A Representação Fonológica dos Róticos no Português Brasileiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.61138

Palavras-chave:

Fonema, sons de ‘r’ , Róticos , Representação Fonológica , Contraste fonêmico

Resumo

Este artigo tem por objetivo caracterizar a variabilidade fonética observada nos róticos do Português Brasileiro (PB) e considerar representações fonológicas possíveis para esta classe de sons. Cinco propostas são analisadas: histórica, unifonemática, bifonêmica, trifonêmica e distribucional. Enquanto as propostas históricas, unifonemática, bifonêmica, trifonêmica pautam-se no contraste fonêmico, a proposta distribucional avalia a relação do contexto em que os sons ocorrem. Critérios distribucionais e contextuais oferecem explicações abrangentes tanto para casos de alternância categórica (fonemas) quanto para casos de variação sociolinguística (alofonia) dos róticos no PB. Adicionalmente, a proposta apresentada explica por que o tepe não ocorre em início de palavra: ele ocorre obrigatoriamente entre vogais. É também explicado por que somente o tepe ocorre em formas derivadas (amores, amoroso) e junturas de palavra terminada em rótico e seguida de vogal (amor eterno), além de explicar fenômenos de variação linguística descritos na literatura.

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Publicado

2026-03-30

Como Citar

A Representação Fonológica dos Róticos no Português Brasileiro. (2026). Caligrama: Revista De Estudos Românicos, 30(3), 238-254. https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.61138