(Re)memorar para resistir
o crime da Praia dos Ossos
DOI :
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.90–109Mots-clés :
Feminicídio, Podcast, Narrativa, Lugar de Memória, Discurso de Resistência, Éthos Testemunhal, IndignaçãoRésumé
Este artigo tem como objetivo analisar a narrativa construída no podcast Praia dos Ossos (Rádio Novelo, 2020) sobre o emblemático feminicídio de Ângela Diniz (1976). Parte-se do pressuposto de que essa construção pode ser compreendida como um lugar de memória (Nora, 1984) e, como tal, funcionaria como uma manifestação de discurso de resistência, no qual narrar se configura como um ato necessário tanto para resistir quanto para perpetuar a resistência. Por meio da análise de excertos selecionados, busca-se apresentar os contornos dessa narrativa, de modo a demonstrar como a narradora constrói um éthos testemunhal, essencial a essa configuração discursiva. Objetiva-se, ainda, articular a ressignificação histórica do caso com os persistentes padrões de violência contra a mulher no Brasil. Revisitar esse crime, em seus desdobramentos políticos, jurídicos e sociais, permite não apenas reconstruir uma imagem mais justa da vítima, mas também estabelecer um diálogo urgente com os dados contemporâneos do Atlas da Violência contra a Mulher (2024), evidenciando a permanência de estruturas de violência de gênero. Dessa forma, o podcast se revela como uma importante construção discursiva que, ao resgatar a memória de Ângela Diniz, atualiza o debate sobre os feminicídios no Brasil, podendo, portanto, ser entendido como uma manifestação de discurso de resistência. Para o desenvolvimento da análise, foram selecionados excertos representativos da temática abordada, em uma leitura orientada pela análise da argumentação no discurso (Amossy, 2018; Lima, 2006).
Références
AGAMBEN, G. Homo sacer. O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.
ALONSO, A. Treze: a política de rua de Lula a Dilma. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.
AMOSSY, R. L’espèce humaine de Robert Antelme ou les modalités argumentatives du discours testimonial, Semen, 17, 2004.
AMOSSY, R. A argumentação no discurso. Coordenação da tradução: E. L. Piris e Moisés O.-F. São Paulo: Contexto, 2018.
ANGELA. Direção: Hugo Prata. Roteiro: Duda de Almeida. Produção: Hugo Prata, Fabio Zavala, Daniel Caldeira. [São Paulo]: Downtown Filmes: Bravura Cinematográfica, 7 set. 2023. 1 filme (104 min), sonoro, colorido. Disponível em: https://www.primevideo.com. Acesso em: 7 mar. 2024.
ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA / FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 1 (2006). São Paulo: FBSP, 2024. 404 p.
CERQUEIRA, D.; BUENO, S. (coord.). Atlas da violência 2024. Brasília: Ipea; FBSP, Atlas da violência 2024 / coordenadores: CERQUEIRA, D; BUENO, S. – Brasília: Ipea; FBSP, 2024. 129 p. : il., gráfs. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/artigo/287/atlas-da-violencia-2024. Acesso em: 19 set. 2024.
AUTHIER-REVUZ, J. Heterogeneidade(s) enunciativa(s). Trad. C. M. Cruz e J. W. Geraldi. Cad. Est. Ling., Campinas, (19): 25-42, jul./dez. 1990.
BENJAMIN, W. O narrador. In: BENJAMIN, W. (Ed.). Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. Trad. S. P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal (STF). Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 779 Distrito Federal. Relator: Min. Dias Toffoli. Pesquisa de informações sobre o processo. Julgamento em 13 mar. 2021. Publicado em 19 mar. 2021. Diário da Justiça Eletrônico, Brasília, DF, 19 mar. 2021. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=6158694. Acesso em: 7 mar. 2023
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2023]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 7 mar. 2024.
BUTLER, J. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
BUTLER, J. Levante. In: DIDI-HUBERMAN, Georges (org.). Levantes. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017. p. 23-36.
CASTRO, M. C. P. S. Na tessitura da cena, a vida: Comunicação, sociabilidade e política. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2008.
COURTINE, J-J. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Paulo: EdUFSCAR, 2009. p. 104-106.
CRIME E JUSTIÇA: o caso Ângela Diniz. Direção: [diretor desconhecido]. Produção: TV Justiça. Brasília, DF: Rádio e TV Justiça, 2023. 1 programa de TV (aprox. 25 min), sonoro, colorido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6eJtVsvv4Vo. Acesso em: 19 maio 2025.
DIDI-HUBERMAN, G (org.). Introdução. In: DIDI-HUBERMAN, G. (org.). Levantes. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.
ELUF, L. N. A paixão no banco dos réus. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.
GOFFMAN, E. A representação do eu na vida cotidiana. Trad. M. C. S. Raposo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, [1985] 2003.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/. Acesso em: 18 maio 2025.
GROS, F. Desobedecer. São Paulo: UBU Editora, 2018, 244 p.
HALBWACHS, M. A memória coletiva. Revista dos Tribunais, São Paulo: Vértice, 1990.
HARTOG, F. Regimes de historicidade. Presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
HOPPEN, N. H. F. Retratos da pesquisa brasileira em estudos de gênero: análise cientométrica da produção científica. 389f. Tese (Doutorado em Comunicação e Informação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul,. Porto Alegre, 2021.
JAQUELINE. SPPM lança cartilha digital “Feminicídio: Quem ama, não mata!”. Governo de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS, 2 jun. 2021. Disponível em: https://www.naosecale.ms.gov.br/sppm-lanca-cartilha-digital-feminicidio-quem-ama-nao-mata/. Acesso em: 19 set. 2024.
LIMA, H. M. R. de. Na tessitura do Processo Penal: a argumentação no Tribunal do Júri. 2006. 260 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006.
LIMA, H. M. R. de. Imagens e discursos em torno do feminino: a (re)construção de uma identidade. Letras & Letras, Uberlândia, v. 22, n.2, p.105-116, jul./dez. 2007.
LIMA, H. Implicações do conector “mas” em sustentações orais de Tribunal do Júri”. In: SARAIVA, M. E.; MARINHO, J. H. Chaves (org.). Estudos de língua em uso: da gramática ao texto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018. p.153-169.
LIMA, H. Algumas observações sobre os crimes de feminicídio, ciúme, honra e ódio. In: BAHIA, A. G. M. F. de M.; RAMOS, M. M.; NICOLI, P. A. G. (org.). Gênero, Sexualidade e Direito: dissidências e resistências. Belo Horizonte: Initia Via, 2019. p.186-204.
LIMA, H. A propósito das emoções: a indignação “nos tempos de cólera” para uma política do cuidado. In: LIMA, H.; ABREU-AOKI, R.; MAZZOLA, R. (org.): Retórica, argumentação e emoções. Itinenários convergentes. São Paulo/Campinas: Pontes, 2023. p. 49-68.
LINHA DIRETA JUSTIÇA: Ângela e Doca. Direção: [Diretor desconhecido]. Produção: TV Globo. Rio de Janeiro: Rede Globo, 5 jun. 2003. 1 programa de TV (21 min). Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/11568274/. Acesso em: 7 jul. 2024.
MAINGUENEAU, D. A propósito do ethos. In: MOTTA, A. R.; SALGADO, L. (org.). Ethos discursivo. São Paulo: Contexto, 2008. p.11-29.
MOESCHLER, J. Dire et contredire. Pragmatique de la négation e acte de réfutation dans la conversation. Berne, Frankfurt: M. Peter Lang, 1982.
MONITOR DE FEMINICÍDIOS NO BRASIL. Disponível em: https://sites.uel.br/lesfem/monitor-brasil/. Acesso em: 18 maio 2025.
NEGRI, A. O acontecimento “levante”. In: DIDI-HUBERMAN, G. (org.). Levantes. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017. p.38-46.
NORA, P. Entre Memória e História: A problemática dos lugares. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História, São Paulo, n. 10, p. 7-28, dez., 1993.
NORA, P. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In : NORA, P. (org). Les lieux de mémoire. Paris : Gallimard, 1984. p. 25-42.
OS AMORES DA PANTERA. Direção: Jece Valadão. Produção: Jece Valadão. Rio de Janeiro: Magnus Filmes Ltda., 1977. 1 filme (110 min), sonoro, colorido, 35 mm.
PERELMAN, C; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, [1958] 1996.
POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro. v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.
PRAIA dos Ossos. [Locução de]: Branca Vianna. Rio de Janeiro: Rádio Novelo, 21 ago. 2020. Podcast. Episódios: 1-3; 5-8. Disponível em: https://spoti.fi/3Hz9v3D. Acesso em: 19 jun. 2025.
RICHTER, A. STF valida prisão após condenação pelo júri: decisão envolve recurso de homem condenado a 26 anos por feminicídio. Agência Brasil, Brasília, DF, 12 set. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/. Acesso em: 19 set. 2024.
RODOLPHO, M. Écfrase e evidência nas letras latinas: doutrina e práxis. São Paulo: Humanitas, 2012.
