Onde toda coisa escreve, o autor é “toda uma outra coisa”

a literatura indígena de autoria coletiva no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17851/2358-9787.34.4.%25p

Palavras-chave:

literatura indígena, autoria coletiva, pensamento ameríndio

Resumo

O movimento estruturalista, movido por uma crítica a certos valores ocidentais, buscou repensar a noção de autor dominante nos estudos literários até meados do século XX. Sabe-se que tal movimento deslocou de forma profícua e duradoura a noção de autoria. Todavia, é digno de nota que tais formulações teóricas foram elaboradas, principalmente, a partir de um modo de produção e recepção do texto que passa ao largo da escrita produzida por povos originários. Neste trabalho, diferentemente, cotejamos o pensamento de Roland Barthes e Jacques Derrida acerca da autoria com a literatura indígena de autoria coletiva produzida no Brasil – mais especificamente, a literatura Huni Kuĩ e Xakriabá – com vistas a indagar importantes pressupostos da teoria da literatura de origem europeia. Como procedimento metodológico, também evocamos obras críticas e teóricas de pensadores brasileiros, como Eduardo Viveiros de Castro e Maria Inês de Almeida, ambos estudiosos do pensamento e das poéticas ameríndias. Ver-se-á que a autoria comunitária, o registro da oralidade e uma relação singular com o sentido nos convidam a pensar a literatura indígena de autoria coletiva como dissidência de importantes noções de autoria produzidas na teoria da literatura ocidental, sobretudo no que diz respeito ao individualismo e ao humanismo.

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Publicado

2025-12-19

Edição

Seção

Dossiê: Formas do coletivo na literatura brasileira moderna e contemporânea