Desdobramentos da construção ficcional de António Lobo Antunes
do poder ao silêncio
DOI:
https://doi.org/10.17851/2359-0076.46.75.48-62Palavras-chave:
António Lobo Antunes, forma ficcional, poder, silêncio, alteridadeResumo
A forma narrativa de António Lobo Antunes constrói representações do outro por meio da fragmentação discursiva, da instabilidade dos focos enunciativos e da recorrente experiência do silêncio. Este artigo examina de que maneira esse processo se configura nos romances O manual dos inquisidores (1998) e Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? (2009) e sustenta a hipótese de que, nessas obras, a alteridade não se apresenta somente como tema ou conteúdo narrativo, contudo emerge formalmente da própria organização do texto, que compromete a centralidade da narração, tensiona as fronteiras entre fala, escuta e incomunicabilidade da enunciação. O estudo adota uma abordagem situada na análise da forma narrativa e na leitura atenta de passagens dos romances selecionados, em diálogo com as reflexões de Jacques Rancière (2009a; 2009b) sobre a política da escrita e a partilha do sensível. A análise demonstra que procedimentos como o fluxo de consciência, a sobreposição de vozes e a descontinuidade temporal produzem efeitos de silenciamento, exclusão simbólica e redistribuição desigual da palavra no interior das relações familiares e sociais. O trabalho conclui que a forma ficcional antuniana exerce função crítica na elaboração de representações do outro, ao evidenciar os impasses da comunicação e os efeitos persistentes do poder nas literaturas de língua portuguesa.
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