Um corpo em ruínas ou o estigma da prostituição, em O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende
DOI:
https://doi.org/10.17851/2358-9787.35.2.%25pPalavras-chave:
corpo feminino, estigma, prostituição, literatura brasileira contemporâneaResumo
Este artigo analisa a ruína de um corpo feminino estigmatizado pelas marcas da prostituição, a partir da personagem Irene, do romance O voo da guará vermelha (2005), de Maria Valéria Rezende. O estudo investiga de que modo as imposições sociais e as violências simbólicas incididas sobre esse corpo marginalizado são interiorizadas pela personagem, resultando na supressão de sua subjetividade e, especialmente, de sua dimensão afetiva. Para tanto, esta pesquisa adota como método a análise crítico-interpretativa da narrativa literária, fundamentada em aportes teóricos dos estudos de gênero, do corpo e do estigma, com base em autores como Erving Goffman (1988), Elódia Xavier (2007), Simone de Beauvoir (2009), Judith Butler (2017; 2019) e Pierre Bourdieu (2017). A análise, então, evidencia que a exploração sexual e os discursos normativos sobre o corpo feminino operam como mecanismos de controle que produzem apagamentos simbólicos e afetivos na constituição da personagem. Conclui-se, portanto, que a obra de Maria Valéria Rezende tensiona tais discursos ao expor os efeitos da violência estrutural sobre o corpo feminino, contribuindo para os estudos críticos acerca da representação da mulher na literatura contemporânea escrita por mulheres.
Referências
BARBERENA, Ricardo Araújo; FERRÃO, Ana Carolina Schmidt. O desembrulhar das asas da guará vermelha: estereótipo e subjetividade em Maria Valéria Rezende. Letras de hoje, v. 54, n. 1, p. 1-13, jan-dez 2023. Disponível em: https://pucrs.emnuvens.com.br/fale/article/view/45277. Acesso em: 28 jun. 2024.
BARROS, Lúcio Alves de. Mariposas que trabalham. Uma etnografia da prostituição feminina na região central de Belo Horizonte. Jus Navigandi, 2005. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/7356/mariposas-que-trabalham . Acesso em: 10 jul. 2024.
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2 v.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. Rio de Janeiro: BestBolso, 2017.
BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
BUTLER, Judith. Corpos que importam: Os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: N-1 edições, 2019.
GOFFMAN, Erving. Estigma – notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Trad. Mathias Lambert. 4ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.
GROSZ, Elizabeth. Corpos reconfigurados. Cadernos Pagu, Campinas, n. 14, p. 45-86, 2015. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8635340. Acesso em: 23 jun. 2024.
PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. Tradução de Angela M. S. Côrreal. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2016.
XAVIER, Elódia. Que corpo é esse? O corpo no imaginário feminino. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2007.



