Da memória à narrativa testemunhal
o jornal A Sirene como discurso de resistência à mineração
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.44–72Palabras clave:
memória, narrativa testemunhal, discurso de resistência, jornal A SireneResumen
O presente artigo objetiva analisar o Jornal A Sirene como instância produtora de narrativas testemunhais que constituem práticas discursivas de resistência das populações atingidas pelo rompimento da Barragem de Fundão (Mariana) em 2015. Passados quase dez anos desse acontecimento, o jornal continua sendo uma ferramenta de preservação da memória e de mobilização dessas comunidades contra o poder hegemônico das empresas de mineração (Samarco/Vale e BHP Billiton) e a impunidade relativa à efetiva reparação dos danos causados pelo maior crime socioambienal do país. No momento em que grande parte dessas comunidades discute o Novo Acordo de Repactuação, aprovado em novembro de 2024, é relevante e oportuno analisar as estratégias discursivas testemunhais utilizadas pelos atingidos e publicadas nesse jornal, que se tornou o seu principal veículo de comunicação e de luta contra o esquecimento, o trauma e a injustiça. A fundamentação teórica e metodológica utilizada integra categorias de diferentes abordagens, destacando-se o conceito de atingidos/pessoas atingidas (Gomide et al., 2018; Souza; Carneiro, 2019), a relação entre as noções de memória (Ricoeur, 2007; Paveau, 2015) e de testemunho (Amossy, 2004, 2011; Tocaia, 2024; Seligmman-Silva, 2010; Nascimento, 2007); e ainda, a sua articulação com a análise pragmática da narrativa (Motta, 2013; Ricouer, 1994). A metodologia caracteriza-se como uma abordagem qualitativa de natureza heurística, desenvolvendo-se em função de excertos recortados do jornal em questão.
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