Entre o insólito e a máquina

o golem de Pantokrátor como espelho das tensões do proletariado no século XXI

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.4.%25p

Palavras-chave:

insólito, golem, real lacaniano, discursos constituintes, proletário contemporâneo

Resumo

Este artigo investiga a figura do golem no romance Pantokrator, de Ricardo Labuto Gondim, como um ícone das tensões vividas pela classe proletária no século XXI. A partir da análise de enunciados literários permeados pelo insólito, examina-se como a construção narrativa do golem traduz as complexidades e opressões enfrentadas pelas classes subalternas em um contexto global e tecnológico. O insólito literário, fundamentado nas reflexões de Irène Bessière e Remo Ceserani, é considerado aqui não como mero escapismo, mas como recurso que provoca efeitos de sentido, subverte convenções e permite explorar ambiguidades e dilemas éticos próprios da contemporaneidade marcada pela automação e pelo aumento das desigualdades. A análise focaliza a trajetória do protagonista golem, suas relações e reflexões, evidenciando como o romance aborda as fronteiras entre tecnologia, subjetividade e poder sob o capitalismo tardio. O estudo é apoiado por uma abordagem interdisciplinar, articulando ainda os conceitos psicanalíticos de Real, Simbólico e Imaginário de Jacques Lacan, que ajudam a compreender a presença do indizível e do traumático na experiência proletária ficcionalizada. Além disso, utiliza a categoria dos discursos constituintes de Dominique Maingueneau para analisar o papel da literatura na elaboração de sentidos e identidades sociais. Conclui-se que Pantokrator exemplifica como o insólito literário pode reelaborar questões políticas e culturais contemporâneas, fazendo do golem um espelho das angústias e desafios dos trabalhadores diante das mudanças tecnológicas e das estruturas de poder do século XXI.

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Publicado

2025-12-19

Edição

Seção

Dossiê: Formas do coletivo na literatura brasileira moderna e contemporânea