Ruaologia e os saberes comunicacionais do Boca de Rua
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.110–141Palabras clave:
Jornal Boca de Rua, População em situação de rua, Ruaologia, Resistência malunga, Semiótica da CulturaResumen
O artigo investiga os saberes comunicacionais que emergem das práticas do Jornal Boca de Rua, projeto que, há um quarto de século, é feito por um grupo de pessoas em situação de rua em Porto Alegre, Brasil, em parceria com a Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação). Desde a definição de pautas até a escrita das reportagens e a venda dos exemplares nas ruas, todas as etapas envolvem as pessoas em situação de rua, conferindo ao Boca de Rua uma singularidade que justifica seu estudo. O objetivo central é compreender como os saberes comunicacionais oriundos dessa experiência são formados, junto à constituição de uma linguagem própria, sui generis. Para tanto, adota-se uma abordagem etnográfica, fundamentada em observações-participantes e em entrevistas em profundidade, visando capturar rotinas e percepções dos jornalistas do Boca de Rua sobre a comunicação que produzem. Daí, delimitam-se dez “zonas de intensidade” que estruturam o funcionamento do grupo, revelando uma comunicação que vai além do jornalismo produzido. Há, sim, o desejo de superar um silenciamento socialmente imposto, mas, de maneira mais profunda, a comunicação também se encontra nos processos que possibilitam essa superação: relatos em roda, espaços coletivos de fala e escuta, processos de escrita baseados na oralidade, entre outros. O que o Boca de Rua evidencia é uma comunicação que está não só no produto (um jornal), mas nas forças que animam mudanças e que ressignificam o “morar na rua”, reorganizando espaços públicos e papéis sociais.
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