Afeto, pós-memória e resistência no discurso testemunhal

uma análise linguístico discursiva do relato de Nair Kobashi

Auteurs

DOI :

https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.220–235

Mots-clés :

testemunho, ditadura civil-militar, discurso de resistência, memória, pós-memória

Résumé

Este artigo propõe uma análise discursiva do testemunho de Nair Yumiko Kobashi, ex-presa política durante a ditadura militar brasileira, com base no capítulo “Pequenas estratégias de sobrevivência”, publicado na coletânea Tiradentes: um presídio da ditadura (Freire; Almada; Ponce, 1997). A investigação focaliza a mobilização dos afetos como estratégia argumentativa e como um meio de resistência simbólica, observando como o discurso da autora ressignifica a experiência da prisão por meio da valorização da solidariedade, do humor e do cotidiano partilhado entre as detentas. O objetivo é compreender de que forma a linguagem sustenta e performa esse contradiscurso, ativando a memória como forma de resistência simbólica e política. A análise apoia-se nas contribuições de Christian Plantin (2010), Veena Das (2007), Michael Pollak (1989), Marianne Hirsch (1992-93) e Ruth Amossy (2008), articulando as noções de tópicas da emoção, memória subterrânea, pós-memória e ethos discursivo. Conclui-se que o testemunho de Kobashi constitui um (contra)discurso de resistência que inscreve na cena pública uma memória sensível e ética da repressão, projetando um legado pós-memorial que interpela o presente e as futuras gerações.

Biographie de l'auteur

  • Andrea Machado de Almeida Mattos, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) | Belo Horizonte | MG | BR

    Faculdade de Letras da UFMG Lingüística Aplicada Ensino de Inglês Formação de Professores Letramento Crítico

Références

ABEL, O. Justiça e mal. In: GARAPON, A; SALAS, D. A justiça e o mal. Trad. Maria Fernanda de Oliveira. Lisboa: Piaget, 1999. Apud LOPES, M S. A crônica da justiça. Belo Horizonte: Initia Via, 2018. 258p.

ABREU-AOKI, R; ARCANJO, F. Á. Emoções e memória nos testemunhos de crianças atingidas pela ditadura militar no Brasil. In: LIMA, H. M. R. de; ABREU-AOKI, R.; MAZZOLA, R. (orgs.). Retórica, argumentação e emoções: itinerários convergentes. Campinas: Pontes, 2023. p. 109-132.

ABREU-AOKI, R.; KOBASHI, N. Y. Narrativas entrelaçadas: discurso, memória e verdade na reconstrução da história brasileira. In: MOURA, J. B. de; ROCHA, M. S. da; TOMAZ, P. R.; LOPES, M. (orgs.). Argumentação, retórica e análise do discurso. Campinas, SP: Pontes Editores, 2025. p. 169-191.

AMOSSY, R. Imagens de si no discurso: a construção do ethos. Tradução de Eliana Aguiar. São Paulo: Contexto, 2008.

BRAGA, S. C. Fiction, Postmemory and Transgenerational Trauma: literary possibilities through the Shoah Paradigm. Práticas da História, Lisboa, n. 17, p. 263-294, 2023. DOI: https://doi.org/10.48487/pdh.2023.n17.28468

BRUNER, J. Actual minds, possible worlds. Cambridge: Harvard University Press, 1986. 228p.

BRUNER, J. Making stories: law, literature, life. Cambridge: Harvard University Press, 2002.

DAS, V. Life and Words: Violence and the Descent into the Ordinary. Berkeley: University of California Press, 2007.

FELMAN, S; LAUB, D. Testimony: Crises of Witnessing in Literature, Psychoanalysis, and History. New York: Routledge, 1992.

FICO, C. O golpe de 1964: momentos decisivos. Rio de Janeiro: FGV, 2014.

FREIRE, A.; ALMADA, I.; PONCE, J. A. de G. (orgs.). Tiradentes, um presídio da ditadura. Memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione, 1997.

GUTERMAN, M. Holocausto e memória. São Paulo: Contexto, 2020.

HALBWACHS, M. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. São Paulo: Centauro Editora, 2006.

HIRSCH, M. Family pictures: Maus, mourning, and post-memory. Discourse, Detroit, v. 15. n. 2, p. 3-29, Winter 1992-1993. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41389264. Acesso em: 17 mai 2025.

HIRSCH, M. Family Frames: Photography, Narrative and Postmemory. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1997.

HIRSCH, M. The Generation of Postmemory: Writing and Visual Culture After the Holocaust. New York: Columbia University Press, 2012.

KOBASHI, N. Y. Pequenas estratégias de sobrevivência. In: FREIRE, A.; ALMADA, I.; PONCE, J. A. de G. (orgs.). Tiradentes, um presídio da ditadura: memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione Cultural, 1997. p. 309-313.

LINS, S. L. da F. Corpos feitos de memória: subjetivação e construção dos corpos femininos durante a ditadura civil-militar brasileira (1969-1972). Revista Temporalidades, Belo Horizonte, v. 1, n. 13, p. 30-38, 2019. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/sures/article/view/1806. Acesso em: 29 abr 2025.

LOPES, M. S. A crônica da justiça. Belo Horizonte: Initia Via, 2018.

MATTOS, A. M. de. Linguística Aplicada e transdisciplinaridade: as potencialidades da pós-memória. In: FREIRE, R. G. S.; MAROSINI FILHO, C. B.; VALIAS, T. B. O.; FIGUEIREDO, L. M. B. de; SOUZA, W. E. de; OLIVEIRA, A. L. A. M.(orgs.). Linguística em debate: desafios e perspectivas - pesquisas desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da UFMG. Campinas - SP: Pontes Editores, 2023. p. 571-591.

MATTOS, A. M. de; CAETANO, É. A. Memória, pós-memória e formação crítica de professores de línguas. Línguas & Letras, [S. l.]. v. 20, n. 46, p. 167-186, 2019. DOI.: http://dx.doi.org/10.5935/1981-4755.20190010.

MATTOS, A. M. de; COURA, M. A. História, Memória e Pós-memória: presente, passado e futuro na formação crítica de professores de inglês. In: CAETANO, E. A. (org.). Pós-memória e decolonialidade no ensino de línguas no Brasil: as origens do status quo. São Carlos: Pedro & João Editores, 2021. p. 179-221.

NAPOLITANO, M. 1964: História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2018.

OLIVEIRA, A. Identidade, memória e a ecranização. O indivíduo e a experiência na era hipermoderna. Vista, Braga, n. 2, p. 264-283, 2018. Disponível em: https://www.academia.edu/37690187/Identidade_mem%C3%B3ria_e_a_ecraniza%C3%A7%C3%A3o._O_indiv%C3%ADduo_e_a_experi%C3%AAncia_na_era_hipermoderna. Acesso em: 19 jan. 2019.

PLANTIN, C. As razões das emoções. Trad. Emília Mendes. In: MENDES, E.; MACHADO, I. L. As emoções no discurso. v. II. Campinas, SP: Mercado das Letras, 2010, p. 57-80.

PONCE, J. A. de G. E por que o presídio Tiradentes? In: FREIRE, A.; ALMADA, I.; PONCE, J. A. de G. (orgs.). Tiradentes: um presídio da ditadura. Memórias de presos políticos. São Paulo: Scipione, 1997. p. 21–24.

POLLAK, M. Memória, esquecimento, silêncio. Tradução de Cláudia Berretta Silva. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/issue/view/306. Acesso em: 25 abr 2025.

SELIGMANN-SILVA, M. A virada testemunhal e decolonial do saber histórico. Campinas: Editora UNICAMP, 2022.

SELIGMANN-SILVA, M. Narrar o trauma: a questão dos testemunhos de catástrofes históricas. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 20, n. 1, p. 65–82, 2008. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-56652008000100005

TORRE DAS DONZELAS. Direção: Susanna Lira. São Paulo: Modo Operante Produções, 2018. vídeo (documentário, 92 min), son., color. Disponível em: https://globoplay.globo.com/torre-das-donzelas/t/5p9sXM2wvw/. Acesso em: 18 mai 2025.

Téléchargements

Publiée

2026-03-30

Numéro

Rubrique

Narrativas de teor testemunhal como discursos de resistência

Comment citer

Afeto, pós-memória e resistência no discurso testemunhal: uma análise linguístico discursiva do relato de Nair Kobashi. Revista de Estudos da Linguagem, [S. l.], v. 33, n. 2, p. 220–235, 2026. DOI: 10.17851/2237-2083.33.2.220–235. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/relin/article/view/59185. Acesso em: 1 avr. 2026.