Entretecer as vozes da cura
A Reading of Exiles: Stories From a Prison Hospital, by Natalia Timerman
DOI :
https://doi.org/10.17851/2237-2083.33.2.276–288Mots-clés :
encarceramento em massa, vozes narrativas, curaRésumé
O objetivo deste artigo é investigar as vozes narrativas presentes em duas personagens femininas na obra Desterros: histórias de um hospital prisão, de Natália Timerman (2017) à luz da perspectiva teórico-metodológica da Análise Semiolinguística do Discurso de Patrick Charaudeau (1992, 2008), especialmente no que se refere à encenação narrativa, articulada a estudos sobre a ancestralidade (Martins, 2021) e aos estudos sobre o espaço prisional, especialmente o encarceramento em massa de Borges (2019) e aos estudos de Davis (2018), que apontam para o encarceramento como punição. Além desses estudos, comparecem, na investigação, os estudos sobre a presença, de Gumbrecht (2010), as ideias sobre o punitivismo evocadas por Foucault, em Vigiar e Punir (1987) e o olhar a respeito do si mesmo como outro, de Paul Ricoeur (2014). A partir de uma perspectiva qualitativa de análise do discurso das vozes narrativas evocadas pelos sujeitos selecionados no corpus, partimos do pressuposto de que, uma vez que o sujeito encarcerado não está com sua liberdade assegurada no espaço prisional, é necessário que lhe seja assegurado o direito de cura – real e simbólica - e de transformação. Os resultados demonstram que o sujeito narrador forjado por Timerman, no espaço enunciativo-discursivo, constrói um entremear de vozes que coloca as duas personagens femininas em um amálgama a partir do qual se dá o processo de cura e de autotransformação.
Références
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