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  • CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 36, n.1 (jan. - mar. 2027) Dossiê: Lirismo e poética do pensamento ou quando pensar quer dizer - buscar um poema

    2026-05-04

    CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 36, n.1 (jan. - mar. 2027) 

    Dossiê: Lirismo e poética do pensamento ou quando pensar quer dizer - buscar um poema

    Organizadores: 

    Danielle Freitas (UFMG)

    Fabio Roberto Lucas (PUC-SP)

    Matilde Manara (Universitá di Catania)

     

    Prazo para submissão: 03/08/2026

    Quais seriam as relações entre a poesia lírica e o pensamento filosófico na era moderna? Por um lado, essa questão remete à longa história da separação entre esses dois campos, incentivada por Platão e por aqueles que temem o efeito perturbador da experiência poética ou que desejam manter bem separadas as palavras ficcionais ou “de abertura de mundos” e as palavras discursivas submetidas aos regimes de “argumentação intramundana” (para retomar os termos de Jürgen Habermas e de um ensaio de Jacques Rancière que os questiona). Por outro lado, encontramos uma história igualmente vasta sobre os esforços para demonstrar como o pensamento não seria de forma alguma estranho à poesia, e nem mesmo desprovido de uma poética, que a própria filosofia, em suma, seria “uma questão de forma”, segundo a expressão de Valéry. 

    Em sua dança conjunta, o pensamento filosófico e o poema lírico compartilham e disputam seus papéis, prolongando e intensificando as tensões que os levam a dançar: assim, ora um é “rígido, duro e pastoso”, à espera do gesto poético-linguístico do outro, que o tornará mais “mole” , como se o poema fosse a incisão pela qual a inteligência transborda e sai de si mesma; outras vezes é o pensamento que demonstra flexibilidade, linguagem interior mal pronunciada, em voz baixa, à beira do silêncio que o mantém continuamente em “self-variance”, sendo o poema então a obra que constrói passagens hesitantes entre o informe e a forma. No vaivém dessa dança, às vezes acontece de a filosofia encarar o poema como uma “interrupção do barulho geral” do discurso, uma “afirmação sem precedentes” isenta de qualquer obrigação de prova, irredutível a qualquer cálculo ou demonstração de raciocínio, como se a singularidade da poesia – seu dom, bem como seu perigo – fosse a própria distância que ela mantém em relação à arena dos debates públicos. Por outro lado, também acontece de o filósofo acusar o poeta de sofisma, de estar muito à vontade nas trocas verbais da cidade, capaz de manobrá-las à sua vontade. O poema lírico seria assim desafiado pelo pensamento a testar seus próprios limites e possibilidades, seja como revelação de uma verdade incomparável vinda de outro lugar — mesmo que seja apenas para revelar que não há nada a revelar —, seja como acontecimento que suscita, frente às ideias supostamente universais e atemporais da razão, suas contrapartes corporais, temporais e vernáculas.

    Mas como essa discussão assumiria seus contornos modernos e contemporâneos diante das inúmeras tensões estéticas, históricas e sociais que transformaram a forma poética ao longo dos últimos dois séculos? Como as ligações entre o lirismo e o pensamento se modificaram diante das experiências de prosificação do poema ou das novas formas de conceber e praticar a versificação, de repensar ou reafirmar a relevância do lirismo em meio às catástrofes de um mundo acelerado e desencantado? 

    No cenário brasileiro atual, a obra do poeta, crítico e tradutor Marcos Siscar tem oferecido contribuições decisivas para a discussão sobre a afinidade entre poesia lírica e pensamento. A discussão da reproposição do sujeito poético, por exemplo, que aparece em muitos de seus ensaios, como uma tensão posta nos termos de “deixar-se consumir por um outro, [...]reconhecer-se na diferença consigo mesmo [...] ter revelado por esse outro sua própria contrariedade”, irrompe nos poemas para suspender a crença na esterilidade do eu poético. Trata-se de, poeticamente, “ouvir o que a palavra usual, transformada em objeto de pensamento, tem a dizer”; para o leitor ou leitora, trata-se de refletir sobre a forma como essa tensão se traduz nas escolhas rítmicas, sintáticas e enunciativas do texto. 

    O dossiê convida a contribuições que reflitam sobre as relações entre poesia lírica e pensamento, compreendidas a partir dos gêneros e formas que podem assumir (seja a meditação no poema longo, o ensaio poético, etc.) ou de modos específicos de inscrição e escuta do pensamento através dos desafios da abordagem lírica, das tensões entre o eu, o outro e o mundo, da elaboração material (sonora, gráfica, semântica, retórica etc.) do verso e do refinamento de seus efeitos de sentido. Convida a questionar os dispositivos formais que distinguem entre os quadros de inteligibilidade próprios ao poema e aqueles próprios do discurso argumentativo (ritmo, corte, brancos, montagem, prosificação), bem como seus efeitos sobre a definição de conceitos e julgamentos como os de verdade, prova ou experiência. Em vez de opor poesia e filosofia como dois territórios estanques, propomos considerá-las como duas práticas que se renovam e se contestam, nomeadamente em torno da questão do alcance cognitivo da literatura. Trata-se de identificar, nas formas modernas do poema – em verso, em prosa ou em formas híbridas –, as modalidades precisas pelas quais um pensamento se inscreve, se dramatiza ou se desloca no interior do texto. Incentivamos especialmente trabalhos que abordem as questões filosóficas da obra poética de Marcos Siscar, mas deixamos o dossiê aberto a contribuições que busquem estudar os diálogos entre o pensamento e o lirismo no contexto mais amplo da literatura moderna e contemporânea. Consideramos, portanto, as diferentes maneiras de fazer ressoar a seguinte questão: quando pensar significa buscar um poema?

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  • CHAMADA O Eixo e a Roda – v. 36, n.2 (abr. - jun. 2027) Dossiê: Literatura, circulação, e outros caminhos

    2026-05-04

    Chamada O Eixo e a Roda – v. 36, n.2 (abr. - jun. 2027)

    Dossiê: Literatura, circulação, e outros caminhos

    Organizadores: 

    Marcelo Freddi Lotufo (Universidade de São Paulo)

    Thayse Leal Lima (University of Maryland)

     

    Prazo para submissão: 28/08/2026

    O deslocamento internacional ou dentro do próprio país tem se mostrado central para a consolidação da cultura brasileira. Basta, neste sentido, lembrarmos de Visão do Paraíso, clássico de Sérgio Buarque de Holanda, que demonstra a formação de um imaginário sobre as américas a partir do olhar dos primeiros exploradores; ou de O Sol do Brasil, de Lilia Moritz Schwarcz, que explora o papel da missão artística francesa de 1816 na modernização das artes nacionais durante os anos que precederam a independência do país. A viagem, intercontinental ou dentro da própria nação, como já apontou Flora Sussekind no seu seminal O Brasil não é longe daqui, foi central para a consolidação do narrador em nossos primeiros romances e determinou uma maneira de se relacionar com o país, sua natureza e populações. Historicamente, entretanto, a atenção dos pesquisadores se manteve em  trajetos  específicos, principalmente o  das metrópoles europeias para o Brasil, do campo para a cidade, ou de viajantes do sudeste como Mário de Andrade e Euclides da Cunha para outras regiões do país. Os debates contemporâneos sobre a circulação literária para além das fronteiras nacionais pela teoria da Literatura Mundial (Moreti, Ahmad, Casanova), a crítica ao Eurocentrismo e às hierarquias epistêmicas da modernidade ocidental feita pelos Estudos Pós-Coloniais (Mignolo, Chakrabarty, Quijano), e a atenção às etnopaisagens e a cartografias transatlânticas pelos Estudos Diaspóricos  (Apudarai, Gilroy), entre outros, nos  estimulam a considerar novos percursos e prestar atenção em trabalhos que os representem. Que outras visões do Brasil, do mundo e de nós mesmos tais estes outros itinerários podem apresentar? Quais as possibilidades de se pensar a circulação de materiais e ideias fora dos eixos hegemônicos, geralmente presos a um esquema de centros e periferias? Que tipo de cartografias literárias e culturais vão sendo constituídas pela narrativa de viagem e por imaginários estrangeiros? Como esses textos nos obrigam a repensar a constituição da literatura e da cultura brasileira? Convidamos, então, pesquisadores a apresentarem suas leituras de textos que abordem outros trajetos que possam revisitar o tema da viagem, da imigração, da circulação de materiais e ideias transnacionais e transcontinentais, na literatura brasileira.

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