CHAMADA Revista do Centro de Estudos Portugueses - V. 46. n. 76 (jul. - dez. 2026) Dossiê: Aquilino Ribeiro, 140 anos depois: permanências e reconfigurações

2026-01-22

CHAMADA Revista do Centro de Estudos Portugueses - V. 46. n. 76 (jul. - dez. 2026) Dossiê: Aquilino Ribeiro, 140 anos depois: permanências e reconfigurações

Comissão Organizadora:

Ana Luisa Vilela (Universidade de Évora)

Matteo Pupillo (Sorbonne Université)

Data-limite para envio de originais: 30 de outubro de 2026

Aquilino Ribeiro, 140 anos depois: permanências e reconfigurações

No âmbito da celebração dos 140 anos do nascimento de Aquilino Ribeiro (1885–1963), o presente número temático propõe-se revisitar criticamente a obra de um dos mais singulares e complexos escritores do cânone literário português do século XX. Pretende-se, em particular, promover uma reflexão renovada sobre as permanências, deslocamentos e reconfigurações da escrita aquiliniana,  interrogando a sua atualidade estética, ideológica e cultural, bem como as múltiplas formas de receção, releitura e apropriação que a sua obra tem suscitado ao longo do tempo.  

Nesse movimento de revisitação crítica, é imprescindível atender à forma como a escrita de Aquilino Ribeiro se estrutura num espaço de tensão produtiva entre experiência vivida, memória e ficção, fazendo da literatura um lugar privilegiado de elaboração subjetiva e de inscrição histórica. Com efeito, a rememoração de episódios da sua própria trajetória em diversas obras de ficção torna iniludível, na análise da novelística aquiliniana, o reconhecimento de uma matriz autobiográfica — particularmente visível em volumes como Cinco Réis de Gente, Uma Luz ao Longe, Lápides Partidas, O Homem que Matou o Diabo, entre outros. Em paralelo, os seus escritos de cariz memorialista (É a Guerra, Alemanha Ensanguentada, Um Escritor Confessa-se), ao registarem de forma impressiva as décadas marcadas por profundas convulsões em Portugal e na Europa, configuram um testemunho histórico de inestimável valor para o traçado de uma história de meio século, tragicamente dominada por “guerras, ditaduras, revoluções, morticínios, […] inocências e desenganos, bateladas de mortos” (cf. “Nota preliminar a O Malhadinhas”, 1958). É a partir deste conjunto de problemáticas que o presente dossiê convida à apresentação de contributos críticos, organizados em torno de eixos de reflexão que visam aprofundar, diversificar e reatualizar a leitura da obra de Aquilino Ribeiro.  

Seguidamente, enunciamos alguns dos eixos que consideramos passíveis de indagação científica, admitindo, eventualmente, outros que procurem escrutinar a escrita multivalente do autor em apreço: 

  • Análises da arquitetura narrativa da obra aquiliniana, dos dispositivos ficcionais, da hibridez genológica (romance, novela, crónica, memorialismo) e das estratégias de construção do narrador e das personagens que intervêm nos enredos; paralelamente, incentivamos à  análise de figurações e sobrevidas de personagens (Cf. REIS, 2014) nas notáveis adaptações cinematográficas que algumas obras inspiraram;  
  • Contributos que se debrucem sobre a inscrição crítica de processos históricos vivenciados pelo autor e sobre a obra como forma de resistência ética e empenhamento intelectual;  
  • Estudos sobre a representação do espaço rural, da natureza e dos animais, explorando o seu valor alegórico e ecocrítico, bem como as tensões entre tradição, modernidade e marginalidade. Nesse mesmo horizonte, e atendendo à singularidade estilística do autor beirão, será outrossim  pertinente considerar a exuberância do seu léxico regional, mobilizado para escrutinar uma convivência estreita entre o homem e a terra, “sem que isso implique a obliteração de outros tipos de relação ou de empenhamento” (SEIXO, 1986: 148), nem o oblívio de outras “formas multímodas da alteridade que indici[e]m o universal” (ibidem, p. 148);  
  • Estudos sobre a presença da tentação erótica na obra de Aquilino Ribeiro, concebida como força ambígua que “nunca se resume à simples constatação da força do instinto sexual e, muito menos, à sua mera sacralização” (LOURENÇO, 1987: 64), explorando a sua ambivalência e a articulação entre códigos aparentemente antagónicos. 
  • Contributos de índole comparatista que indaguem processos de filiação, influência e reescrita na obra de Aquilino Ribeiro — nomeadamente em diálogo com autores como Camilo Castelo Branco —, bem como as formas de intertextualidade que estruturam a sua ficção. 
  • Por último, e não de somenos importância, análises que se detenham na vertente tradutológica de Aquilino Ribeiro, com particular incidência nas suas traduções de obras da Antiguidade clássica.