As interrogativas polares e a falha de pressuposição em português brasileiro
uma análise sob a perspectiva da semântica e da pragmática formais
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.34.1.321-347Palabras clave:
Sentenças interrogativas polares, falha de pressuposição, acomodação e contestaçãoResumen
Esta pesquisa investiga a interação entre a dinâmica das sentenças interrogativas e o fenômeno de falha de pressuposição à luz da semântica e da pragmática formais. O estudo focaliza perguntas polares com descrições definidas, que desencadeiam pressuposições de existência e unicidade. Objetiva-se compreender como tais falhas influenciam a dinâmica contextual e em quais situações o interlocutor acomoda ou contesta a pressuposição. Também buscam-se descrever formalmente os efeitos pragmáticos e conversacionais decorrentes dessas respostas. A pesquisa justifica-se pela escassez de estudos formais sobre interrogativas no português brasileiro e pela lacuna na literatura sobre falhas de pressuposição e suas implicações na interação conversacional. Adotou-se o método introspectivo, em que se construiram contextos comunicativos com perguntas polares seguidas de respostas variadas, permitindo-se observar processos de acomodação, nos quais o ouvinte integra a informação pressuposta ao common ground, e de contestação, em que a pressuposição é negada e substituída por uma proposição alternativa. Exemplos como O gato da pracinha foi adotado? evidenciam que respostas como Não sabia que tinha um gato na pracinha configuram acomodação, enquanto respostas como Não tem nenhum gato na pracinha ou Tem muitos gatos na pracinha caracterizam contestação. Nos casos de falha de pressuposição de existência, a contestação impede a pergunta de ser respondida, retirando-a do question set. Já na contestação da unicidade, a pergunta permanece, subdividindo-se para refletir múltiplos referentes possíveis. Em síntese, o estudo contribui para a compreensão dos mecanismos formais que regem o comportamento semântico-pragmático das interrogativas no PB, destacando como interlocutores interagem diante de falhas pressuposicionais e atualizam o contexto conversacional.
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