DOSSIÊ: POESIA BRASILEIRA DOS ANOS 1970 e 1980: crise, crítica, experiência e experimentação

2026-01-20

Organização:

Vinícius Cassiano Campos Abreu (Universidade Federal de Minas Gerais)

viniciuscassiano007@gmail.com 

Prazo de envio das submissões: 31/07/2026.

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A poesia dos anos 1970 e 1980 é marcada pela pluralidade de dicções, experiências e experimentações no campo da linguagem. Assinalada por um momento de crise, seja no campo da arte, seja pelo contexto histórico (Guerra Fria, ameaça nuclear, Ditadura Civil-Militar, guerras anticoloniais e de independências, organização de movimentos políticos e sociais), a poesia dessas duas décadas no Brasil é interessante pela qualidade da produção e pelo surgimento/estabelecimento de nomes incontornáveis do cenário poético nacional. Diversificada e dividida entre grupos e movimentos, pode-se catalogar representantes da poesia marginal e suas desinências da Geração Mimeógrafo, “entendida como a experiência poética central da década de 1970” (Inquietudo: uma poética possível no Brasil de 1970, Renan Nuernberger), mas também poetas próximos dos ensinamentos da poesia concreta, pós-concretos, prosseguimento do projeto, além dos próprios concretistas dos anos 1950 publicando importantes obras durante essas duas décadas. Salvo esses dois polos, é possível destacar aquelas obras que realizaram diálogos, hibridizações e reflexões entre os dois movimentos, um interregno entre vanguarda e marginalidade, uma poesia do impasse, fazendo com que, em alguns casos, uma divisão estanque entre marginais e construtivismo não seja possível. Ademais, obras em contraposição ao projeto concretista, como a continuidade do projeto dos neoconcretos, também são produtores de livros destacados do momento. Além disso, é preciso enfatizar aquelas obras que não se encaixam em nenhum dos grupos e mesmo assim são produtoras e refletidoras das cicatrizes de uma época crítica (em crise e em reflexão) num cenário mundial e doméstico tenso. Alargar o panorama para além do eixo São Paulo-Rio de Janeiro que, de maneira geral, circunscrevem esses movimentos, também é importante para radiografar a produção ímpar de alguns poetas e ampliar as considerações daquilo que a historiografia literária, por vezes, ignora por não estar caracterizada como “geracional”.

A poesia dessas duas décadas, “tempo de muita poesia e muita loucura” (Destino: poesia, Italo Moriconi), também é marcada por: experiências e experimentações com os movimentos da contracultura; a aproximação com outras artes e mídias, como a música popular, com alguns poetas participando ativamente do Tropicalismo, e as artes plásticas; o aproveitamento de uma linguagem próxima e em diálogo com as mídias de massas, como o rádio, a televisão e a publicidade; uma recuperação e releitura dos postulados do primeiro modernismo de 1922; o uso da performatividade, da corporalidade no estabelecimento de uma poética; a elaboração de uma poesia de protesto e denúncia, propondo uma nova reflexão sobre a condição nacional em um momento de cerceamento dos direitos civis e de guerras imperialistas pelo mundo, poetas que buscaram “uma maior comunicação com as massas trabalhadoras – procurando identificar-se com elas –” (Inquietudo: uma poética possível no Brasil de 1970, Renan Nuernberger); um retorno ao lirismo e o aprofundamento do anti-lirismo em outros poetas são provas de uma época de efervescência no campo da poesia (Poesia em risco: Itinerários para aportar nos anos 1970 e além, Viviana Bosi; Neste instante: novos olhares sobre a poesia dos anos 1970, Viviana Bosi e Renan Nuernberger; Mistura adúltera de tudo: a poesia dos anos 70 até aqui, Renan Nuernberger). Um “vasto caldeirão de sopa para qualquer paladar” (Notícia da atual poesia brasileira – dos anos 1980 em diante, Wilberth Salgueiro) com poesias abordando temas diversos, apoiados em tradições várias, experimentando a linguagem de maneiras singulares.

Momento de mudança do mercado editorial e do público leitor de poesia: “Frente ao bloqueio sistemático das editoras, um circuito paralelo de produção e distribuição independente vai se formando e conquistando um público jovem que não se confunde com o antigo leitor de poesia. Planejadas ou realizadas em colaboração direta com o autor, as edições apresentam uma face charmosa, afetiva e, portanto, particularmente funcional”, a década de 1970 foi responsável pela “desierarquização do espaço nobre da poesia” (26 poetas hoje, Heloísa Buarque de Holanda). Junto à financeirização do mundo e o postulado de fim da arte (O que resta: arte e crítica de arte, Lorenzo Mammì), uma época de opacidades (Dentro do nevoeiro, Guilherme Wisnik), pode-se afirmar que a poesia dos anos 1970 e 1980 teve o desejo de enunciar que algo se rompeu e se transformou radicalmente no campo da poesia. Foi um período de transição entre uma especialização cada vez maior da figura do poeta e da estabilização do mercado (Poesia e crise, Marcos Siscar). 

Quarenta, cinquenta décadas depois, o interesse e a renovação de estudos sobre os poetas desse período ainda apresentam grande fôlego dentro do mercado editorial, com antologias e relançamentos frequentes de livros de poetas desses anos, e das produções acadêmicas, demonstrando a forte presença das obras e dos temas centrais dos anos 1970-1980 no extremo contemporâneo. “Questionamentos sobre a transformação da arte e da poesia foram empreendidos com radicalidade naqueles anos, em paralelo com a manifestação do desejo de mudança de vida. Hoje, o período virou um produto de moda nostálgico, entre outras razões porque representa um momento seminal para a experiência contemporânea” (Poesia em risco: Itinerários para aportar nos anos 1970 e além, Viviana Bosi).

Diante desse panorama, o dossiê pretende acolher textos que discutam criticamente uma ou mais de uma palavras-chave da chamada (crise, crítica, experiência e experimentação) em relação a poetas que surgiram ou publicaram obras durante os anos de 1970 a 1989 no Brasil. Encontram-se, portanto, no escopo da chamada estudos sobre:

  1. um ou mais poetas que publicaram obras durante essas décadas no Brasil;
  2. grupos de poetas ou revistas de poesia publicadas nesse período no Brasil;
  3. temas, linguagens, movimentos artísticos em diálogo com a poesia publicada nesse período no Brasil;
  4. projetos editoriais autônomos, experimentações no campo da edição de livros;
  5. a presença de autores representativos dessas décadas em autores posteriores no extremo contemporâneo.

Para a seção Poéticas, estão abertas as submissões para produções literárias (narrativa, poesia e dramaturgia), midiáticas (vídeo, desenho e fotografia), fonográficas (música e leitura de texto literário) ou intermidiáticas que proponham a reflexão sobre autores, movimentos ou sobre o próprio período.

A Em Tese é um periódico eletrônico semestral do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da UFMG dedicado a divulgar produções e pesquisas nas áreas de Estudos Literários e de Artes. Para além dos textos do dossiê, a revista aceita, em fluxo contínuo, textos inéditos que contemplem as áreas de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira, Literaturas Clássicas e Medievais, Literaturas Estrangeiras Modernas e Literatura Comparada.