[Chamada para (in)submissões] Dossiê #13 - 100 anos de Michel Foucault: da transgressão à crítica-cuidado de si e do mundo | Dossiê em parceria com Vanja Grujić e Milan Urošević
Recebimento de trabalhos no formato de artigos científicos, ensaios, resenhas, entrevistas, textos literários, imagens ou outros formatos que reflitam sobre a temática, com prazo de envio até 30 de maio de 2026.

Abrimos esta chamada para artigos em celebração ao centenário do nascimento de Michel Foucault, com um convite à reflexão sobre a força irruptiva da crítica enquanto método e gesto ético-político de sua obra. Desde as primeiras investigações sobre a loucura, passando pela arqueologia das ciências humanas e indo até às reflexões genealógicas sobre a biopolítica e o cuidado de si, a crítica, em Foucault, não se confunde com a busca de uma verdade fixa ou com um programa universal de intervenção ético-política, mas se constitui como uma intensidade que deseja (re)pensar e (re)configurar as relações entre saber, poder e subjetividade, partindo de um problema do presente e projetando sua sombra para o passado. Trata-se, então, de um diagnóstico que tanto suspeita das diversas economias da verdade quanto aponta para a ausência radical de princípio ou comando ontopolíticos, fazendo com que a diferença, a multiplicidade e a imanência aflorem.
Na conferência O que é a crítica?, de 1978, Foucault define a crítica como “a arte de não ser governado tanto assim”. Trata-se, portanto, de uma atitude negativa que se indaga sobre pressupostos impensados e sobre os limites da razão e da política, tanto na escala macro quanto na dimensão micro, a partir da existência do próprio crítico. Nessa indocilidade refletida e virtuosa, o corpo e o tempo são abertos para além dos discursos e instituições, dispositivos que nos assujeitam e ordenam a história. A crítica é, assim, inseparável do tecido das relações de poder e de verdade em que se insere, dispensando qualquer fundamento ou a priori transcendente. Sua prática reside, ainda, na tensão entre a suposta necessidade das formas de condução da humanidade e a percepção de sua contingência originária, permitindo-nos sondar o que somos e, simultaneamente, vislumbrar aquilo que podemos vir a ser, sem o tom fascista.
Recapitular Foucault um século após seu nascimento é contrair sua obra à luz de nossas próprias crises —ontológicas, epistemológicas, políticas e éticas—, que não são somente as “patologias” da imanência social, mas as condições de possibilidade, em meio à incerteza e à abertura, para novos acontecimentos. Essas crises não exigem apenas a aplicação de sua rede conceitual, mas a reativação da atitude crítica que o filósofo francês demandava da filosofia, muito aquém das disciplinas universitárias e próxima de um modo de vida. Em outras palavras, criticar é um exercício (ascese) de evocar a história e a si, à medida que expulsa qualquer máscara primordial.
Propomos, assim, pensar o gesto foucaultiano não como um corpus encerrado, mas como um arquivo vivo: um pensamento sísmico, desestabilizador e transformador a ser desdobrado em novas cenas.
Chamada para Contribuições
Convidamos contribuições para este número temático que abordem essas questões sob diversas perspectivas teóricas, filosóficas e in-disciplinares. Acolhemos especialmente trabalhos que não apenas interpretem a obra foucaultiana, mas que intervenham nela — textos que testem os limites da reflexão filosófica e se engajem criticamente com as condições mutáveis da vida contemporânea.
Incentivamos os participantes a pensar transgressivamente: a ir além dos enquadramentos conceituais herdados e dos limites disciplinares, a questionar o que é tomado como necessário e a explorar novos modos de pensamento e prática que emergem da própria experiência da ruptura.
Como pode a crítica filosófica, no sentido foucaultiano, continuar a atuar como exercício de pensamento e de resistência ético-política? O que significa praticar arqueologia, genealogia ou um cuidado de si para além de uma certa forma de governo? E de que modo as crises e transformações que definem nosso tempo exigem um renovado engajamento com o ethos crítico que marca o pensamento de Foucault?
Tópicos Sugeridos
- Periodização da obra de Michel Foucault
- Filosofia e acontecimentos biográficos de Michel Foucault
- A arte de pensar pela crise: arqueologia, genealogia e crítica
- Dispositivos de saber-poder
- Arte, literatura e produção de sentido
- Saberes sobre o corpo e normalização
- Disciplina, biopolítica e governamentalidade
- Ética, cuidado de si e coragem da verdade
- Reflexões e métodos foucaultianos em novos temas
- A filosofia de Michel Foucault em outros autores
Ressaltamos ainda que, para além desse dossiê temático, a revista (Des)troços recebe arremessos em fluxo contínuo de caráter geral que se vinculem ao pensamento radical e à linha editorial do periódico, conforme descrito em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistadestrocos/about. As contribuições devem ser enviadas por meio do sistema OJS, respeitando-se as regras de submissão no caso de textos (https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistadestrocos/about/submissions). As exigências de titulação não se aplicam às autoras de imagens, cujas contribuições serão avaliadas unicamente pela comissão editorial. As contribuições sob a forma de textos serão avaliadas pelo comitê editorial e pelo sistema de double blind review. Uma vez aprovados, textos e imagens serão publicados no décimo terceiro número da revista, previsto para ser lançado no segundo semestre de 2026.