O incomunicável como mecanismo de resistência na esfera do discurso testemunhal da catástrofe histórica
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.25–43Palabras clave:
Semiótica francesa, Semiótica tensiva, Testemunho da catástrofe histórica, Crise de comunicação, IncomunicávelResumen
Tomando como fundamento teórico a Semiótica Francesa, sobretudo em sua vertente tensiva, este artigo apresenta uma breve reflexão a respeito da crise de comunicação que se instaura, com frequência, no domínio testemunhal da catástrofe histórica. Nesse âmbito específico, a magnitude do acontecimento-catástrofe acaba por engendrar uma série de enunciados que sugerem uma espécie de impossibilidade discursiva, ora de ordem estritamente comunicativa (a experiência é “indizível”), ora de ordem assimilativa (a experiência é “incognoscível” ou “indecifrável”). Tal crise parece envolver, de maneira bastante ampla, dois actantes distintos: de um lado, um actante mais diretamente associado ao relato e, de outro, um actante mais diretamente associado à experiência sensível. Procuraremos mostrar que a crise de comunicação em pauta se constitui, preliminarmente, como manifestação de uma incompatibilidade tensiva entre os dois actantes e, subsequentemente, como marca de veridicção e mecanismo de resistência em face da banalização da experiência-limite.
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