“Ter dúvidas hoje é o mesmo que ser cúmplice”
O outro entre nós em Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues
DOI:
https://doi.org/10.17851/2359-0076.46.75.102-116Palavras-chave:
Tiago Rodrigues, Catarina Eufémia, fascismo, século XXIResumo
Catarina e a beleza de matar fascistas, peça encenada pela primeira em 2020, ganhou em abril de 2024, no cinquentário da Revolução dos Cravos, a sua publicação em livro. Tiago Rodrigues, pertencente à geração do pós-25 de abril, aborda o descompasso entre certezas e dúvidas, mas também o impacto do passado em gerações distintas, a partir de um intertexto com um referente histórico que retoma as atrocidades do Estado Novo. Afinal, o quanto o trauma de uma geração pode atingir seus descendentes? Mas, sobretudo, o quanto uma ameaça do passado pode ganhar um novo corpo, um novo discurso, no presente/futuro? O título da peça e sua sinopse não deixam muitas dúvidas sobre a trama: estamos diante de uma família que mata fascistas e essa é uma tradição seguida por membros de várias gerações, até Catarina se recusar a cumprir a sua iniciação. Este texto, que parte das reflexões desenvolvidos no âmbito do projeto “A Longa Duração do Pós-25 De Abril: Testemunho, Pós-Memória e Pós-Migração na Narrativa Portuguesa Contemporânea”, financiado pelo CNPq, apresenta os dilemas de uma tradição deixada como herança (Derrida) e o dever de memória (Ricouer) diante do atual discurso da extrema-direita portuguesa compreendido como retomada de imaginário que remete ao contexto do Estado Novo. O outro, fascista, como parte de um nós, nacional, que não pode ser subestimado, pois ganha espaço, voz e faz ecoar um programa político que se pensava adormecido após o 25 de abril.
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