A narrativa testemunhal como resistência política na jornada de Rudolf Brazda, homossexual deportado para o campo nazista de Buchenwald

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DOI:

https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.199–219

Palabras clave:

Testemunho, homossexualidade, nazismo, melancolia, resistência

Resumen

Este artigo pretende lançar luzes para um acontecimento ainda pouco explorado tanto na historiografia quanto no campo dos estudos em Análise do Discurso: a rememoração de teor testemunhal dos homossexuais que enfrentaram o nazismo. A nomeação “acontecimento” não é fortuita, já que esse conceito é tomado na esteira daquilo que foi teorizado por Pêcheux (2015), que pensava o acontecimento como uma inscrição, isto é, como algo que emerge a partir de uma formulação irremediavelmente equívoca, porém em uma conjuntura que privilegia efeitos de evidência e de estabilidade. O que está em jogo, neste trabalho, é colocar em discussão a construção de uma memória oficial a respeito das consequências do traumático regime nazista, partindo da hipótese de existência de uma formulação da memória que primou em apagar determinadas vivências, criando uma espécie de hierarquização entre as vítimas do nazismo. Esse apagamento deveu-se ao fato de que as relações sexuais entre homens permaneceram interditadas após o fim da libertação dos campos de concentração. Partindo da análise de alguns fragmentos da obra Itinéraire d’un Triangle Rose, escrito por Jean-Luc Schwab e Rudolf Brazda, o artigo parte do princípio de que há um gesto de resistência instaurado em duas frentes: uma em um confronto com formações discursivas (Pêcheux, 2014a) que ditam aquilo que pode ser falado/escrito/lido; e outra, na qual há uma incontornável resistência ao trauma (Mariani, 2021), em um processo de deslizamento que se dá entre a melancolia (Baldini; Sousa, 2014; Freud, 2011) e o trabalho de luto (Freud, 2011). 

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Publicado

2026-03-30

Número

Sección

Narrativas de teor testemunhal como discursos de resistência

Cómo citar

A narrativa testemunhal como resistência política na jornada de Rudolf Brazda, homossexual deportado para o campo nazista de Buchenwald. Revista de Estudos da Linguagem, [S. l.], v. 33, n. 2, p. 199–219, 2026. DOI: 10.17851/2237-2083.33.2.199–219. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/58877. Acesso em: 1 apr. 2026.