Deformação e revelação, pressupostos para o milagre visual. O tratado da Ótica de Inácio Vieira.
Publicado 2026-08-24
Palavras-chave
- Inácio Vieira,
- Perspetiva,
- Milagre visual
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Resumo
O presente artigo debruça-se sobre os conteúdos da ótica relativamente à projeção de imagem em superfícies planas, curvas e compostas e a metáfora do milagre visual. Este domínio, caracterizado pelo mínimo Jean François Niceron como perspective curieuse (1638) e consolidado sob o termo anamorfose pelo jesuíta Gaspar Schott na sua Magia universalis naturae et artis (1657), buscava demonstrar que mesmo o que aparentemente transcende a razão possui uma verdade lógica. Assim sendo, e no contexto religioso, estas técnicas foram instrumentalizadas por estes intelectuais, bem como Athansius Kircher e Emmanuel Maignan para a fabricação de fantasmagorias que aliavam o racionalismo matemático ao misticismo teológico, visando inflamar a fé.
Tendo por base este enquadramento propõe-se o exame dos rudimentos geométricos essenciais à delineação de ilusões vocacionadas tanto à demonstração do milagre visual, por via da anamorfose, quanto à transformação percetiva do espaço, através da pintura de quadratura. Para isso, analisam-se, em profundidade, a ressonância destes conteúdos na obra do jesuíta Inácio Vieira, especificamente nos seus manuscritos da Ótica, considerando-se tanto a versão da Biblioteca Nacional de Portugal (1714) como a da Biblioteca Nacional do Brasil (1719), cuja circulação atesta a disseminação destes saberes nos territórios ultramarinos durante o ciclo do ouro.
Mais particularmente, a pesquisa concentra-se na Parte 3 do tratado, intitulada "Dos enganos e desenganos da vista", a qual integra uma análise detalhada das propriedades geométricas dos raios visivos, ilusões de ótica e curiosidades. Vieira distingue a ótica física (estudo do órgão visual) da ótica geométrica (perspética), tratando a linha visual como uma entidade matemática capaz de simular e manipular a realidade. O engano da vista é por si definido, não como um erro sensorial, mas, como uma discordância ou deformidade entre a imagem visual pintada na retina e o objeto real, fornecendo o fundamento para que o entendimento desengane a razão.
A metodologia aplicada fundamenta-se na análise comparativa dos manuscritos de Vieira com a tratadística europeia de referência, como Dechales, Niceron e Pozzo. Através de uma leitura comentada do texto de Vieira e do redesenho analítico dos seus esquemas projetivos, com especial incidência no triângulo radiozo e no instrumento mezôptico de Kircher/Schott, descodificam-se os rudimentos geométricos e mecânicos da delineação e projeção de imagens. O objetivo central é clarificar os procedimentos de deformação que sustentam a criação de ilusões e a fabricação do milagre visual no contexto barroco.
A sistematização de Inácio Vieira revela a perspetiva como um instrumento do engenho criador, libertando-a da mera imitação do natural para se impor como ferramenta de transformação do mundo percebido. Ao fornecer procedimentos para a manipulação do milagre visual, Vieira perpetua uma visão simbólica do cosmos onde a primazia dos sentidos sobre a razão serve os desígnios da cultura visual barroca, tornando-se um documento essencial para compreender a circulação de conhecimento científico e respetiva transferência à prática artística luso-brasileira.