Chamada para submissões / Call for papers - Dossiê temático da revista CALIGRAMA: Narrativas do fim: o apocalipse como metáfora crítica na literatura da América Latina
DOSSIÊ TEMÁTICO REVISTA CALIGRAMA
NARRATIVAS DO FIM: O APOCALIPSE COMO METÁFORA CRÍTICA NA LITERATURA DA AMÉRICA LATINA
As primeiras décadas do século XXI têm sido marcadas pela intensificação de crises políticas, ambientais, econômicas, sanitárias e humanitárias que atravessam diferentes regiões do mundo e colocam em xeque projetos de futuro, modelos de desenvolvimento e formas de organização social. Mudanças climáticas, pandemias, conflitos armados, deslocamentos populacionais, colapsos econômicos e o avanço de diferentes formas de autoritarismo têm alimentado um imaginário de crise permanente, encontrando ampla repercussão nas artes e nas produções culturais contemporâneas. Nesse contexto, as narrativas do fim do mundo, da catástrofe, da ruína, do colapso e da sobrevivência adquiriram centralidade nos estudos literários e culturais. Longe de constituírem apenas representações da destruição definitiva, tais narrativas têm sido compreendidas como formas privilegiadas de interpretar processos históricos, revelar estruturas de violência e problematizar os limites dos projetos modernos de progresso. Partindo das reflexões de Frank Kermode (O sentido de um fim: estudos sobre a teoria da ficção, 2023), Lois Parkinson Zamora (Narrar el Apocalipsis, 1994), Geneviève Fabry e Ilse Logie (Imaginarios apocalípticos en la literatura hispanoamericana contemporánea, 2016), Teresa López-Pellisa (2015) e Cristina Mondragón (Ficciones Apocalípticas en la Narrativa Contemporánea Mexicana, 2020), o apocalipse deixa de ser compreendido apenas como o término da história para constituir uma categoria crítica de leitura das múltiplas experiências de crise que caracterizam a contemporaneidade. Essa perspectiva dialoga, ainda, com as reflexões de Giorgio Agamben (O que é o contemporâneo?, 2009) acerca da experiência do presente e com a compreensão de Theodor W. Adorno (Posição do narrador no romance contemporâneo, 2003) sobre as transformações das formas narrativas diante das rupturas históricas do século XX. Na América Latina, esse repertório adquire contornos particulares em razão de processos históricos que marcaram profundamente a constituição do continente. A invasão, conquista e a colonização europeias, as sucessivas experiências ditatoriais, como as ditaduras militares do Cone Sul nas décadas de 1960 a 1980, as guerras civis centro-americanas, a violência do narcotráfico, os deslocamentos migratórios, as recorrentes crises econômicas, a devastação ambiental da Amazônia, os incêndios no Pantanal, os desastres socioambientais de Mariana e Brumadinho e, mais recentemente, os impactos da pandemia de Covid-19 configuram experiências históricas que frequentemente assumem, na literatura e em outras manifestações artísticas, a forma de narrativas do colapso, da ruína, da resistência e da reconstrução. Longe de representar apenas um evento futuro ou hipotético, o apocalipse sob esta proposta constitui, em muitas obras latino-americanas, uma condição histórica recorrente, associada à persistência da colonialidade, das desigualdades sociais, das violências de Estado, da destruição ambiental e da precarização da vida. Em diálogo com perspectivas da ecocrítica, dos estudos do Antropoceno, dos estudos da memória, das teorias da violência e das reflexões sobre autoritarismo e necropolítica, essas narrativas interrogam criticamente o presente e imaginam outras possibilidades de futuro. Tais produções se manifestam nas mais diferentes tradições literárias e estéticas, articulando procedimentos do realismo, do fantástico, da ficção científica, da distopia, do horror, do testemunho e da narrativa policial. Obras de autores como Rafael Pinedo, Yuri Herrera, Samanta Schweblin, Mariana Enríquez, Bernardo Esquinca, Imanol Caneyada, Omar Rodolfo Serio, Joca Reiners Terron, Ana Paula Maia, Edmundo Paz Soldán, Agustina Bazterrica, entre outros, exemplificam a diversidade de estratégias por meio das quais a literatura latino-americana contemporânea tem elaborado criticamente as múltiplas experiências do fim. Partindo dessas perspectivas, o dossiê Narrativas do fim: o apocalipse como metáfora crítica na literatura latino-americana busca reunir artigos que investiguem as diferentes configurações do apocalipse, da catástrofe, da ruína, da violência, da memória, da sobrevivência e da reconstrução na literatura produzida na América Latina, bem como estudos comparatistas que estabeleçam diálogo entre a literatura e outras linguagens narrativas, especialmente o cinema e as produções audiovisuais, desde que a reflexão permaneça ancorada nos estudos literários e nas questões propostas pelo dossiê. Serão particularmente bem-vindas pesquisas que discutam a relação entre formas narrativas e processos históricos, as representações da crise ambiental e do Antropoceno, os imaginários do colapso, as distopias latino-americanas, as experiências de violência política e ecológica, os regimes autoritários, as memórias traumáticas, os deslocamentos migratórios, as narrativas da resistência, bem como abordagens comparatistas, interdisciplinares e transnacionais que contribuam para ampliar o debate acerca das narrativas do fim na literatura latino-americana contemporânea.
Temáticas sugeridas
- Apocalipse e pós-apocalipse na literatura latino-americana;
- Distopias e ficção especulativa;
- Violência, trauma e memória cultural;
- Ditaduras, autoritarismos e narrativas do colapso;
- Colonialidade, fim do mundo e imaginários da conquista;
- Crise climática, ecocrítica e Antropoceno;
- Ruínas, decadência e reconstrução;
- Horror, fantástico e ficção científica latino-americanos;
- Narrativas policiais e violência contemporânea;
- Fronteiras, migrações e deslocamentos em contextos de crise;
- Literatura e necropolítica;
- Literatura e ecologia política;
- Literatura latino-americana em diálogo com cinema e outras narrativas audiovisuais;
- Estudos comparatistas sobre narrativas do fim.
Editores convidados
Prof. Dr. Héctor Fernando Vizcarra - Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM)
Prof. Dr. Andre Rezende Benatti - Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) / CNPq
Publicação: 08/2027
Prazo para submissão: 31/01/2027
Diretrizes para autores e submissão: https://periodicos.ufmg.br/index.php/caligrama/about/submissions
Referências
ADORNO, Theodor W. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: Notas de literatura I. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003.
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009.
FABRY, Geneviève; LOGIE, Ilse. Imaginarios apocalípticos en la literatura hispanoamericana contemporánea. Madrid: Iberoamericana/Vervuert, 2016.
GARRAMUÑO, Florencia. La experiencia opaca: Literatura y desencanto. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2009.
KERMODE, Frank. O sentido de um fim: estudos sobre a teoria da ficção. Tradução de Renato Prelorentzou. São Paulo: Todavia, 2023.
MONDRAGÓN, Cristina. Ficciones Apocalípticas en la Narrativa Contemporánea Mexicana. México: UNAM, 2020.
TAVARES DOS SANTOS, José Vicente. Figuraciones de la violencia: sociología de novelas latino-americanas. Buenos Aires: Teseo, 2022.
ZAMORA, Lois Parkinson. Narrar el Apocalipsis. México: Siglo XXI, 1994.
