A condição feminina nos relatos de tortura sexual às Comissões da Verdade no Brasil e na África do Sul
DOI:
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.258–275Palabras clave:
análise do discurso, patriarcado, Ditadura Militar, apartheidResumen
Esta pesquisa analisa o discurso nos relatos de violência sexual de ex-presas políticas apresentados à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no contexto do regime ditatorial-militar brasileiro, e à Truth and Reconciliation Commission (TRC), no contexto do apartheid sul-africano. Os relatos são divididos em dois grupos: testemunhos de mulheres à CNV e testemunhos de mulheres à TRC. O objetivo é compreender como o gênero é performado nesses relatos, à luz das formulações de Butler (2018), em diálogo com Segato (2022) e Foucault (1970, 1975). O artigo, com foco em discursos de negação e justificativa da violência sexual, conclui que a impunidade dos perpetradores de violência sexual durante esses regimes, violência essa respaldada pelo Estado, aliada à forma limitada com que as comissões da verdade trataram o tema, contribuiu para a naturalização e a persistência da violência contra a mulher nas sociedades contemporâneas. Os relatos são analisados por meio da ferramenta de análise linguística Sketch Engine, tendo, assim, a Linguística de Corpus como abordagem metodológica. Essa análise parte de uma perspectiva decolonial de análise crítica do discurso.
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