Relações raciais, psicanálise, discurso e o legado quatro autoras negras brasileiras
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.289–317Palabras clave:
relações raciais, psicanálise, discurso, resistência, psicologiaResumen
O artigo tem como objetivo discutir as marcas das obras de quatro autoras negras na psicanálise e na psicologia. Lélia Gonzalez, Neuza Santos Souza, Isildinha Baptista Nogueira e Maria Aparecida Silva Bento que, dialogando com a teoria psicanalítica, produziram e produzem análises sobre as subjetividades negras e brancas, considerando o contexto estruturalmente racista da sociedade brasileira. Seus trabalhos convocam a psicanálise brasileira a acordar do repouso sobre o mito da democracia racial para que possa escutar testemunhos da violência racial no Brasil. Suas obras mostram a importância das produções discursivas na constituição da nossa cultura, das relações de dominação e exploração racial, bem como nos modos de viver, sentir e agir. Como método, as noções de ideologia, resistência e condições de produção do discurso foram utilizadas para tratar das construções teóricas dessas autoras e analisar seus efeitos no campo da psicanálise, bem como seu papel fundamental para o enfrentamento do racismo e do epistemicídio no âmbito da psicologia brasileira. Nos resultados, observou-se que a atuação dessas autoras evidencia, entre outras coisas, a importância de suas implicações a partir do lugar que ocupam/ocupavam, produzindo resistência ao (não)lugar destinado ao negro na teoria psicanalítica, e colocando suas experiências de vida como motor de uma produção acadêmica que constrói outros sentidos onde havia, se não o mito da democracia racial, silenciamento. As conclusões apontam para o papel do discurso da neutralidade e separação sujeito-objeto na manutenção do status quo da desigualdade racial na teoria e prática clínica psicanalítica ou, ainda, no âmbito da psicologia
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