Revolução cognitiva e processamento de informação sessenta anos depois

retrospectiva e tendências

  • Ederaldo José Lopes Universidade Federal de Uberlândia
  • Joaquim Carlos Rossini Universidade Federal de Uberlândia
  • Renata Ferrarez Fernandes Lopes Universidade Federal de Uberlândia
  • William Barbosa Gomes Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  • Iray Carone Universidade de São Paulo
Palavras-chave: revolução científica, processamento de informação, memória, neurociências

Resumo

A Revolução Cognitiva em psicologia foi um movimento que eclodiu na década de 1950, dando origem ao que ficou conhecido como abordagem ou paradigma do processamento de informação. Comemorando os sessenta anos desse movimento, este artigo visa discutir os desenvolvimentos históricos e epistemológicos da suposta revolução, sobretudo o uso indiscriminado das expressões kuhnianas, sobejamente empregadas como uma das justificativas para o aparecimento do processamento da informação. Ao mesmo tempo, apresenta dois tópicos de pesquisas na área cognitiva, a atenção e memória, com alguns exemplos de continuidade das pesquisas com base experimental, uma tendência que continua forte desde aquela época, bem como exemplos de estudos que representam uma aliança produtiva da psicologia cognitiva com os avanços neurocientíficos. Como conclusão, o movimento, embora criticado na sua pretensão revolucionária e paradigmática, continua tendo grande valor heurístico na sua dimensão experimental, assim como nas alianças com as neurociências ou outras áreas das ciências cognitivas.

Biografia do Autor

Ederaldo José Lopes, Universidade Federal de Uberlândia
Professor titular, Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Doutor em Psicobiologia (USP-RP) e pós-doutor pela Universidade Federal de São Carlos. Pesquisador 2/ CNPq. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (2008-2009).
Joaquim Carlos Rossini, Universidade Federal de Uberlândia
Professor associado, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Doutor em Psicobiologia (USP-RP) e pós-doutor pela Concordia University, Montreal, Canadá. 
Renata Ferrarez Fernandes Lopes, Universidade Federal de Uberlândia
Professora titular, Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Doutora em Psicobiologia (USP-RP) e pós-doutora pela Universidade de São Paulo.
William Barbosa Gomes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Professor titular, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutor em Higher Education pela Southern Illinois University - Carbondale (USA), pós-doutor pela mesma instituição e pela University of Michigan. Pesquisador 1A /CNPq. Foi presidente da ANPEPP (2013-2014).
Iray Carone, Universidade de São Paulo
Professora doutora, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Doutora em Filosofia pela PUC/SP, pós-doutora pela University of California/Berkeley, New School for Social Research, Columbia University e UNED, Espanha. 

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Publicado
2018-12-13
Como Citar
Lopes, E. J., Rossini, J. C., Lopes, R., Gomes, W., & Carone, I. (2018). Revolução cognitiva e processamento de informação sessenta anos depois. Memorandum: Memória E História Em Psicologia, 35, 40-64. Recuperado de https://periodicos.ufmg.br/index.php/memorandum/article/view/6887
Seção
Artigos