Desafiar a porta do não retorno

os provérbios negro-diaspóricos de Carolina Maria de Jesus e Mãe Stella de Oxóssi

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17851/2358-9787.35.2.%25p

Palavras-chave:

provérbios, Carolina Maria de Jesus, Mãe Stella de Oxóssi, oralituras negro-diaspóricas, crítica literária, comunidades diaspóricas

Resumo

Implicado no gesto de questionamento de certos fundamentos dos estudos literários hegemônicos, o artigo coloca em relação as obras Òwe/Provérbios (2007), de Mãe Stella de Oxóssi, e  Provérbios (1964), de Carolina Maria de Jesus. Com o propósito de complicar as dicotomias entre oralidade e escrita e entre saber e experiência, busca compreender e evidenciar os modos como a forma poética provérbio tensiona e sintetiza feições de natureza filosófica e pedagógica, dando a ver estratégias de transcriação e atualização da plêiade de saberes africanos em contexto diaspórico. Perscruta–se, assim, a hipótese de que, em face ao movimentos históricos de dispersão e estilhaçamento das subjetividades dos sujeitos negros subalternizados no globo, o provérbio, tal como empregado pelas autoras, se constitui como enunciado estético, ético e político que não apenas recupera experiências e reminiscências negras do passado, como também resguarda em si, de modo cifrado, o potencial de reorientação de vidas dispersas e, quiçá, de refazimento de comunidades para além da pátria. 

 

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Publicado

2026-06-26