Soma-se ainda a crença de que o trabalho da enfermagem é realizado por amor, associando a atuação dos enfermeiros ao trabalho voluntariado e de caridade e estabelecendo capacidade restrita para ser remunerado. Outro fator limitante aos avanços das práticas empreendedoras na enfermagem é a hegemonia do modelo médico-centrado e hospitalocêntrico (Annechini, 2022; Copelli et al., 2022; Silva; Xavier; Almeida, 2020).

Pode-se inferir que a discussão limitada sobre empreendedorismo com foco no empresarial tem repercussões no perfil profissional da enfermagem. De acordo com a pesquisa Perfil da enfermagem no Brasil, de um total de 601.052 enfermeiros, apenas 8.030 (1,3%) atuam como autônomos (Brasil, 2017).

Esse perfil de inserção profissional expressa-se no padrão histórico de vínculos trabalhistas da enfermagem, caracterizado pela predominância do regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e pelo crescimento contínuo dessa modalidade de contratação. Embora tal expansão amplie o número de profissionais inseridos no mercado, está associada a menores níveis de estabilidade e proteção social quando comparada ao regime estatutário. Paralelamente, observa-se a estagnação dos vínculos estatutários, o que evidencia a limitada realização de concursos públicos para a ampliação desses postos (Brasil, 2025).

Diante desse cenário, o debate sobre empreendedorismo na enfermagem não se configura como substituto das responsabilidades do Estado na garantia de trabalho digno, mas como possibilidade complementar de fortalecimento da autonomia e do protagonismo profissional. Assim, a incorporação do empreendedorismo ao campo da enfermagem não implica desresponsabilização quanto à oferta de vínculos adequados, remuneração compatível e condições de trabalho, ao mesmo tempo em que pode favorecer a renovação das práticas, a produção de soluções inovadoras e o desenvolvimento de novas formas de atuação, sem descaracterizar a identidade da enfermagem (Araújo et al., 2022).

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de uma pesquisa descritiva, exploratória, de abordagem quantitativa e qualitativa. Utilizou-se o método misto no intuito de alcançar um número maior de respostas, assim como captar as subjetividades do objeto de estudo, considerando que não se pode quantificar as vivências e experiências pessoais (Minayo, 2009).

A pesquisa foi realizada em uma universidade pública, localizada no interior do estado do Rio Grande do Norte. Os participantes da pesquisa foram os discentes regularmente matriculados no curso de graduação em enfermagem. De acordo com a Secretaria do Departamento Acadêmico de Enfermagem da Universidade, no segundo período letivo de 2023 havia um total de 136 estudantes matriculados.

A amostra foi constituída por conveniência, de forma não probabilística, mediante convite aos discentes que atendiam aos critérios estabelecidos. Como critérios de inclusão, considerou-se estar regularmente matriculado nos cursos de graduação de enfermagem. Como critérios de exclusão, aplicou-se: estar de atestado médico ou licença médica no período da coleta de dados; estar em situação de abandono do curso no período da coleta de dados; estar em situação de trancamento de matrícula no período da coleta de dados; ser menor de 18 anos.

Dos discentes aptos a participarem da pesquisa, 50 recusaram participar e 16 enquadraram-se nos critérios de exclusão, resultando em uma amostra final de 70 estudantes distribuídos entre os 4º, 5º, 7º e 9º períodos.

A coleta de dados ocorreu no período de outubro a dezembro de 2024, por meio de entrevistas semiestruturadas, conduzidas presencial e individualmente por duas das pesquisadoras do estudo, em salas reservadas da universidade, assegurando sigilo e confidencialidade.

O instrumento utilizado foi elaborado pelas autoras, contendo perguntas abertas e fechadas. As questões abertas tinham a finalidade de investigar como o empreendedorismo pode contribuir para a prática da enfermagem, habilidades que são consideradas importantes na área e como o empreendedorismo é abordado no ambiente acadêmico. Já as questões fechadas investigavam a importância da inclusão do empreendedorismo no currículo de enfermagem, o impacto na carreira profissional, o incentivo por parte dos docentes e a relação entre a capacidade empreendedora e a qualidade do cuidado em enfermagem.

Os dados coletados através das questões abertas foram analisados utilizando o método de análise de conteúdo (AC). Esta técnica se organiza em três fases: 1) pré-análise, 2) exploração do material e 3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação (Bardin, 1977). Portanto, a análise dos dados ocorreu da seguinte forma: transcrição das falas dos entrevistados, os quais foram identificados por números; seguido de análise, buscando identificar o conteúdo de interesse, isto é, informações sobre o objeto de estudo em questão; e discussão dos achados, relacionando-os com o referencial teórico utilizado ao longo do desenvolvimento da pesquisa.

Os dados coletados por meio das questões fechadas foram tabulados em planilha no programa Excel e analisados por estatística descritiva, sendo interpretados, comparados e discutidos com vistas a alcançar o objetivo da pesquisa.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), com o parecer de número 6.667.338 e CAAE 76108823.3.0000.5294, emitido em 23 de fevereiro de 2024.

A pesquisa foi financiada pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), através do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) – Edição 2024-2025.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Caracterização dos discentes

A pesquisa contou com a participação de 70 discentes do curso de enfermagem. Os dados referentes às características demográficas dos participantes evidenciaram que o perfil mais prevalente é o de sexo feminino (68,57%), de cor/raça branca (55,71%), com idade entre 20 a 24 anos (62,86%), com estado civil solteiro (85,71%), conforme observado na Tabela 1.

Tabela 1 – Perfil demográfico dos discentes do curso de enfermagem.

Variável

Categoria

n

%

Sexo

Feminino

48

68,57


Masculino

22

31,43


Idade




Raça/Cor


20 – 24

25 – 29

30 – 34


Branca


44

20

6


39


62,86

28,57

8,57


55,71


Preta

7

10,00


Parda

24

34,29


Estado Civil


Solteiro


60


85,71


Casado

5

7,14


União Estável

5

7,14

Fonte: elaborada pelas autoras, 2025.

A Tabela 2 apresenta as informações sobre o perfil acadêmico dos participantes. Verificou-se que a maioria dos discentes (94,29%) está na sua primeira graduação. Esse resultado evidencia que os estudantes estão em processo inicial de formação acadêmica e construção da identidade profissional.



Tabela 2 – Perfil acadêmico dos discentes do curso de enfermagem.

Escolaridade

n

%

Ensino Superior Incompleto

66

94,29

Ensino Superior Completo

4

5,71

Fonte: elaborada pelas autoras, 2025.

Ensino do empreendedorismo na graduação de enfermagem

A Tabela 3 apresenta a percepção dos discentes acerca da inserção do ensino de empreendedorismo na graduação em enfermagem, evidenciando amplo reconhecimento da importância do tema para a formação profissional.

Tabela 3 - Concepção dos discentes sobre o ensino de empreendedorismo na graduação de enfermagem.

PERGUNTAS

ALTERNATIVAS

n

%

Você considera importante que o ensino de empreendedorismo seja incorporado no currículo de enfermagem?


SIM

NÃO

69

1

98,57

1,43

Você acredita que o ensino de empreendedorismo pode beneficiar sua carreira como enfermeiro (a)?


SIM

NÃO

70

-

100

-

Você sente que os docentes incentivam o desenvolvimento de habilidades empreendedoras durante o curso?


SIM

NÃO

8

62

11,43

88,57

Você acredita que a capacidade empreendedora pode melhorar a qualidade do cuidado de enfermagem?

SIM

NÃO

66

4

94,29

5,71

Fonte: elaborada pelos autores, 2025.

Na graduação em enfermagem investigada, o empreendedorismo não está inserido na grade curricular, no entanto, o elevado percentual de estudantes que consideraram importante a sua inserção (98,57%) evidencia uma lacuna formativa percebida pelos próprios discentes.

Linearmente, 100% dos discentes acreditam que o ensino do empreendedorismo pode beneficiar sua carreira como profissional da enfermagem. Esse achado reforça, ainda, a percepção de que a formação tradicional, centrada no modelo assistencial e hospitalocêntrico, pode não contemplar as novas possibilidades de atuação do enfermeiro, e que os estudantes reconhecem essa realidade.

Além disso, na perspectiva dos discentes, o empreendedorismo enquanto disciplina contribui para a formação do enfermeiro no sentido de desenvolver mais autonomia e possibilitar novos campos de atuação, como pode ser evidenciado nas seguintes falas:

O empreendedorismo contribui para a formação do enfermeiro porque ajuda a ter ainda mais autonomia” (Aluno 27).

A principal contribuição para nossa formação é abrir um novo horizonte para a atuação da enfermagem” (Aluno 30).

Contribui de uma forma que o enfermeiro possa ter mais possibilidades de mercado. Porque às vezes fica restrito apenas a área assistencial e esse lado da implementação do SUS” (Aluno 52).

Com relação às contribuições do empreendedorismo na formação, as falas dos alunos refletem uma percepção apenas do empreendedorismo empresarial. Logo, não percebem que o empreendedorismo pode ser aplicado dentro do SUS, por meio de estratégias inovadoras no processo de cuidar (Araújo et al., 2022Santos; Bolina, 2020;). Nesse sentido, a análise dos dados revela que, embora a percepção sobre o empreendedorismo ainda seja limitada, 94,29% dos alunos reconhecem o seu potencial para melhorar a qualidade do cuidado de enfermagem.

No que se refere à prática empreendedora e às habilidades necessárias, durante muito tempo acreditou-se que as competências consideradas essenciais para empreender era algo inato de cada indivíduo. No entanto, essa concepção tem sido superada. Atualmente, reconhece-se que é possível desenvolver um perfil empreendedor por meio do aprimoramento das habilidades teóricas e práticas sobre empreendedorismo (Copelli et al., 2022).

Esse desenvolvimento deve iniciar-se durante a graduação, que é a base da formação profissional (Souza, 2021). Nessa perspectiva, os discentes destacaram em suas falas que as principais habilidades seriam a comunicação, liderança e o gerenciamento, como pode ser observado nos trechos abaixo:

As habilidades me remetem muito ao financeiro, então a primeira coisa que me vem à cabeça é essa organização financeira e orçamentária. Mas também habilidades mais humanas, de conversação, de compreensão, de você entender a necessidade do seu cliente” (Aluno 09).

Em relação às habilidades? Olha, liderança, com certeza. Comunicação, e poderia falar de marketing também” (Aluno 10).

E as habilidades vão ser aquelas que a gente vê em processos gerenciais, então comunicação, liderança, gerenciamento [...]” (Aluno 24).

Além das habilidades supracitadas, é necessário compreender que o empreendedor é o agente criador, que transforma uma ideia em realidade, assumindo os riscos do fracasso ou colhendo os frutos do sucesso. Nesse papel, os empreendedores se destacam como agentes de transformação, impulsionando mudanças significativas na sociedade e nos mercados. Além disso, espera-se que possuam valores como honestidade, confiança, maturidade, integridade e simpatia, além de emoções positivas e socialmente apreciadas, como sensibilidade, satisfação e otimismo (Kostadinova; Genova, 2020).

Com relação ao incentivo pelos docentes para o desenvolvimento de habilidades empreendedoras, 88,57% dos estudantes apontaram não terem sido incentivados, além de mencionarem que não existe uma discussão entre discentes e docentes sobre empreendedorismo, como pode ser verificado nas falas a seguir:

Não há muito essa discussão entre os professores [...] não acredito que seja bastante incentivado, acho que são incentivadas outras coisas e não o empreendedorismo em si aqui na universidade” (Aluno 02).

Não acho que é valorizado. Na verdade, muitas pessoas lhe desmotivam, né? Eu não acho que a gente tenha esse impulso assim, por parte do docente, e a gente se sente até um pouco desacreditado, né?” (Aluno 07).

Não. Aqui a gente é muito focado em produzir ciência e o empreendedorismo é visto como uma coisa à parte disso” (Aluno 15).

Os estudantes apontaram que os docentes que atuam como empreendedores fora do ambiente acadêmico tendem a abordar com mais frequência a discussão sobre empreendedorismo em sala de aula. Isso indica que o incentivo ao empreendedorismo ocorre de forma pontual, aparecendo de modo circunstancial. Essa observação pode ser verificada nas narrativas abaixo:

Tem alguns professores que abordam bastante. Já outros nunca chegaram a mencionar. Eu acho que os professores que mais abordam são esses que utilizam do empreendedorismo. Vivem disso também” (Aluno 41).

Assim, já foi falado por cima por alguns professores que são empreendedores, mas focado dentro de uma disciplina, não” (Aluno 50).

Eu acredito que quando a gente está com algumas professoras que são empreendedoras, que tem seu próprio consultório, e elas meio que incentivam a gente e mostram esses novos caminhos que a gente pode seguir, e que é um campo em ascendência” (Aluno 60).

Relacionado ao acesso a alguma disciplina ou atividade durante a graduação que tenha abordado o empreendedorismo, existiram algumas divergências, variando conforme os diferentes períodos. No 9º período do curso, 47,61% dos discentes disseram não ter tido nenhuma discussão sobre empreendedorismo na sua formação. No 7º período, esse percentual foi de 89,47%, enquanto no 5º e 4º períodos, 100% afirmaram não ter tido contato com o tema. Isso demonstra que o empreendedorismo não está estruturado de forma sistemática ao longo da formação.

Além disso, os relatos dos alunos do 9º e 7º períodos indicam que o contato com o empreendedorismo ocorre de forma pontual, por meio de eventos ou inserções transversais em componentes curriculares, como disciplinas voltadas à gestão. As falas revelam que embora existam iniciativas isoladas, não há uma disciplina específica dedicada ao tema. Esse cenário reforça a percepção de que o empreendedorismo é abordado de forma fragmentada e eventual, o que pode limitar a consolidação das competências na formação. Essas afirmativas podem ser evidenciadas nos relatos dos alunos:

Na minha grade curricular não tem uma disciplina ou componente que venha a trabalhar o empreendedorismo, mas acaba que o curso desempenha alguns eventos e acaba trazendo enfermeiros empreendedores. E é o único contato que a gente tem com essa enfermagem empreendedora” (Aluno 01).

A disciplina de uma professora [Seminário Temático] que a gente fazia, abordava como empreender, as leis, o que você precisa para poder atuar dentro do setor, o que você precisa ter de legislações, o que você precisa ter de documentações. A gente teve um seminário bem legal” (Aluno 11).

Teve alguma atividade curricular como, por exemplo, no processo gerenciar, que a gente viu esses tipos de liderança que também auxiliam para esse empreendedorismo. Mas uma disciplina focada no empreendedorismo a gente não teve” (Aluno 24).

Mesmo não sendo um tema amplamente discutido na graduação e diante da ausência de incentivo por parte dos docentes, 52,86% dos alunos, quando interrogados sobre o interesse em desenvolver projetos ou iniciativas empreendedoras na área da enfermagem, responderam que já pensaram em empreender, enquanto 47,14% afirmaram que não têm interesse. Esse resultado mostra que mais da metade dos estudantes manifesta interesse em explorar novas possibilidades dentro da enfermagem, assim como uma parte considerável ainda não vê o empreendedorismo como uma alternativa de carreira.

Com relação às principais áreas de interesse dos discentes, as mais citadas foram body piercing, clínica de saúde da mulher, dermatologia/estética e feridas e curativos. Além dos campos referidos, tem-se ainda os serviços de home care, administração de medicamentos, cuidados com pacientes diabéticos e oncológicos, e podologia, dentre outras infinitas áreas, sendo, portanto, um campo em expansão (Oliveira et al., 2022).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O empreendedorismo na enfermagem, apesar de fazer parte da história da profissão desde Florence Nightingale, ainda não ocupa o espaço necessário na formação acadêmica. No entanto, diante das novas possibilidades de atuação do enfermeiro, repensar o ensino sobre empreendedorismo é essencial para formar profissionais mais preparados, autônomos e inovadores. Assim, compreender a visão dos estudantes sobre esse tema é um passo importante para avançar nesse caminho.

Os resultados desta pesquisa revelam que, embora os estudantes de enfermagem reconheçam a importância do empreendedorismo para a profissão, ainda enfrentam uma formação que pouco aborda o tema de forma estruturada. Esse achado reforça a necessidade de uma melhor organização curricular, de forma que a abordagem do empreendedorismo não ocorra de forma pontual, mas progressiva e integrada ao percurso formativo.

Assim, os achados trazem um panorama valioso para aprimorar a formação de enfermeiros, pois a identificação do nível de interesse, conhecimento e percepção dos discentes sobre o tema permite identificar lacunas no currículo atual. Ao compreender as necessidades e o potencial empreendedor dos estudantes, as instituições de ensino podem criar um ambiente mais propício ao desenvolvimento de líderes e inovadores na enfermagem, inserindo essa temática de forma mais estruturada, para acompanhar as mudanças sociais e fortalecer o protagonismo da enfermagem.

Para além disso, espera-se que os resultados deste estudo contribuam para o fortalecimento do debate sobre a necessidade de atualização curricular na enfermagem, indicando que alinhar a formação às transformações do mundo do trabalho é um passo essencial para consolidar uma prática profissional mais inovadora, estratégica e socialmente relevante.

Declaração de uso de IA generativa

Não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial generativa em quaisquer das etapas de construção deste trabalho.

REFERÊNCIAS

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Ana Beatriz Moraes de Freitas

Enfermeira pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Residente em Atenção Básica, Saúde da Família e Comunidade pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

beatrizfreitasenfer@gmail.com

Ana Beatriz de Pontes Queiroz

Discente do curso de Licenciatura e Bacharelado em Enfermagem na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

beatrizqueiroz@alu.uern.br

Natália Amorim Ramos Félix

Docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), lotada no Departamento de Enfermagem, campus avançado de Pau dos Ferros. Doutora em Ciências da Saúde. Mestre em Saúde Coletiva: políticas e gestão em saúde na área de política, gestão e planejamento.

nataliaamorim@uern.br

Janieiry Lima de Araújo

Docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), lotada no Departamento de Enfermagem, campus avançado de Pau dos Ferros. Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (PROFSaúde – UERN). Doutora e mestre em Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

janieirylima@uern.br


Como citar este documento – ABNT

FREITAS, Ana Beatriz Moraes de; QUEIROZ, Ana Beatriz de Pontes; FÉLIX, Natália Amorim Ramos; ARAÚJO, Janieiry Lima de. Percepções de discentes de enfermagem sobre o ensino e a inserção do empreendedorismo na formação profissional. Revista Docência do Ensino Superior, Belo Horizonte, v. 16, e058885, p. 1-19, 2026. DOI: https://doi.org/10.35699/2237-5864.2026.58885.





1Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Pau dos Ferros, RN, Brasil.

ORCID ID: https://orcid.org/0009-0009-5004-9906. E-mail: beatrizfreitasenfer@gmail.com

2Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Pau dos Ferros, RN, Brasil.

ORCID ID: https://orcid.org/0009-0008-1340-828X. E-mail: beatrizqueiroz@alu.uern.br

3Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Pau dos Ferros, RN, Brasil.

ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-3822-6553. E-mail: nataliaamorim@uern.br

4Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Pau dos Ferros, RN, Brasil.

ORCID ID: https://orcid.org/0000-0001-9806-8756. E-mail: janieirylima@uern.br


Recebido em: 29/05/2025 Aprovado em: 26/02/2026 Publicado em: 18/05/2026

Rev. Docência Ens. Sup., Belo Horizonte, v. 16, e058885, 2026