Indignidade e necrotransfobia

a prostituição compulsória de mulheres trans e travestis como degradação do direito fundamental ao trabalho

Autores

  • Clarisse Mack da Silva Campos Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil
  • Jailton Macena de Araújo Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.53981/destroos.v4i2.48638

Palavras-chave:

trabalho, direito, gênero, prostituição, travesti

Resumo

Na sociedade ocidental, sobretudo no Brasil, em razão das estruturas violentas como o machismo e o patriarcado, corpos e identidades dissidentes são reduzidos a um lugar de abandono e ausência de cuidados, como no caso das travestilidades. Nesse sentido, com vistas a compreender o que chamamos de “prostituição compulsória” e sua relação com a degradação do direito fundamental ao trabalho, traçamos inicialmente uma análise desta prerrogativa constitucional sob a ótica do princípio da dignidade da pessoa humana, em consonância com o constitucionalismo brasileiro, o qual apregoa os princípios da supremacia constitucional e da máxima efetividade das normas constitucionais. Ademais, adentramos na seara da análise de gênero, nos valendo dos conceitos de cisgeneridade, cisnormatividade, travestilidade e do próprio transfeminismo, para compreender como o direito ao trabalho se deteriora com as normas hegemônicas. Para a compreensão de tal deterioração defendemos a existência de uma necrotransfobia, conceito derivado dos estudos acerca da necropolítica. Para este fim, realizamos uma pesquisa bibliográfica, pautada também na pesquisa normativa, o que trouxe como resultado a compreensão de que a prostituição compulsória é resultado da lógica necrotransfóbica, consequência direta da cisnormatividade que desumaniza e indignifica as identidades não cisgêneras.

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Biografia do Autor

  • Clarisse Mack da Silva Campos, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil

    Graduanda em história pela UNESA e a primeira mulher travesti graduanda em Direito pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB, é transfeminista, pesquisadora na área de historiografia travesti, decolonialidades e travestilidades, direitos humanos e transfeminismo e atua em movimentos sociais LGBTQIAPNB+ e na Defensoria Pública do Estado. E-mail: mackclarisse@gmail.com.

  • Jailton Macena de Araújo, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, Brasil

    Doutor e Mestre em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas da UFPB. Docente do Curso de Direito, vinculado ao Departamento de Direito Processual e Prática Jurídica (DDPPJ) da UFPB. Atualmente é Editor Gerente da Prim@ Facie, Revista do PPGCJ. E-mail: jailtonma@gmail.com

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Publicado

20-02-2024

Como Citar

CAMPOS, Clarisse Mack da Silva; ARAÚJO, Jailton Macena de. Indignidade e necrotransfobia: a prostituição compulsória de mulheres trans e travestis como degradação do direito fundamental ao trabalho. (Des)troços: revista de pensamento radical, Belo Horizonte, v. 4, n. 2, p. e48638, 2024. DOI: 10.53981/destroos.v4i2.48638. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistadestrocos/article/view/48638. Acesso em: 26 abr. 2026.

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