O contato linguístico hispânico-português na Península Ibérica
uma análise diacrônica dos traços fonético-fonológicos e morfossintáticos do barranquenho
DOI:
https://doi.org/10.35699/2317-2096.2025.62582Schlagwörter:
Península Ibérica, fonologia, morfossintaxe, BarranquenhoAbstract
O contato linguístico hispânico-português existente na Península Ibérica, há séculos, favoreceu o surgimento de um novo sistema linguístico: o barranquenho. Esta variedade, constituída no espaço fronteiriço entre Portugal e a Espanha, desenvolveu-se no limiar das peculiaridades do contexto histórico-geográfico de Barrancos – uma vila situada no distrito Alentejano de Beja, em Portugal. O presente artigo tem por objetivo geral traçar uma análise diacrônica dos traços fonético-fonológicos e morfossintáticos do barranquenho, desvelando, especificamente, que aspectos das línguas portuguesa e espanhola foram assimilados por essa língua mista. Além disso, visa a expor, também, os novos usos de formas linguísticas corporificados, de forma original, na estrutura da variedade em enfoque. A proposição dessa análise, de natureza teórico-descritiva, calcada na literatura especializada sobre o barranquenho, fundamenta-se, sobretudo, na obra de Vasconcelos (1955), bem como nos estudos de Navas Sánchez-Élez (1992, 2011). A investigação dos traços dessa língua aponta que, apesar de Barrancos pertencer a Portugal, a influência espanhola sobre a variedade mista persiste, sendo esta notável, especialmente, no domínio morfossintático. Outrossim, o barranquenho comporta uma variação interna, abrangendo inúmeros aspectos que coexistem nas variedades meridionais do português e do castelhano estremenho/andaluz. Trata-se de uma língua minoritária que se encontra em vias de desaparecer frente ao prestígio do português – idioma oficial e majoritário de Portugal. Políticas linguísticas recentes têm se dedicado a desenvolver estratégias para a salvaguarda do barranquenho, dado que, em âmbito local, ele é constitutivo dos prismas identitários de seus falantes e, em âmbito global, seu possível desaparecimento configura uma grande perda para o panorama linguístico românico.
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