Minando a resistência
o discurso empresarial como estratégia de silenciamento em território de mineração
DOI :
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.318–350Mots-clés :
Governança corporativa do desastre, Disputa discursiva, Testemunho, Silenciamento simbólicoRésumé
Este artigo analisa criticamente as estratégias discursivas adotadas por uma empresa multinacional mineradora após o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho (MG), em 2019. Com base na Análise Crítica do Discurso (ACD), investiga-se como o discurso empresarial opera na construção da reputação corporativa e na legitimação de práticas hegemônicas em contextos de crise. Inserida no campo da Ecologia Humana, a pesquisa adota abordagem qualitativa, com triangulação entre documentos oficiais, relatórios institucionais e entrevistas com a população atingida. O referencial teórico articula conceitos como neocolonialismo, capitalismo de desastre, ethos organizacional, greenwashing e silenciamento simbólico, revelando mecanismos linguísticos utilizados para obscurecer responsabilidades, reorganizar a memória coletiva e neutralizar o luto social. A análise propõe um modelo replicável de leitura discursiva que identifica quatro facetas do ethos discursivo institucional: a empresa aprendiz, a mãe, o mito da força reconstrutora e a arauta do futuro. Em contraposição, emergem narrativas de teor testemunhal, por meio das quais os sujeitos atingidos resistem aos enquadramentos institucionais e inscrevem memórias subterrâneas que desestabilizam a versão oficial dos fatos. Os resultados evidenciam que o discurso da empresa funciona como instrumento de dominação simbólica, operando na normalização da desigualdade e no controle das formas de lembrar e narrar o desastre. Conclui-se que a linguagem corporativa, longe de ser neutra, exerce papel central na disputa por sentidos em territórios minerados. Esta análise almeja oferecer subsídios para o fortalecimento de políticas públicas de reparação e justiça socioambiental.
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