Apresentação
DOI :
https://doi.org/10.35699/2447-6218.2025.64799Résumé
O futebol é um fenômeno social que, desde a parte final do século XIX, até os dias atuais, faz parte da cultura cotidiana e da dimensão do entretenimento de diversas sociedades, seja como prática corporal, seja como conteúdo de consumo do esporte tele-espetacularizado. No Brasil, sua chegada coincide com o processo de republicanização e suas respectivas políticas, na intencionalidade de implementar “as modas” europeias, sobretudo, advindas da França e da Inglaterra.
O esporte (sport), aparece nessa época como um carro-chefe dos valores ingleses, sendo difundido em inúmeros países, que estavam de algum modo sob domínio inglês. Racionalização, alta performance, burocratização, especialização, busca de recordes, quantificação, igualdade de chances, entre outras características, são algumas das maneiras como foi se configurando sua participação nas nossas vidas e configurando subjetividades até os tempos atuais.
O futebol, na sua versão oficial, surge nas terras da Rainha e aqui, em nossas terras, com o ideal elitista, sendo praticado inicialmente, por aqueles que tinham bom poder aquisitivo, acesso às escolas e clubes.
Não demorou muito para que tal novidade chamasse a atenção dos “populares” e que também houvesse o entendimento de que a classe menos abastada pudesse ser “útil”, seja completando os times para que houvesse jogo, seja representando as instituições (fábricas, escolas, clubes, entre outras.) fomentadoras da prática do futebol.
Como elemento corporal e cultural sob a égide do capitalismo, obviamente que esse sistema político-econômico-social não perde tempo, tampouco se engana, e passa a ver no futebol um enorme potencial de formação de uma lucrativa indústria do entretenimento, que em poucos anos começou a gerar lucros exorbitantes e mobilizando milhares de pessoas, seja para sua prática, seja para sua assistência.
Ao longo do século XX, sobretudo da sua segunda metade, assistimos a uma mercantilização cada vez maior do futebol com a construção de grandes estádios, recordes de público, interesse crescente da mídia com suas diversas e constantes estratégias de midiatização e de estimular o consumo dos eventos esportivos, organização de grandes eventos, entre outros. São aspectos que vão simbolizando e materializando, cada vez mais, o quanto o esporte vai se constituindo em um importante fenômeno da cultura moderna, principalmente em relação às constituições e padronizações corporais, e o futebol, enquanto modalidade específica, vai se afirmando, em quase todo o mundo, em elemento que detém as atenções mundiais, com as Copas do Mundo de Futebol (masculino) como grandes rituais modernos de disputas.
Já no primeiro quarto do atual século essa indústria toma proporções inimagináveis, com a transformação dos grandes estádios em arenas, com os direitos de transmissão das partidas em canais fechados e streaming restringindo a visibilidade a um público que precisa pagar para ter acesso àquilo que outrora foi ofertado pelos canais abertos de televisão, transações internacionais de jogadores com valores exorbitantes, jogos de apostas (as “bets” trazendo novos problemas) e assim por diante. Trata-se do futebol e seu poder de comunicar, de propor consumos variados e de gerar implicações das mais diversas ordens nas sociedades atuais.
Ao longo de toda sua existência, o futebol, esporte criado por homens brancos, ricos e representantes das elites socioeconômicas, cometeu as violências típicas do modus operandi dos seus criadores. São sabidos e reiterados, ainda hoje, os casos de racismo, de homofobia e misoginia, de xenofobia, da “venda” da infância, e também de violência física.
Todos esses ingredientes fazem desse esporte, que é o preferido lazer de multidões no mundo todo, em um tema que deve, e muito, ser estudado, pensado, analisado, tensionado, e em muitos aspectos, transformado!
Coincidentemente, tanto o futebol, como o lazer - enquanto dimensão humana da modernidade -, foram dois campos que demoraram a ter atenção da academia como objetos sociais de atenção acadêmico-científica.
Diante desta contextualização, apresentamos o dossiê “Futebol no tempo-espaço do lazer”, parceria bem vinda entre o INCT-CNPq Estudos do Futebol Brasileiro (Linha “Mídias, Torcidas e Movimentos Antirracistas”) e a Revista Licere, importante e consolidado periódico brasileiro especializado nos estudos de lazer, o qual vem para contribuir para que, tanto o futebol, quanto o lazer, sejam cada vez mais temas de interesse de pesquisadoras e pesquisadores brasileiros(as) e internacionais.
Organizado pelo coletivo que subscreve esse texto, nosso Dossiê recebeu 44 (quarenta e quatro) textos, que após a análise de diversos pareceristas decidiu-se pela publicação de 14 (quatorze) textos, que se debruçam pela relação do futebol e do lazer a partir de uma diversidade de abordagens teórico-conceituais e metodológicas.
Merece destaque o artigo “Corote e Molotov: o lazer e a luta do povo de rua”, de autoria da pesquisadora Bruna Oliveira da Silva, vítima de feminicídio, na cidade de São Paulo, em 2025. Todas nossas homenagens a essa jovem pesquisadora, jamais aplacará a dor dessa perda.
Fica assim, nosso convite à leitura deste dossiê e o nosso incentivo para que haja um interesse cada vez maior na relação futebol e lazer.
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